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ANGOLA

Zungueira: como lhe chamam na banda

por
adibel11@yahoo.com.br
31 de May de 2012

zungueiras Zungueira: como lhe chamam na bandaFazer da rua o palco principal para a sobrevivência de um coletivo; ajeita-se na vida como quem se ajeita na FILA.? Com uma rodilha na cabeça que ajuda no equilíbrio de sua bacia, onde se vê um pouco tudo. (Bananas, abacaxis, pães, mangas, peixe seco, peixe fresco, biscoitos, botijão de gás/outras vão sem a bacia, direto na rodilha). Precisando manter a espinha ereta para não derrubar o que leva na cabeça, os movimentos dela compassados e descompassados desafiam qualquer lei da robótica.

Ao cruzar com ela na rua, muito comum observar os olhos deslocarem-se do centro da órbita para o canto. Um rabo de olho que exala uma breve esperança de que, ao cruzar o olhar com alguém, poderá garantir alguns kwanzas[1] no fim do dia. Só quem sabe onde é Luanda, sabe que falo da ZUNGUEIRA.

No Brasil e por ai a fora, é reconhecida como vendedora ambulante. Na procura de alternativas de sobrevivência, muitas mulheres angolanas destacam-se pela criatividade, pelo notório potencial dinâmico e criativo, pela sua agilidade em contornar as adversidades sociais que caracterizam o contexto sócio-economico angolano.

No que concerne à origem da zunga, não há definições preestabelecidas nos estudos. Tomando a definição popular como verdadeira e original, o termo vem da língua Kimbundu[2] (pronuncia-se como se escreve) “zungueiras” (…) que significa andar de um lado para outro, (sem parar).

São mulheres na sua maioria jovens desempregadas, silenciosas e hirtas, com uma bacia na cabeça, transportam, em muitos casos, o filho às costas, e em outros na barriga, não sendo rara a acumulação de ambos. Calcorreando de bairro em bairro todas as suas ruas, movimentam-se em percursos longos e de km em km movimentam consigo também uma parte da economia local desde o amanhecer até noite dentro. Conhecedoras do tempo e da época adequada à venda de cada produto. Fato é que as atividades desenvolvidas por elas constituírem uma das principais fontes de sobrevivência de parcela considerável das famílias luandenses.

Alguns estudos ressaltam a importância de estudos voltados ao o fenómeno da zunga:

O fenômeno da zunga, que os estudiosos das Ciências Sociais deveriam admitir como a síntese melhor conseguida do apego dos angolanos à vida no meio da adversidade, poderá acabar, assim, como a consagração infeliz de uma distracção que tornou a mulher angolana mais pobre ?e indefesa na sua luta por um mundo de igualdades. Lopes (2004)[3]

Para melhorar compreensão dos princípios a qual o autor refere-se, é necessária uma compreensão de que momento histórico o fenómeno zunga ascende-se como “cetegoria analitica” e as implicações no cotidiano desta sociedade (Luanda) estereotipadamente machista.

Vislumbrasse que ela ocupa uma posição sócio-discursiva em que alguns estigmas do discurso machistas ainda se fazem muito presente, tanto pela herança colonial de imposição de valores, quanto na postura conservadora de um “estado” neo-liberalista.

Para o entendimento dessa “reestruturação” de ideias em Angola implica observar as mudanças, geopolíticas condicionadas, pelo posicionamento social e cultural do estado, que tiveram implicações consideráveis no cotidiano da mulher. Para tal, três fatores centrais são apresentados como causas:

1) a migração de grande parte das famílias da área rural para a capital do país devido à guerra civil; 2) a instabilidade do quadro econômico na passagem da primeira república (1975) para segunda república (1990); 3) a negligência do governo em relação a políticas públicas que de alguma forma protegessem as mulheres dos efeitos da transição económica e redistribuição de renda.

