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Honório Pereira Barreto

por Emerson Santiago
emerson@opatifundio.com
7 de November de 2008
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Negro, português, administrador, herói…e comerciante de escravos

TO NEM AÍ

Meu objetivo será tratar de lusofonia sem abordar assuntos relacionados a Brasil ou Portugal. Será que consigo?

Honório Pereira Barreto (Cacheu, 24/4/1813 - Bissau 26/4/1859)

Honório Pereira Barreto (Cacheu, 24/4/1813 - Bissau 26/4/1859)

Pode haver alguém aí que leia estas linhas e encontre pontos positivos no colonialismo português, como por exemplo a ilusória idéia da tolerância racial e cultural lusitana (o assunto deste artigo é prova do que afirmo). Por outro lado, se tal colonialismo não tivesse existido, não haveria Brasil, nem Angola ou Macau e muito da cultura desses lugares.

O fato é que hoje as ex-colônias portuguesas libertas em 1974 ainda precisam ir atrás de suas identidades, com maior consciência e objetividade.

A figura de Honório Pereira Barreto (Cacheu, 24/4/1813 – Bissau 26/4/1859) bem pode se encaixar nas reflexões que tenho feito neste site ao longo de alguns artigos, como por exemplo “O Preço da Liberdade”, e “Os Dois Lados de Timor”. Do ponto de vista da época em que vivemos, Barreto pode ser definido como simplesmente “controverso”.

Como nos dois artigos citados, este personagem também figurou em notas de dinheiro (da então Guiné Portuguesa); e assim como Dom Aleixo em Timor, foi alçado pelos colonizadores a herói e exemplo a todo guineense (será que o fato dele ter sido em toda história do Império Colonial Português o único administrador de origem não-européia ajuda?). E também como Dom Aleixo, alcançada a independência, a Guiné-Bissau relegou a figura de Barreto a uma sombra escura num porão qualquer de sua história.

Através das notas antigas de escudo guineense, em selos emitidos pela Guiné ou ainda em fotos de um antigo monumento dedicado à sua memória em Bissau, vemos a campanha portuguesa em prol do seu “exemplo”.

Assim como os brasileiros devem as suas atuais fronteiras ao Barão do Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos Júnior), os guineenses devem as suas a este filho de mãe guineense e pai cabo-verdiano, pois era bem provável que, se não fosse a sua capacidade de liderança, perspicácia e visão, a Guiné-Bissau, que hoje é um país pequeno (36.125 km2, cerca de um terço de Portugal, ou um pouco menor que o estado brasileiro do Rio de Janeiro) seria menor ainda.

Em seu tempo, a região de Casamança (ou Casamance), que hoje pertence ao Senegal, era guineense, e Honório fez de tudo para que assim permanecesse. Infelizmente, o sistema ao qual ele estava inserido era de uma inércia e languidez insuportável, e seus alertas constantes encontraram ouvidos moucos perante as autoridades portuguesas, que anos depois de sua morte, em 1888, entregariam de mão beijada a região à França.

Honório Pereira Barreto foi administrador (o posto de governador foi criado bem depois de sua morte; administrador era o título de maior autoridade da então colônia) não somente uma ou duas, mas três vezes. Levando em conta, novamente, o fato de que nem antes nem depois dele outro nativo em todo Império português conseguiria igualar o seu feito, é de se admirar a conquista deste guineense. A melhor explicação que pode haver para três mandatos (em três épocas diferentes) é que ele era um verdadeiro estadista.

Honório Pereira Barreto (Cacheu, 24/4/1813 - Bissau 26/4/1859)

Honório Pereira Barreto (Cacheu, 24/4/1813 - Bissau 26/4/1859)

O escritor português Jaime Walter publicou um livro, há muito esgotado, sobre o homem, no qual demonstra como funcionava a sua governança, que era de fato, sob todos os aspectos, inigualável. Quem tiver acesso aos documentos deixado por Barreto (inclusive um livro de sua autoria) reconhecerá nele um grande administrador.

O lado obscuro de sua biografia é que, numa época em que o comércio de escravos estava entrando em extinção (Portugal havia há muito abolido o tráfico, mas focos continuavam em seus domínios), Barreto consolidava na região de Cacheu um lucrativo comércio de variados produtos, e em especial, o de escravos. Vale lembrar aqui a ironia do comércio escravagista:

os europeus não conseguiriam traficar a enorme quantidade de gente que traficaram durante quase 500 anos se não tivessem sido auxiliados por homens como o ilustríssimo governador da Guiné, Honório Barreto, africano, negro, que fazia a conexão entre o coração da África e os navios negreiros, enchendo os porões desses mesmos navios de gente que tinha origem, cultura e vivência similares às dele.

