Benditos dias de indiferença
Estou pensando na vida. Estou querendo largar o cigarro. Mas para quê? A gente vem e vai embora deste mundo sem saber a razão. A certeza é que todo mundo um dia vai abotoar o paletó de madeira. Disso ninguém escapa.
Minha mãe já foi, meu pai também, logo irei eu para o outro mundo. Ninguém nunca voltou para contar o que acontece depois da morte.
Tenho só o meu padrinho Jair como família, mas ele vale por mil. Preocupa-se comigo, me ajuda como pode. Arruma-me bico de pedreiro vez em quando. Gente boa.
Aqui no morro o sol brilha também. O medo da gente daqui é quando chove.
Um dia desses eu fui trabalhar com o Jair lá na Vila Madalena. Lá tem cada casa bonita que você não acredita. Não é igual aqui no bairro onde as casas não têm reboco e o material é de segunda, lá tudo é de primeira. Todo mundo bonito e saudável, cabelos lisos caindo pelos ombros. Gente grã-fina – é um outro mundo.
Sou aprendiz de coisas insignificantes. Quero dizer: insignificante para os outros. É que com tanta tecnologia nova por aí, tanta correria, todo mundo se esqueceu das antigas artes. Mas eu cultivo a tradição e mantenho-as vivas. Como por exemplo, a arte de se contar histórias, “causos”, coisa esta que não tem a menor importância hoje em dia, mas que eu gosto muito. Tempo bom era aquele, quando as pessoas se reuniam nas calçadas nos finais de tarde para jogar conversa fora, mas depois veio a televisão, internet…As calçadas estão vazias. Tem outras coisinhas que eu gosto de fazer, como: chutar latinhas, pedras, tampinhas…Enfim, qualquer coisa que se possa manejar com os pés.
Cuspe à distância, arremesso de pião, mas o que eu mais gosto é de tocar caixinha de fósforo pelos botecos, fucunufutuco, fucunufutuco… cadenciando a batida do samba. Cada vez eu descubro uma nova batida, erro, acerto. São por essas coisas que eu sou apaixonado. Trivialidades do cotidiano.
Tenho saudade do meu pai. Carrego uma foto dele na carteira. Era preto que nem carvão, o meu pai. Nego velho, pena ter caído na cachaça. Morreu com a barriga inchada de tanto beber. Chorava muito, pois sabia que estava indo embora para sempre. Meu pai não acreditava em reencarnação, nem em nada. Para ele depois da morte a gente vira pó e só. Seis meses antes o médico tinha avisado para ele parar de beber, caso contrário não ia durar muito, mas meu velho era teimoso que nem uma mula, assim, continuou bebendo. “Vou morrer mesmo”, ele dizia.
O nego cantava com emoção. Sua harmonia era perfeita. Com ele aprendi a gostar de música.
Uma vez eu ainda era menino, eram umas dez horas da noite. As pessoas se movimentavam felizes fora do barraco. De repente eu ouvi um choro, mas não era um choro comum, era diferente, sobrenatural. Achei bonito. Nunca pude me esquecer. Foi a primeira vez que eu ouvi o som de um cavaquinho, ou melhor, o choro de um cavaquinho. Emocionei-me mais ainda ao ver que dos olhos do meu pai corriam lágrimas de emoção. Ele amava tudo, tudo, tudo…
Nos seus últimos meses de vida ele me abraçava muito e me beijava. Dizia que não ia morrer coisa nenhuma, que iria viver mais muitos anos. Ia ver eu crescer, casar e constituir família, dizia que ia ficar velhinho, todo enrugado e torto, ia sorrir, mesmo sem nenhum dente na boca. Quando me via correndo de brincadeira com os moleques seus olhos se enchiam de lágrimas.
No seu dia derradeiro ele estava deitado na cama com os olhos voltados para o nada. Estava sentindo uma dor terrível. Chamou-me:
-O fio, como é mesmo aquele samba do Zeca?
-Qual pai?
-Aquele que ele fala de gente que reclama de barriga cheia.
O velho estava todo emocionado. Não conseguia nem olhar para seus olhos. De repente veio uma dor danada nele. Chamei o Jair, ele correu e colocou o velho no fusca. Ficou internado cinco dias no Hospital Planalto. Morreu no dia quinze de fevereiro.
Dia quatorze o Jair levou o pastor da igreja para abençoar o pai. O pastor falou que ele deveria aceitar Jesus e que se assim fizesse seria perdoado por seus pecados. Ele ficou em silêncio – tinha dificuldade para falar. Abriu a boca, parecia que ia dizer algo. O pastor esperava com impaciência. Ele não conseguiu falar, mas fez sinal negativo com a cabeça. Não pôde crer em Deus, nem na hora da sua morte.
O Jair disse que meu pai amava muito minha mãe. Ela era uma cabrocha encantadora, segundo dizem, todos gostavam muito dela. Eu não me lembro dela. Ela morreu quando eu ainda tinha dois anos. Suicidou-se. Eu nunca entendi. Como uma pessoa tem coragem de se suicidar. Meu pai tocava samba nos bares, mas depois que ela morreu nunca mais tocou em um instrumento. Sua alegria secou, fraquejou e se entregou ao vício – renegou Deus para sempre. Acho que ele quis ir se matando aos poucos. Morrendo dia após dia – definhando de saudade.
