Lusofonia, África e banjo – tudo a ver!
Qual leitor aí consegue citar um instrumento musical africano (de origem africana) e que não seja instrumento de percussão? Pois é, taí um belo estereótipo, o de que o africano só sabe bater tambor. Nada mais ilusório. Vou provar
TO NEM AÍ
Meu objetivo será tratar de lusofonia sem abordar assuntos relacionados a Brasil ou Portugal. Será que consigo?

Foto de Daniel Jatta, pesquisador e músico tocador do akonting, de Gâmbia, tendo ao fundo a pintura de William Sidney Mount "O tocador de banjo" (1856). Importante notar tanto quanto na pintura quanto na mão de Daniel Jatta, a posição para tocar é idêntica, demonstrando semelhança na técnica
Estereótipos enganam. Apesar de eu crer que eles possuem um pequeno fundo de verdade, servem também para cimentar visões deturpadas de outras culturas.
Creio que qualquer um já tenha visto um banjo na vida, seja ao vivo ou mesmo via desenhos do Pernalonga, certo? Pois o famigerado banjo é a versão norte-americana de um tradicional instrumento africano de três cordas chamado “akonting” (ou ekonting, como é conhecido no Senegal). O leitor logo pegará a pronúncia,
é fácil…A-KON-TING.
É instrumento tradicional do povo jola (ou diola, de acordo com a grafia em francês), utilizado pelos “griots” (classe de músicos itinerantes do norte da África, algo semelhante ao trovador europeu), e de acordo com a tradição oral do mesmo povo, o instrumento teria surgido na vila de Kanjanka, onde hoje é a região de Casamança, sul do Senegal. Aliás, o nome dado à afinação mais comum do instrumento relembra tal tradição, pois recebe este nome: “kan” é como é chamado o som da corda de acompanhamento, “jan”, o som da segunda corda e “ka” o da terceira, ao invés do convencional ré-sol-fá, na tradição ocidental.
A partir de Casamança o instrumento tornou-se parte da tradição musical de Guiné-Bissau e também de Gâmbia (mesmo porque os jolas estão distribuídos entre os três países, como convém à arbitrária e exploratória partilha da África feita pelos colonizadores europeus no final do século XIX). É bem semelhante ao banjo moderno, só que de dimensões maiores. O corpo é feito de uma grande cabaça recoberta com pele animal, sendo que o “braço” do instrumento consiste de uma larga vara que atravessa a cabaça. Possui três cordas, como já foi dito, sendo que uma dá o acompanhamento (assim como no banjo comum, de cinco cordas) e as outras duas dão a melodia.
Onde está a ligação com o banjo? É só observar o formato do instrumento, o modo como é construído, a técnica usada para tocá-lo (a técnica chamada “o´teck” se assemelha e muito a mais antiga forma de se tocar banjo), o sistema de corda de acompanhamento e coisas do tipo.
A ligação com a lusofonia? Casamança fez parte da Guiné-Bissau até 1886, quando foi incorporada ao Senegal francês. Até hoje a influência portuguesa é grande na área, havendo muitos Câmaras, Oliveiras, (o “Kamarrá” e o “Oliverrá”, ambos jogadores da seleção francesa, são de lá).
Há ainda o dialeto crioulo, o mesmo de Guiné-Bissau, que lá também se usa como “língua franca”, além de tradições européias e religião católica, bem como nomes de localidades (Ziguinchor, a capital de Casamança e maior cidade, alegadamente deve seu nome à expressão em português “cheguei e choram”, referência aos africanos temerosos de estarem presenciando a sua vez de serem lançados nos temíveis navios negreiros portugueses). É importante dizer que é mesmo por causa de tal região que o Senegal atualmente resolveu aderir à CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), como membro observador.
Não bastasse isso, o akonting deu origem a instrumentos similares em toda a região de população jola ou influenciada pelos mesmos (em Guiné-Bissau e Gâmbia, onde também boa parte da população fala crioulo); há o “buchundu”, instrumento do povo manjaco (Guiné-Bissau e Gâmbia), o “busunde” (do povo papel, de Guiné-Bissau), ou então o “kisinta” dos balantas, também de Guiné-Bissau.
Na verdade todos esses instrumentos são creditados como ancestrais do banjo (nem citei outros aqui da mesma região, com características similares), o que ocorre é que o akonting é o instrumento que mais se assemelha aos primeiros banjos norte-americanos, sendo por isso uma espécie de “elo perdido” na história musical estadunidense.
E para terminar, mais um elo com os países de língua portuguesa…apesar do instrumento surgir desta região da África (África ocidental, bem ao norte do continente), os colonizadores portugueses bem como os donos de escravos norte-americanos começaram a denominar o instrumento “banjo”, vindo da palavra “m´banza” em quimbundo (a língua do segundo maior grupo étnico de Angola), que significa “lar”, “cidade”, provável referência ao “banzo” que os escravos negros deviam sentir ao apoiarem seus lamentos nas cordas do instrumento…
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: é brasileiro, advogado, intérprete e tradutor de mandarim (chinês) e é um apaixonado pelas culturas lusófonas. A coluna TÔ NEM AÍ é publicada todas as semanas na Revista O Patifúndio! |
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linda essa “genealogia” do instrumento que tu fez. nós temos todos estereótipos e por mais que briguemos com eles, sempre os carregamos é importante as informações chegarem para sabermos que estamos errados. mesmo que seja aos pouquinhos.
abraço,
Engraçado.
Sempre achei que teria sido criado na Africa.
Afro Peruvians and Indigenous Muchik people also play Banjo in the northern coast of Peru, most likely a contribution of Afro descendant population in that area.
não achei porque lusofonia recebeu este nome
Meu caro Emerson
Foi com bastante felicidade e, porque não, surpresa que “apanhei” o seu artigo sobre a música moçambicana dos anos 1950 e 1960: Moçambique: arqueologia musical (05 de junho de 2008). Trata-se, para mim e para os meus amigos, de um importante documento para o enriquecimento que pretendemos para a nossa história – infelizmente pouco registada ou, em muitos casos, imprecisa e esteoriotipada.
Eu produzo na Rádio Moçambique – detentora do maior acervo de música moçambicana no meu país -chamado “Clube dos Entas”. Falo de MÚSICA no verdadeiro sentido da palavra. Como colaborador tenho Luís Loforte (meu irmão) cujos artigos sobre música moçambicana o Emerson pode ler na minha página.
Se não se importar vou me socorrer da sua investigação para uma das próximas edições do Clube dos Entas, citando, claro, a fonte.
Um abraço e disponível para qualquer informação a partir desta Varanda do Índico,tal como diz e bem o nosso escritor Mia Couto.
Edmundo
(www.gm54.wordpress.com)
Otimo!!! veio na hora certa estas informações, gostária saber mais sobre cultura lusofonia