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Profissão: coveiro

por Thaís Seixas
thais@opatifundio.com
14 de September de 2008
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Trinta e dois anos depois, José Paulo se orgulha do seu trabalho e diz: “Aqui eu fico tranqüilo”

“As pessoas têm que ter medo dos vivos, e não dos mortos”

“As pessoas têm que ter medo dos vivos, e não dos mortos”

BRASIL – Era uma manhã de 1976, quando José Paulo dos Santos acordou animado. Não poderia se atrasar no primeiro dia de seu novo emprego. Levantou, arrumou-se, comeu um pão e tomou café preto, o seu preferido. Fechou as janelas do quartinho alugado e saiu apressadamente. Esta rotina poderia ser a de um trabalhador qualquer, mas ele não conseguia controlar o tremor de suas pernas. Tudo isto porque entraria pela primeira vez em um cemitério, para trabalhar na construção de obras.

A infância no interior da Bahia fora bastante diferente daquela realidade. O terceiro de oito filhos, Zé Paulo largou os estudos aos 10 anos para seguir os passos do pai nas plantações das fazendas. Era o chamado “moço de boi”, pois guiava o animal e o carro de cana com uma vara. Nesta época, tinha a sensação de que muitas pessoas morriam, entre parentes, amigos e vizinhos, pois todos se conheciam.

Os moradores, então, seguiam o cortejo fúnebre, mas sem a companhia de seu Zé. “O pessoal ia até o cemitério e eu ficava do lado de fora. Só levava o corpo até o meio do caminho, porque tinha medo”, lembra.

Naquela manhã de 1976, o medo teria que ser vencido. E foi. Entretanto, no seu primeiro dia de trabalho, não comeu, não bebeu nem fumou, vontades que deram lugar a um sentimento de remorso. Seu plano era ficar apenas 90 dias, até encontrar um emprego melhor. Mas o destino pregou uma peça em seu Zé. Depois de ter mudado de função, tornou-se um dos coveiros mais conhecidos do lugar. Trinta e dois anos depois, lá está ele, sentado em um mausoléu, contando a sua história.

Hoje é conhecido por todos como Cajueiro, apelido herdado de um irmão. Já enterrou gente rica, pobre, conhecida e anônima. No caso dos pobres, seu Zé diz que muitas pessoas aparecem no enterro, apenas por curiosidade. “Ninguém sabe por que elas fazem isso. Às vezes estão até tomando uma ‘biritazinha’, resolvem vir e causam tumulto para a família.”

Casos que envolvem pessoas alcoolizadas não faltam. Certa vez, um senhor que assistia ao enterro caiu por cima do caixão, que já estava na cova, e não quis mais sair. Além da teimosia, a queda não aconteceu por um simples desequilíbrio, mas porque o homem “dançava pra lá e pra cá”. O enterro teve que ser interrompido por um tempo, até que o bêbado fosse convencido a sair. De uma coisa José Paulo tem certeza: “o homem tava chumbado”.

Seu Zé também já enterrou gente famosa, como um deputado morto em 1998. “Eu me senti importante, porque o Brasil inteiro estava vendo o enterro. Saí no jornal e tudo”, orgulha-se.

Mesmo com tantos enterros no “currículo”, o que mais comoveu Cajueiro foi um em que ele não trabalhou: o do próprio pai. Isso aconteceu em setembro de 2007, quando fora visitar os parentes no interior. “Eu pedi a Deus que, antes de eu morrer, pudesse fazer o funeral de meu pai, porque o pessoal da minha cidade não tem condições de pagar”. Seu desejo foi atendido e o coveiro voltou à rotina no cemitério.

Apesar de ser o mais experiente, José Paulo não precisa ensinar aos mais novos. Para ele, a juventude já sabe o que fazer e ninguém tem medo de cemitério. “Só quem tinha era eu, que era moço do interior. Hoje eu sei que as pessoas têm que ter medo dos vivos, e não dos mortos. Aqui no cemitério, eu fico tranqüilo”.
brasil Profissão: coveiroThais Seixas é brasileira, nasceu na Bahia e escolheu como profissão ser jornalista.

Thaís:
é brasileira, nasceu e mora na Bahia. Contrariando uma família de advogados, engenheiros e médicos, ela escolheu o jornalismo como profissão.
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20 comentários

  1. Certamente ele trabalha em um lugar muito mais seguro do que nós! hehe
    Abraços

  2. Concordo meu amigo Rodrigo.

  3. Rosangela says:

    É o retrato de muitos e muitos brasileiros que sai do seu estado para tentar uma vida melhor em outro.

