A febre do telemóvel

Não há professor que não se queixe de, no começo das aulas, os alunos perderem os dez minutos iniciais a discutir quem tem hoje o direito de colocar o telemóvel à carga na única tomada eléctrica existente na sala
Os pedidos chovem do nada. Vamos na rua e de repente:
- Brancu, kumá? Pati um telemóvel. [Branco, como estás? Dá-me um telemóvel.]
- Humm, um telemóvel?! E um emprego não queres?
- Não, i ká pricisu emprego. Um telemóvel só. [Não, não é preciso emprego. Só um telemóvel]
A febre do telemóvel veio para ficar na Guiné-Bissau. A primeira rede foi inaugurada em 2003, mas neste espaço de tempo já tem quase 23 mil assinantes. Inicialmente, os promotores esperavam atingir um valor máximo de 10 mil clientes nos primeiros doze meses. Ultrapassaram o dobro, portanto. Face a isto a rede está permanentemente congestionada. Para conseguir uma ligação é necessário rezar primeiro e tentar depois.
A doença gera delírios e esterismos colectivos engraçadíssimos. Vejamos alguns deles.
Mudam-se os tempos, mudam-se as expressões

Loja Orange na França: multinacional francesa detém boa parte do mercado de telemóveis em Guiné-Bissau
Na estrada, a polícia manda parar os automobilistas que conduzam de telemóvel na orelha:
- Senhor, não sabe que não pode conduzir e falar ao telemóvel?
- Ahhh, mas o código da estrada da Guiné-Bissau não é o código português de 1900 e trocó passo, numa altura em que os telefones ainda eram de fios e funcionavam com uma manivela? Como é que a lei da altura já previa a proibição de falar ao telemóvel?
- Senhor, não sei nem me interessa. Não pode falar ao telemóvel enquanto conduz. Vou ter que ficar com o seu telemóvel.
Como é fácil perceber as violações ao código da estrada em África!
No que diz ainda respeito aos agentes de autoridade, a febre do telemóvel veio alterar o a forma de pedir “fim-de-semana” (pequena gratificação que se dá ao polícia quando algum documento não está em ordem). Assim, em vez de o agente de autoridade dizer: -Dá-me um “fim-de-semana” que eu deixo-te ir embora. - agora diz: - Dá-me um cartão de recarga [de telemóvel] que eu deixo-te ir embora.
Mudam-se os tempos, mudam-se as expressões.
O T guardado na pasta
Quando um qualquer professor de português pergunta aos alunos porque têm tantas dificuldades em falar português, a resposta é evidente:
- Ah professor, não há livros na Guiné!
- Então e não conseguem mandar vir de fora? Os vossos parentes, emigrados, não vos podem ajudar?
- Ah, sabe, é difícil…
Se daí a uns minutos o mesmo professor perguntar, aos mesmos alunos, como conseguiram eles ter um telemóvel (90% possuem um), a resposta será decidida:
- Ah! Este telemóvel? Foi o meu irmão que mandou de Portugal. É bonito não é? Para a semana vai mandar-me uma capa colorida, com bolinhas verdes e roxas da Bennetton! E já prometeu que no natal me oferece outro, com câmara fotográfica para tirar fotos! Sabe professor, este já está a ficar velho!
No segmento estudantil a febre do telemóvel é elevada ao expoente máximo. Neste grupo a doença atinge proporções tão grandes e tão difíceis de controlar de uns para os outros, que pode mesmo ser considerada surto infecto-contagioso.
Não há professor que não se queixe de, no começo das aulas, os alunos perderem os dez minutos iniciais a discutir quem tem hoje o direito de colocar o telemóvel à carga na única tomada eléctrica existente na sala. As discussões chegam a ser de tal ordem que para as evitar há já mapas e regulamentos para uso das tomadas eléctricas. Para melhor aproveitar o espaço há mesmo quem traga na pasta, juntamente com o carregador, um T, para que possa carregar três telemóveis em simultâneo.
Para que se perceba o porquê desta disputa é necessário afirmar que a Guiné-Bissau não tem um abastecimento regular de energia e que muitas das pessoas que possuem telemóveis não têm outra alternativa senão andar com os carregadores de baterias atrás, para carregar os aparelhos em qualquer local bafejado pela sorte de ter um gerador eléctrico.