Historicamente as políticas microeconômicas de Angola sempre foram contraditórias em seus meios e fins. Por um lado, o Estado queixa-se que as trocas informais têm um peso demasiado no desenvolvimento da economia do país. Por outro se ausenta da obrigação de “gestor de politicas publicas” papel na qual propôs-se com os programas de incentivos econômicos. Verdade seja dita que ninguém liga ao que as zungueiras vendem ou deixam de vender muito menos pela condição de trabalho das mesmas. É certo que existem leis que regulamentam o que deve e não deve ser comercializado, mas só são aplicadas na justificativa de necessidade de alguns fiscais corromperem as comerciantes em troca de seus rendimentos pessoais.

Desconfio seriamente que muitas delas carregam enrolado em seus panos algumas folhas do livro a Arte da Guerra. Fazer da fraqueza as forças e usar o terreno para vencer as adversidades é uma arte. Até parecem adivinhar as necessidades do próprio mercado, sem estudos muito elaborados por empresas especializadas, antes recorrendo a uma noção empírica das necessidades alheias. Percepcionam, até, a procura própria de cada época.

Ao mínimo sinal de pânico os alguidares sobem à cabeça e a loja ganha, literalmente, pernas, ficam a salvo dos polícias e fiscais. Atiram-se as lamas calçando sacolas nos pés se mantendo longe da zona seca, longe deles, que não querem sujar a farda. Gera-se um impasse ruidoso, com gritos e insultos de parte a parte. Cômico, mas chama atenção os coros dirigidos a estes policiais: elas acusam-nos de hipócritas porque as esposas também zungam.

E uma verdade demasiado tormentosa para ser poetizada. Pensei muito na mulher zungueira quando de passagem Curitiba vi um espetáculo musical (Teatro Magico), onde uma bailarina se contorcia e retorcia em arcos, tamanha genialidade e leveza daquela bailarina desafiando a gravidade, veio-me a memoria a mulher que se retorce horas e horas debaixo do sol de Luanda com a loja à cabeça, juntando-se nas encruzilhadas mais importantes, os verdadeiros centros comerciais da cidade. Enquanto vendem, transforma a cidade em um trânsito de cores e belezas de cantos e encantos anunciando seus produtos.

Olhando para tudo, se rua aos nossos olhos quer dizer adversidade, dureza, perigos indizíveis. Do outro lado cada esquina se transforma em mosaico de histórias, cada olhar fortuna, cada compra um sinónimo de vida, no sentido de familia realizada. Nem que seja para vê-la gritar a quem grita “ZUNGUEIRA”! É como lhe chamam na banda.



[1] Nome da moeda (dinheiro) angolana.

[2] Linga tradicional angolana.

[3] Candongueiros, Kinguilas, Roboteiros e Zungueiros: uma digressão pela economia informal de Luanda. In VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, Coimbra, 2004. Disponivel em: http://www.ces.uc.pt/lab2004/pdfs/CarlosMLopes.pdf. Acesso em: 20. Nov. 2010.

 Zungueira: como lhe chamam na banda

Adill Abel

é angolano, mora no Brasil e estuda Serviços Sociais na UNITAU (Universidade de Taubaté) no interior de São Paulo. Atualmente cursa mestrado em Ciências Políticas na PUC-SP

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4 comentários

  1. Al Felix says:

    Está aí um fenômeno Angolano digno de estudo e debate. Essas “zungueiras” sustentam famílias inteiras. São, em muitos lares, o sustentáculo dos fluxos financeiros e da manutenção da existência. Adill Abel foi perspicaz e, às vezes, lúdico na breve abordagem ao trazer a lume a visão comumente vista em Luanda. Só um vivente dessas realidades podia desenhar tais verdades de forma contunde.

  2. Adibel says:

    Grato Al Felix (…) Palavras boas vindo de uma boa referencia nos espaço cibernético. Com certeza a que se fazer uma discussão ampla que possa abranger as academias em Angola juntamente com a sociedade.

  3. tazonia says:

    continui assim e k Deus te fassa prospero sempre.xto sem palavras bj

  4. Carlos Adriano says:

    Problemas sociais no mundo inteiro….
    E depois querem que apoiemos um sistema falido como capitalismo
    que produz todas essas desiqualdades.
    É tão histórico essa desigualdade ,que começamos achar que isso é um fenômeno(ARGH!)histórico
    Mulheres exploradas e vítimas da desigualdade!

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