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Chora viaule!

por Emerson Santiago
emerson@opatifundio.com
14 de September de 2008
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Instrumento hoje esquecido, a viola de treze cordas do Sri Lanka guarda lembranças e curiosidades incríveis. Saiba por quê

TÔ NEM AÍ

Meu objetivo será tratar de lusofonia sem abordar assuntos relacionados a Brasil ou Portugal. Será que consigo?

Maestro Amaradeva, um dos principais músicos do Sri Lanka, ; relação com os instrumentos de corda tem ligação direta com a influência portuguesa no país

Maestro Amaradeva, um dos principais músicos do Sri Lanka; relação com os instrumentos de corda tem capítulo reservado à influência portuguesa no país

Já tratei aqui neste espaço de outros locais bem improváveis de serem incluídos no espaço lusófono. Mas o Sri Lanka, sem dúvida merece uma revisão completa dos intelectuais tanto do Brasil como de Portugal. Se sobre os “kirishitans” do Japão ou sobre o papiamento das Antilhas Holandesas ainda há muito do que se falar além do que eu já abordei aqui, a coisa muda de figura em relação a este país asiático.

O Sri Lanka e o seu papel dentro da lusofonia rendem LIVROS. Isso mesmo, livros, no plural.
Hoje eu me detenho em uma pequena fração desse rico legado cultural lusófilo. Trata-se da viaule (pronuncia-se violê), ou, se preferirem, pura e simplesmente, a viola do Sri Lanka. Assim como os seus primos do Brasil, Açores, Madeira e Cabo Verde, o instrumento veio com os navegadores portugueses e até hoje resiste, meio que de forma precária, como instrumento folclórico daquela ilha.

Há algum tempo atrás ajudei a prof. Shihan de Silva Jayasuriya, ceilonense residente em Londres, com material e informações sobre o tal instrumento. O mais antigo relato a que tive acesso é do fim do século XIX, de autoria de C.M. Fernando, advogado e pianista, também natural daquela ilha. Em seu relato, para o órgão britânico “Journal of Royal Asiatic Society”, o sr. Fernando faz um apanhado geral da música popular de sua pátria, que na época era, e ainda é, coalhada de influências lusitanas.

Para começo de conversa, os ritmos ceilonenses são todos de origem portuguesa, conservando nomes também portugueses. São eles a baila, a cafrinha (kaffringha, em cingalês, uns dos dois idiomas oficiais do país), o chicote e as toadas, sendo a mais famosa Kora Janeeta (Corra Joanita). A baila hoje assume ares de pop music nacional, sendo que os seus artistas mais famosos são verdadeiros ídolos em seu país.

A viaule está presente em todos esses estilos, era o instrumento preferível dos músicos intinerantes. Possui, porém, uma peculiaridade: a décima terceira corda serve apenas como acompanhamento, igual à viola beiroa portuguesa ou como os banjos norte-americanos. No mais, é praticamente o mesmo instrumento que se toca no interior do Brasil, Portugal e ilhas de Cabo Verde, Açores e Madeira.

Além de ser instrumento de músicos desacompanhados, também se faz presente em grupos musicais de baila e cafrinha pelo interior do Sri Lanka. É especialmente popular ainda entre a comunidade burgher (mestiços de ceilonenses e portugueses, que também mantêm vivo o português quebrado e quase incompreensível do Sri Lanka). Conheço gravações onde o instrumento aparece, como por exemplo as feitas por um grupo denominado “Fonseka & Party”, ainda na década de 1930. Como as gravações revelam, a improvisação corre solta, num ritmo acelerado e caótico, um verdadeiro frenesi. Lembra em tudo a música africana, apesar dos músicos serem asiáticos e seus instrumentos de origem portuguesa.

A influência africana, aliás, é permanente, até mesmo nas letras das canções, como Velinda di Mozambicu (Velinha de Moçambique), uma cafrinha. Com relação aos músicos itinerantes tocadores de viaule, para meu espanto, verifiquei que mantinham mais um elo com a cultura de Brasil e Portugal: o desafio cantado. Este também leva o nome de baila, porém funciona, pelo que entendi, exatamente como funciona no nordeste, sudeste e sul do Brasil, o “desafio”, o “cururu” e a “trova”, ou como funciona a “desgarrada” em Portugal e o “mata-kantiga” em Malaca.

As surpresas não param por aí: a cantiga mais famosa desses violeiros, a “Cingalee Nona” (Dona Cingalesa) atravessou há muito as fronteiras do Sri Lanka. Todos os territórios asiáticos que preservam alguma cultura lusófona desenvolveram uma versão de tal cantiga. Daí, então que em Malaca, Macau, Goa, Damão, Diu, Indonésia e Cingapura iremos encontrar versões de tal cantiga!

Eu nunca tive o privilégio de manter contato com algum músico que conheça o instrumento. Alguns amigos do Sri Lanka uma vez encontraram um senhor que era um cantador como os que descrevo aqui, mas pouco antes de poderem abordá-lo, me disseram que ele havia morrido. Infelizmente a viaule é um instrumento relegado ao interior de um país em plena guerra civil, e com comunicações precárias. Conseguir manter contato hoje em dia com alguém no interior do Sri Lanka é, infelizmente, uma façanha. O instrumento hoje é considerado “jeca” (como era há uns vinte anos atrás no Brasil) e até por isso, seus músicos não são de status social elevado, são pessoas humildes e de pouca instrução formal. Resta torcer para que tal situação mude como mudou de forma positiva no Brasil.

sri Chora viaule!  Emerson Santiago é brasileiro, advogado, intérprete e tradutor de mandarim (chinês) e é um apaixonado pelas culturas lusófonas. A coluna TÔ NEM AÍ é publicada todas as semanas na Revista O Patifúndio!

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é brasileiro, advogado, intérprete e tradutor de mandarim (chinês) e é um apaixonado pelas culturas lusófonas. A coluna TÔ NEM AÍ é publicada todas as semanas na Revista O Patifúndio!
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2 comentários

  1. Flá Romani says:

    Gostei do seu blog, e do Conteúdo, vou ler mais….

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