Depois existem ainda os velhacos. Aqueles que ganham dinheiro à custa dos que querem andar de telemóvel à orelha. Como aquele senhor, em determinada instituição de ensino superior de Bissau, que cobra 100 francos (quinze cêntimos de Euro) por cada telemóvel colocado à carga. Como o Estado não lhe paga o salário, ele governa-se desta forma! Se for poupadinho ainda um destes dias o hei-de ver com um telemóvel também. E depois, quem lhe cobrará a ele a taxa de carregamento de bateria?
Assim correm os dias na Guiné-Bissau. Pode não haver arroz na barriga ou livros para ler, mas há móvel para falar.
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Global Voices Online » Guinea-Bissau: On the increasing popularity of mobile phones on Dom, 19th Out 2008 4:28 pm
[...] Rosmaninho writes at the Lusophone online magazine O Patifundio [pt] about the mobile phone fever in Guinea-Bissau. “There is not a single teacher who would [...]
Letícia Castro on Qua, 22nd Out 2008 9:38 pm
Que loucura, não? Mas aqui no Brasil é bem parecido, é uma febre sim e todo mundo tem celular, até criança de 3 anos. Eu acho que na Guiné-Bissau é uma tremenda forma de diversão o celular, quem pode negar-lhes o direito?
Beijos!
Global Voices amin´ny teny malagasy » Ginea Bisao: Mihamalaza hatrany ny finday on Qui, 23rd Out 2008 1:54 am
[...] Rosmaninho no manoratra ao amin'ny gazety antserasera mpiteny pôrtigey O Patifundio [pt] fa miroborobo fatratra ny finday any Ginea Bisao. “Tsy misy mpampianatra izay tsy mitaraina [...]
erich on Sex, 24th Out 2008 12:41 pm
Celular virou video game … parece objeto obrigatório por aqui … minha filha de 10 anos sabe mexer melhor do que eu.
carlam. on Ter, 28th Out 2008 12:36 am
É estranho pensarmos nas coisas acontecendo assim. Tenho uma tia, religiosa que vive numa missão em Canchungo, que me contou coisas semelhantes. Comentou que antes lhe pediam o fim-de-semana em canetas, camisetas ou mesmo em dinheiro, mas que agora, o pendem em recargas de telemóvel (os celulares para nós brasileiros). O engraçado é que ela mesma não tem um telemóvel, por que a rede funciona de forma ineficiente como tu mesmo falaste. E isso por vezes a faz alvo da pena dos habitantes locais, que acreditam que a missão já não tem a mesma “fortuna” que antes.
Aqui no Brasil, é semelhante o consumismo pelos aparelhos. Quando comentei há alguns dias que tinha o mesmo aparelho desde 2003 e que não pretendia trocá-lo até que deixasse de funcionar fui motivo de espanto para meus alunos. Perguntaram-me se professor ganhava tão pouco que nem um aparelho decente podia ter - leia-se com câmera e MP3. Quando respondi que dificilmente usaria tais ferramentas ouvi risadas. O que há de se fazer?! Estou satisfeita com meu aparelho.
Mas sigo impressionada com o fato de que os aparelhos de telemóvel aumentam em maior proporção numérica que as tomadas em Guiné-Bissau…
abraços,
Boingo on Seg, 21st Sep 2009 1:59 pm
Realmente a febre do celular (Tele movel) veio para ficar no mundo todo. Interessante que mesmo em Bissaú, pais pobre, a febre já chegou ás crianças.
Uma lástima, pois é provavel que antes de sua chegada em 2003, as crianças ocupavam seu tempo com brincadeiras, conversas ao vivo e tinham outras ambições que não esta, de ter a todo custo um telemovel.
Aqui no Brasil é comum mesmo pessoas pobres terem dois ou mais aparelhos. Eu, pessoalmente tenho um que me era útil apenas no trabalho, mas agora que estou em outra área de serviço, na qual não necessito mais dele, meu aparelho fica meses desligado na gaveta. Até esqueço que tenho. Comprei outro é verdade, mas sequer sei seu número e se o comprei é por ter uma câmera foografica embutida e ser muito mais barato que uma câmera fotografica digital. Tenho este aparelho a seis meses e até hoje nunca fiz ou recebi uma ligação por ele.
Saudações de além mar aos amigos portugueses e guineenses.
Jose de Albuquerque on Qua, 30th Sep 2009 1:10 pm
Não me considero pobre, nem muito menos rico. Meu celular no entanto, apesar de deter alguns recursos extras, só é utilizado para fazer e receber chamadas ou mensagens e mesmo assim quando estou fora de casa, pois quando estou em casa, uso o fixo, e quem quiser falar comigo, que ligue no fixo.