    E falou a voz da experiência .. “tem que ter medo dos vivos” ..

    otima postagem..

    abç..

  4. Rodrigo Piva says:

    Certamente ele trabalha em um lugar muito mais seguro do que nós! hehe
    Abraços

  5. Rafael Neto says:

    Prefiro muito mais ter medo de pessoas do que assombracao
    hahaha
    mais ele, pela foto da pra ver, é uma pessoa cativante e simpatica.

  6. Aníbal Ribeiro says:

    A narrativa é tão interessante e realista que nos transporta à vida do personagem central, como se fôssemos nós a vivê-la.
    Parabéns à colunista.
    Já estamos aguardando a próxima, para que possamos nos deliciar novamente.

  7. Luiz Carlos Souza says:

    Muito interessante a matéria e nos remete aos dias atuais, quando temos que temer cada vez mais os vivos e muito mais os mais vivos.
    Parabéns à jornalista! Se jovem e recém-formada, demonstra grande amor à profissão que escolheu e terá belo futuro.
    Se já tem algum tempo de estrada, demonstra que a experiência muito lhe valeu!
    Como bem salientou o comentarista anterior, esperamos ansiosos as próximas matérias, para que possamos nos deliciar com tamanha demonstração de conhecimneto e sensibilidade profissional.

  8. Marcy Melo Ribeiro says:

    Parabéns à jornalista Thais Seixas pela bela matéria.
    Quanto ao João Paulo, concordo plenamente com sua colocação: temos que ter medo dos vicos, e não dos mortos.
    Abraços

  9. DuDu says:

    Muito perfeita esse matéria… Quem me dera ter medo dos mortos…. rsrsrs

    Uma vez ouvi uma amiga falar que o esposo dele estava que nem COVEIRO aposentado… Não ENTERRAVA NADA :S

    abrasss

  10. All3X says:

    Para quem tinha medo de seguir o cortejo fúnebre, trabalhar por trinta e dois anos como coveiro deve ter sido uma grande mudança.
    O bom é saber que ainda existem pessoas que se orgulham da profissão que possuem e se sentem realizadas, e não ficam se queixando da vida por algum problema que se recaia sobre ele.
    E ótima a matéira de Thais, ficou muito bom, é também motivo de orgulho.
    Valeu,

  11. erich says:

    São pessoas desconhecidas que fazem nosso Brasil andar.

  12. Juliete says:

    Ótima matéria, texto mto bom.

  13. Dora Ribeiro says:

    Parabéns à jornalista por nos trazer o relato tão comovente de pessoas simples, como Cajueiro, que apesar de tantas dificuldades que passou pela vida, estampa um sorriso simpático no rosto.
    Texto tão bem redigido, que ficamos com vontade de um “quero mais”.
    Ansiamos, querida Thaís, por mais uma matéria sua. Por favor, não demore a escrevê-la.

  14. SIMAOCAD says:

    EU TINHA UM AMIGO QUE CHAMAVA SAUL, UMA VEZ NA ESCOLA A PROFESSORA PERGUNTOU…QUAL A PROFISSÃO DE CADA UM DOS PAIS DOS ALUNOS E O SAUL FALOU…MEU PAI É COVEIRO…A SALA TODA FICOU ESPANTADA…ALGUNS MESES DEPOIS EU VI O PAI DELE NO MERCADO AQUI EM BELO HORIZONTE E VI QUE NA VERDADE O PAI DELE VENDIA ERA COUVE NUMA BANCA…

  15. Fabiane Almeida says:

    Muito interessante a matéria.
    Enquanto as pessoas reclamam do trabalho e das dificuldades, esse senhor mostra-nos como é importante dar valor ao que temos e evoluirmos!
    Parabéns à colunista. Ela escreve para algum jornal ou revista?

  16. Thaynne says:

    Eu tenho muito mais medo dos vivos do que dos morto…

  17. Jorge says:

    Que Deus o abençoe….
    boa matéria

  18. José Bomfim says:

    Thais, parabéns pela matéria. Interessante, inteligente e cheia de bom humor.
    José Bomfim

  19. marcela says:

    no cemitério a gente pode encontrar muitas histórias como essa, principalmente as q envolvem o medo dos fantasmas…
    Adorei a matéria. Seu zé parece ser um ótimo coveiro!

  20. @Thaís Seixas
    Parabéns pela óptima matéria.

    @José Paulo
    É emocionante quando vemos pessoas a gostarem realmente do que fazem, pois só assim podemos fazer algo com qualidade. Na verdade, quanto mais viva uma pessoa for, mais perigosa ela é!

    @SIMAOCAD
    Essa é boa mesmo…

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