O apreço das autoridades portuguesas para com Barreto teve reciprocidade, pois ele considerava-se um verdadeiro português, um “português da Guiné”. E o seu país, quase um século depois, deu a resposta, de uma forma sutil…elegeu como seu herói e mártir um outro guineense com raízes em Cabo Verde, mas que lutou para a Guiné ser uma nação. Este homem foi Amílcar Cabral, lenda no panteão de líderes da libertação do continente africano.

Eu não quero julgar, mas vale muito bem aqui fazer a pergunta: Honório Pereira Barreto…herói ou vilão?

:
é brasileiro, advogado, intérprete e tradutor de mandarim (chinês) e é um apaixonado pelas culturas lusófonas. A coluna TÔ NEM AÍ é publicada todas as semanas na Revista O Patifúndio!
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10 comentários

  1. carlam. says:

    Emerson, vou dar meu pitaco. Até por que, olhando assim por cima, e sem conhecer nada da história da Guiné-Bissau no século XIX, eu encontro muitas semelhanças com personagens do Império português (ou do que foi seu território) no mesmo período do outro lado do Oceano.
    Muitas vezes historiadores tem que responder a essa tua indagação de se fulano foi herói ou vilão. E quase sempre respondemos com algo parecido com o que tu já disseste, titulando a dita figura como mediador. Sim, esses caras que faziam a ponte entre o local e o central no Império português, que ao mesmo tempo em que faziam a fortuna de uma determinada localidade, contribuíam na sua exploração.
    É maluco pensar isso não?! Pensar em custo versus benefício na atuação de figuras como Honório.
    Fiquei curiosíssima pra saber mais. Quem sabe algum dia tomo contato com esse país que povoa meu imaginário há duas décadas…
    abraços,

  2. herói ou vilão? eis a questão!

  3. Gostei do texto!
    bastante opninativo!
    Parabéns!
    Abraço!

  4. Emanuel says:

    Ainda não ouvi falar desa pessoa, hojo foi a primeira vez.

    Bom o texto vou vir mais vezes aqui.

    Abraço

  5. Flavio Braga says:

    Emerson, penso que ele não foi nem herói nem vilão, foi um homem do seu tempo. Assim como daqui há 200 anos a História pode chegar a conclusão de quem posa de bonzinho hoje não é tão bonzinho assim, é mais ou menos assim que vejo a história de uma figura tão controversa. Até porque aprendi com a História que a Verdade não é absoluta. Hoje é uma coisa, amanhã é outra completamente diferente.
    Abraço.

  6. muito bom seu texto, parabens pela ideia de querer abordar varios paises que falam o portugues
    show

  7. Alexandre says:

    Parabéns pela abordagem deste tema, que constitui uma página hoje quase esquecida e ignorada da história colonial portuguesa, talvez porque Honório Barreto é uma figura incómoda para muita gente.

  8. pina says:

    Ola

    a 2ª foto que mostra como sendo a praca de honorio barreto esta mal. eu vou arranjar a foto e enviarei. o que voce mostra e do navegador portugues nuno tristao.
    parabens

  9. MLS says:

    Nos idos anos 60′ estive como militar da Marinha na Guiné, actualmente Guiné-Bissau, numa sempre indesejável guerra, qualquer que seja o local e ideologia defendidos.

    Encontrei sempre um povo são e fraterno e maus políticos, como hoje.
    As pessoas sãs e fraternas não mudaram e os políticos também não. Continuam maus a caminhar para pior!

    Não creio num País que renega a sua própria História. Há que a edificar dia-a-dia com os maus períodos de que há que tirar ilacções para não repetir futuramente e os bons períodos para lembrar e comemorar.

    Recordar o passado, viver o presente e projectar o futuro!

    Nuno Tristão, Diogo Gomes, Honório Barreto e Teixeira Pinto continuarão a ter um lugar na História mas nunca “escondidos” dentro do forte do Cacheu. Foram amputados à História e Bissau ficou mais pobre e diminuída.

    Ficou lá parte da minha vida e muitos camaradas.

    Apreciei verdadeiramente o texto sem qualquer saudosismo.

    mls

  10. Antonio J. E. Estácio says:

    Sou português nascido e, em grande parte, criado na Guiné. Daí nutrir particular interesse pela sua História, até Abril de 1974.
    Li com atenção o artigo do Sr. Emerson Santiago sobre o guineense Honório Pereira Barreto.
    Naturalmente por lapso, o texto apresenta uma foto que não é de Honório P. Barreto mas sim do antigo navegador Nuno Tristão, a qual se situava em frente ao cais do Pigiquiti, onde, a 03 de Agos-to de 1959, se registou o massacre de estivadores guineenses.
    Informo que desde 20.01.1975 a Praça Honório P. Barreto, passou a designar-se Praça Ernesto Che Guevara.
    Caso me seja solicitado terei muito gosto em enviar, por e-mail, uma foto da estátua que houve em Bissau e que era evocativa da figura de Honório Pereira Barreto.
    Sem mais, subscrevo-me respeitosamente

    António J. E. Estácio (citassi@yahoo.com.br)

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