Em defesa da liberdade lingüística
Há, pela maioria, a tentativa desesperada de se enquadrar ao modelo idealizado, por mais que este esteja distante da própria realidade. E está

Quanto mais valor tiver o falante, mais prestígio terá sua língua e variedade de língua. Prova disso é a valoração que se dá a maneira de falar no Sudeste. Coincidência, não?
O maior número de falantes da língua portuguesa, a qual é a 5ª mais falada no mundo e a 3ª no Ocidente, concentra-se no Brasil, apesar de não ser originária deste. Como defende Marcos Bagno, em entrevista a revista Discutindo Língua Portuguesa, número 1, a língua “é o elemento mais importante da identidade nacional da imensa maioria dos brasileiros”.
Tamanha relevância desperta as mais diversas correntes, cujo objetivo é a análise da língua. De um lado estão os defensores da linguagem culta, originando, conseqüentemente, o erro, ou seja, tudo aquilo contrário à gramática desenvolvida, sem fundamento científico, por uma minoria.
Contrariando a teoria prescritiva, se coloca a descritiva, a qual defende que a regra a ser estabelecida deve, indiscutivelmente, estar conectada à realidade, ou seja, não estabelece algo que deveria ser, pelo contrário, ratifica o fenômeno existente. Valoriza-se, portanto, as variantes lingüísticas, as peculiaridades nacionais e, até mesmo, as individuais. Não se verifica o erro, uma vez que mesmo contrário à norma culta, desde que respaldada pelo contexto em que está inserida, ambas são consideráveis.
Tal corrente defende a capacidade de formulação, manifestação e compreensão da fala. Inadmissível seria concordar que a visão prescritiva foi e é dispensável, até porque seria desconsiderar o papel por ela exercido no passado: permitiu a apreensão da língua, por exemplo. No entanto, hoje se apresenta caduca e insipiente, pelo fato de aprisionar o falante dentro de uma redoma infestada daquilo de que se deve reproduzir e tudo o demais censurado.
No campo da língua portuguesa não cabe a expressão erro, pelo simples fato de não haver fundamentação científica, lógica e compreensível, não passando de simples ideologias, as quais são mantidas pela escola e pela mídia, responsáveis pela manutenção da língua pura e única da classe dominante, negando todas as variações que possam, por ventura, ameaçá-la.
Isso, por sua vez, acaba por gerar um preconceito desmedido. Aquele que detém vocabulário segundo as normas, detém, ao mesmo tempo, conhecimento correto, coerente, indiscutível, inteligente, já aquele que fala “errado”, é tido como um estúpido, desconhecendo aquilo que fala.
Há, pela maioria, a tentativa desesperada de se enquadrar ao modelo idealizado, por mais que este esteja distante da própria realidade. E está.
Não se discute o preconceito lingüístico, a subjetividade com que são delineados o “certo” e o “errado”. Não seria, talvez, a paridade existente entre o falante e sua língua ou variedade de língua? Quanto mais valor tiver o falante, mais prestígio terá sua língua e variedade de língua. Prova disso é a valoração que se dá a maneira de falar no Sudeste. Coincidência, não?
A teoria prescritiva se distancia ainda mais diante de um dado assustador. Informou a revista Discutindo Língua Portuguesa, número 01, que “apenas 26% das pessoas entre 15 e 64 anos (…) têm domínio das habilidades de leitura e escrita.”
Como já mencionado e bem dito por Marcos Bagno, a língua em si une o povo, mas sua idealização, sem qualquer fundamentação, torna-se motivo de exclusão, distanciando-se quer do povo, quer dos últimos grandes escritores brasileiros, correspondendo a uma língua elitista, autoritária e, acima de tudo, inadequada.
Não sou contra o uso e a defesa da norma culta, mas desconsidero a não aceitação de toda variação que não corresponda com o ideal da minoria. Se estamos em um Estado Democrático de Direito, por que não defender a liberdade lingüística em substituição à censura, que nos amarra e tortura?
Stanley Marques é brasileiro, reside em Minas Gerais e é graduando em Direito pela UFU. Ele também é assina o blog Antologia Racional.
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Acredita que possa existir liberdade de expressão????
Eu sou a favor da liberdade linguistica. O Brasil é um país que abriga variações culturais e linguistica. Devemos dar mais valor à nossa lingua, não a necessidade de inserir termos americanizados ao Português.
Eu morei um ano em Portugal e, tanto os Portuguêses, quanto os Angolanos, valorizam a sua lingua, procurando manete-la viva, sem acrescentar termos de outras culturas.
Concordo plenamente.
Sou a favor da liberdade…
Abraços
Também concordo com a liberdade linguística. O português é uma das línguas que possui uma das gramáticas mais complexas e mais difíceis de ser aprendida devido ao grande número de detalhes e regrinhas.
Além do mais, uma país com a dimensão do nosso não pode ficar censurando as variações. Aliás, é de variações que é composta nossa língua. Eu acho eu nem deve ser chamada de português devido a essas variedades. Acabou se tornando uma língua única por isso!
O que eu gosto na variedade linguística do Brasil é que eles respeitam a diversidade dos sotaques e pronuncias.
Noutros paises como Angola, Cabo Verde parece que eles acham só a a pronuncia do Portugal é correto e imitam-lo. (Eu não fui para esses paises mas ouvi-lhes falarão na internet)
Também sei que Brasil tem muito tempo (150 anos) para desenvolver sua variante e PALOP só tem 30 anos da independência de Portugal. Talvez, em 50 anos eles vão ter novas variantes do português?
Concordando com Marcos Bagno, a liberdade LINGUÍSTICA substitui a arrogância e o preconceito imposto pelas elites, de se acreditar que a ascensão social é motivada pelo domínio cuto da nossa lingua.
Ora, se uma frase mesmo que “errada” passa sentido e faz haver comunicação ela é válida.
Ainda existe muito o que se discutir sobre a arrogância direitista dos gramáticos, mas a principal questão é a inclusão dos ditos analfabetos, por não dominarem a lingua mãe corretamnte.
Meu primeiro comentario foi errado, eu li num documentario de Mocambique ou Angola, que existe a ideia de falar bem nessas paises e falar como em Portugal, falar com sotaque de Portugal, mas eles sao Angolanos e tem um sotaque proprio.
Stanley,
Concordo plenamente
And I steel keep my eyes on you…