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GUINÉ-BISSAU

Bissau ‘virou Brasil’? Ainda não

por
michellniero@opatifundio.com
25 de April de 2012

Os avanços contra o livre exercício da crítica unem atualmente os dois países, mas em um deles isso parece ter uma dimensão cultural secular e perigosa

blogueiros Bissau virou Brasil? Ainda não

António Aly e Décio Sá, respectivamente. Blogueiros jornalistas com interesses comuns e destinos diferentes

Embora Guiné Bissau não seja de interesse do brasileiro médio, incluindo aqui boa parte dos jornalistas e homens de mídia, elejo este país africano como personagem deste artigo pois entendo que sua conjuntura política atual é bastante esclarecedora no que diz respeito ao que pode acontecer a um país onde suas instituições democráticas não funcionam como deveria.

Para quem não sabe, trata-se de um país que, assim como o nosso, foi uma colônia portuguesa, situação essa que perdurou até 1974. Temos lá uma língua portuguesa oficializada, mas pouco praticada. Lá existe, como em tantos  outros territórios onde Portugal invadiu, uma língua crioula, resultante da interação de diferentes linguajares.

Mas porque Guiné Bissau não ‘virou Brasil’?

“Virar Brasil” é uma expressão frequentemente utilizada por aqui. O que deveria ser algo positivo é, na verdade, uma forma de ilustrar de forma mais clara situações onde a falta de organização, a sacanagem, a desonestidade e a impunidade perduram. O Brasil, como nação, pela praxis (ou a falta de) de sua população, tornou-se sinônimo para atributos dos mais excusos, algo que deveria assustar a todo e qualquer cidadão bêbado no otimismo. Assusta pois sabemos do poder da repetição de hábitos e costumes visando  normatizar situações, congelar cenários, estagnar mudanças estruturais, legitimando a barbárie e não só isso. Tornando-a parte da paisagem e de nossa história.

Falando em repetição,  tivemos no último dia 12 de abril mais um dentre tantos golpes de estado em Guiné Bissau, nação jovem que desde sua independência passa por constantes turbulências políticas e sociais. Antes de tudo, cabe dizer que trata-se de uma nação absolutamente marginalizada pelos organismos supra nacionais. E isso ocorre pois não há piedade para pretos miseráveis quando não existe algum poder de barganha envolvido.  Sendo mais prático, não se trata de um território naturalmente privilegiado, o que os torna dependentes de exportar basicamente peixes e castanhas cajú para fechar as contas no fim do mês. Existe sim petróleo mas as jazidas tem sido paulatinamente colonizadas pelos grandes barões do setor.

Guiné Bissau é, como tantos outros territórios descolonizados durante a década de 1970,  uma nação de papel, cuja população luta para manter uma expectativa de vida de 46 anos de idade muito mal vividos. Para mim, qualquer informação adicional que não considere este dado estatístico torna-se irrelevante.

Mas o país, no entanto, eferve culturalmente, mesmo diante desta perspectiva bárbara envolvendo fome, guerras civis, AIDS, extermínios causados por testes fármacos e  drogas. Opa, toquei em um elemento que une Brasil e Guiné Bissau. Desgraçadamente, o país tem se fortalecido como um dos principais entrepostos para o narcotráfico , tendo o Brasil com um dos principais  clientes finais.

Mas essa aproximação não fica apenas por aí. Em uma distância de duas semanas tivemos dois fatos cuja verossimilhança deveria assustar a nós brasileiros.

António Aly e Décio Sá 

 Ambos jornalistas blogueiros, o primeiro bissau guineense, o segundo brasileiro. Ambos usuários deste novo suporte informacional para exercer de forma mais autônoma sua profissão, cumprindo a função social que cabe ao jornalista: utilizar a liberdade de expressão para fiscalizar o estado, interpretar a realidade e informar a sociedade. Um deles morreu recentemtente com 42 anos, e não foi o do país cuja expectativa de vida não passa dos 46.

Enquanto que  Aly foi brutalmente violentado, encarceirado e torturado pelos militares golpistas incomodados com os resultados do pleito eleitoral,  Sá morreu com seis tiros pelas costas enquanto jantava em um restaurante em São Luis, capital do Maranhão. Não sem antes, é claro, de receber ameaças de morte, intimidações e avisos. Mesmo assim, preferiu continuar.

 Ambos têm em comum a busca por não se curvar as coações do poder estabelecido, tanto o oficial quanto o oficioso. Décio Sá, morto recentemente, mesmo atuando em um jornal cujo dono, José Sarney, é pária destes podres poderes,  mexeu com as oligarguias maranhenses, com a máfia da pistolagem, parceiras tanto da situação como de boa parte da oposição política brasileira. Ao que tudo indica, os pistoleiros responsáveis pela morte do jornalista tinham ligações com a polícia militar do estado.

Do outro lado do atlãntico temos António Aly que, aguerridamente,continua lutando contra a barbárie, mesmo que não saiba se o amanhã lhe reserva a vida ou a morte. Do mesmo modo que Yoani Sanchez, blogueira cubana igualmente intimidada pelo poder estatal que recusa e critica, ele tenta informar o mundo sobre um país que dificilmente passa pelos critérios de noticiabilidade dos grandes jornais. Por aqui, Décio Sá se junta a outros três companheiros de profissão brasileiros que, só em 2012, tiveram o mesmo fim.

E não é apenas a morte, mas impunidade, tão brasileira, que incomoda a quem prefere o caminho da virtude. Um levantamento do CPJ (Committee to Protect Journalists), divulgado no último dia 17, colocou o Brasil em 11º entre os país onde assassinatos de jornalistas mais ficam impunes. De acordo com o “Índice da Impunidade” elaborado pelo órgão, cinco mortes de jornalistas nos últimos dez anos não resultaram em nenhuma condenação no país.

O pântano de silêncio

“No Maranhão, se fala morre. Se cala, morre do mesmo jeito, num pântano de silêncios”. A frase publicada pelo  jornalista Alex Palhano em seu Twitter demonstra um elemento da paisagem brasileira cuja repetição apenas reforça sua fortaleza estática. Dentro de nossa paisagem, ao que parece, há uma certa tradição em manter a boca calada, alimentada secularmente por intimidações, ameaças, coerções, dedos em riste e muita violência.

Mas ao invés de reclamar o funcionamento de nossas instituições democráticas, teoricamente garantidoras do livre exercício da crítica e do fazer jornalístico, no brasileiro médio há uma tendência à critica ao jornalista morto. Ao “otário” que “falou demais”, que se repete não apenas na imprensa, mas no trabalho, na família, nas vilas e esquinas deste país. Por fim, conformam-se justificando-se pelo velho ditado consagrado dos tempos militares “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. No Brasil, ao que parece, os heróis são outros.

Por isso, há que se concluir que Guiné Bissau ainda não ‘virou Brasil’. Estamos comparando uma nação com menos de 50 anos de independência a outra com mais de 500.  À primeira resta a esperança de que há muito a ser feito. Naqueles que tomam conta do poder daquele país africano, parece haver ainda algum comedimento com a morte pura e simples. Um certo pudor talvez. Enquanto que aqui a pistolagem foi institucionalizada, tornou-se profissão  e colabora secularmente para que o país continue mergulhado em seu pântano de silêncio.

 Bissau virou Brasil? Ainda não

Michell Niero

é brasileiro, jornalista, especialista em Globalização e Cultura pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Em 2008 idealizou o projeto O Patifúndio! e o mantém até hoje, graças a sua segunda paixão, a lusofonia, e aos colaboradores, verdadeiros amigos espalhados em cada território onde a língua portuguesa é exercitada.

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