Passo a noite toda me revirando na cama por cima de cascas de pão. De manhã é quando eu me sinto mais triste. Tenho uma preguiça enorme de me levantar. Ligo o rádio e fico ouvindo música. Tenho ainda um pouco de arroz, feijão, duas cabeças de alho, ovos, pimentão, cebolas, batatas e café. Se eu economizar dá até para a semana que vem. Faço almoço e espero que o Jair entre e diga que tem um novo trabalho para mim. Espero. Às vezes eu saio e entrego uns currículos, mas como não tenho registro em carteira, fica difícil de me contratarem. Para falar a verdade, já faz uns dois meses que eu não corro atrás de trabalho. Eu meio que desisti de ir atrás.
Resolvi sair para dar uma volta e espairecer. Subo o escadão que dá na rua oito. Os mais valentes estão no paredão (que é também a boca de tráfico). Nego, Zóio, Baiacu, Tripa, Falante, Baía e Maria Tereza (que apesar de ser mulher ninguém desrespeita).
A maioria eu conheci ainda no tempo de criança.
O Juninho, um amigo meu de infância, andava com eles. Era o meu melhor amigo. Dia dez que passou, ele foi fuzilado lá na rua onze, dentro do bar do senhor Martinez. Eu não chorei pela sua morte. Tinha mudado muito, o Júnior, quase não o reconhecia. Matou muita gente.
Foi tarde.
Os moleques estão se armando cada vez mais. Os mauricinhos estão tremendo na base. Meu povo era senhor de suas terras e foi retirado à força para servir do outro lado, aqui na terra nova. Poucos se revoltaram e poucos se revoltam: a escravidão não acabou. No dia que o povo se unir o mundo vai ver a maior revolução de todas.
O Tripa nunca foi muito com a minha cara. Ficava tirando sarro de mim por eu usar brinco. Eu não sei porquê. Ele é ladrão, sangue frio. Dia desses matou dois investigadores na quadra da escola. Eles vinham todo mês pegar o pagamento que o Tripa dava para continuar na rua. Até que se enfezou e decidiu mandar fogo para cima dos policiais. Depois ainda jogou um tijolo na cabeça de cada um para atestar sua crueldade. Agora quase não sai para a rua. Seus dias estão contados. O Juninho era comparsa do Tripa. Apagaram ele só como um aviso para o Tripa. Antes ele não invocava comigo porque o Junior não deixava, agora não tem ninguém para segurá-lo.
Eu não tenho medo. Vou vivendo entre o meu nascimento e meu dia final, sempre esperando. Eu espero. Espero trabalho. Espero o trem. Espero a lotação, um amor, uma música boa, uma cerveja gelada…Esperando sempre.
Passo de cabeça baixa pelo paredão.
- E aí moleque. Não conhece mais não? O Tripa perguntou.
- Opa. Tudo bem?
- Eu to numa boa. Você continua com cara de bichinha com esse brinquinho de sem-vergonha.
- Deixa o moleque em paz Tripa. O cara é gente fina. Disse o Baía.
- Vai se foder cu de burro. Eu não tenho medo.
- Eu vou acabar com tua raça agora moleque.
O Tripa sacou sua pistola e veio para cima, eu nem me movi. É agora, eu pensei, chegou a hora. Fechei os olhos e esperei o baque, mas ele não veio. Os caras o seguraram. A Maria Tereza passou um sermão no Tripa dizendo para ele não mexer com quem é daqui. O Nego gritou para eu sair fora e nunca mais passear por ali, senão ele mesmo ia me apagar.
Estou cansado de viver com medo. E de esperar.
Fui para a casa do Jair. Ele estava arrumando um encanamento da sua vizinha. Fiquei lá, o ajudando. Depois de terminarmos fomos para sua casa ouvir música. Tocou a música que meu pai gostava no rádio. Ele pegou seu violão, eu a minha caixinha de fósforo e cantamos um pouco uns sambas das antigas. Minha caixinha e as cordas do violão do Jair. Para mim não tinha nada melhor.
Saí de lá já era noite. Caminhei assobiando e chutando latas, batucando na caixinha, fumando meu cigarro, feliz da vida. A vida é boa enquanto os outros não estão querendo te ferrar.
Chegando à minha rua eu senti que tinha alguém me seguindo. Olhei e vi que era o Tripa. Pode ser que tenha chegado a minha hora. Pode ser que não. Tanto faz. Todo mundo um dia abotoa o paletó. Bato na caixinha: Fucunufutuco, fucunufutuco…
Só queria mais uma noite de reviração por cima das cascas de pão.
João Pinheiro é brasileiro, cartunista, ilustrador e escreve todas as semanas – com textos e imagens – na Revista O Patifúndio! Conheça mais do trabalho brilhante do João no portifólio dele e nos blogs Os Subterrãneos e Cabeçorra e Corvolino.
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João: é brasileiro, cartunista, ilustrador e escreve todas as semanas - com textos e imagens - na Revista O Patifúndio! Conheça mais do trabalho brilhante do João no portifólio dele e nos blogs Os Subterrãneos e Cabeçorra e Corvolino. |










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