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CABO VERDE

Às mulheres de Cabo Verde

por
cafe-margoso@hotmail.com
19 de April de 2012

 Chegamos ao fim e o sangue frio destas mulheres salvou o espectáculo. E deu-me mais uma grande lição sobre o papel e a importância das mulheres no nosso país

marco mulher maior Às mulheres de Cabo Verde

1. Tenho, como é natural, muitos amigos homens em Cabo Verde e ao escrever este texto temo que algum se possa sentir ofendido na sua posição de macho crioulo, muito embora este texto não seja para eles. Acontece que depois de vinte anos de convivência nas ilhas e de um processo de crioulização humano de carácter irreversível penso que já terei alguma preparação para esta carta aberta que aqui dirijo às mulheres cabo-verdianas, que muito admiro pelo seu carácter lutador e persistente, por serem o motor da nossa sociedade e por pensar que ainda estamos muito atrasados no que diz respeito às problemáticas sociais ligadas ao género, ou não fosse a violência doméstica uma das nossas maiores mazelas e, diria, uma das vergonhas que carregamos nas costas enquanto País que, por ter as mulheres que tem, não pode compactuar com determinadas situações que alimentam uma sociedade já de si, histórica e socialmente, patriarcal.

2. Quando durante a passada apresentação de “Bodas de Sangue”, aqui na cidade do Mindelo, a luz faltou a 13 minutos do final do espectáculo, em pleno cume emocional dramático, só havia mulheres no palco. Concebida em homenagem ao teatro grego clássico e procurando respeitar o espírito da obra original de Garcia Lorca, a cena final consistia num duelo verbal carregada de emoção entre as duas protagonistas, a Noiva e a mãe do Noivo, que havia morrido por força de um canivete empunhado pelo amante da primeira. Outras seis mulheres assistem e comentam em coro a cena, dispostas em circulo aumentando ainda mais o carácter cerimonial deste aceso diálogo. Uma oitava personagem, a Morte, assiste ao fundo ao desenrolar da tragédia. Nove mulheres, portanto. E quando se deu o fatal episódio do corte de luz, todas as actrizes continuaram a peça, até ao final. O público, deixou de ver a cena e passou, como nos tempos de Shakespeare, a ouvir o texto, tentando adivinhar na penumbra os movimentos do palco. Chegamos ao fim e o sangue frio destas mulheres salvou o espectáculo. E deu-me mais uma grande lição sobre o papel e a importância das mulheres no nosso país.

3. E agora que passou o mês de Março, é para vocês, mulheres cabo-verdianas, que escrevo. Já comentei várias vezes, com ou sem razão, que muitos dos males de que vocês padecem no ambiente social e familiar no arquipélago são alimentados pela vossa própria postura, demasiada permissiva, suave, por vezes alimentada por um preconceito ou por um medo que as vossas histórias de vida pessoais poderão justificar. Mas se queremos combater o actual estado de coisas tem que ser vocês, mulheres, as primeiras a não aceitar que vos vejam apenas como um objecto sexual, uma máquina de afazeres domésticos ou um bom pedaço de polpa que abana freneticamente ao ritmo de um funk ou funaná. Tem que ser vocês, mulheres, as primeiras a contestar o tácito argumento masculino de que a infidelidade pode ser traduzida por uma poligamia sustentada numa herança cultural que chega a ser a mãe de todas as justificações esfarrapadas dos comportamentos masculinos que só vos denigre e diminui, enquanto pessoas e seres humanos que sois.

4. Quem educa os filhos são vocês, mulheres, mães, irmãs, tias, madrinhas ou avós. Pensem nisso. Pensem no poder que tem em mãos. E utilizem-no melhor. Os homens que hoje temos e que são, em parte, o produto dessa educação, foram moldados por vocês, nas vossas casas. Portanto, não fiquem passivas quando um filho vosso, ainda criança ou adolescente, chega em casa dizendo fanfarrão que tem muitas namoradas, como se isso fosse uma enorme qualidade ou motivo de orgulho. Não aceitem que os pais, possivelmente alimentados por essa mentalidade machista vigente, dêem os parabéns aos seus filhos machos se essa manifestação de agrado tiver alguma coisa a ver com uma matemática insana de quantas meninas ele beijou na escola. Se vocês tiverem um casal de crianças em casa, não deitem sobre os ombros da menina as tarefas de casa, deixando o rapaz tranquilamente a ver televisão ou a jogar playstation. Porque ao fazer isso, vocês, mulheres, mães ou educadoras estão a alimentar um parasitismo doméstico que, infelizmente, continua a ser mais a regra do que a excepção. Dividam as tarefas entre os dois, coloquem o rapaz a lavar a loiça de vez em quando. Acreditem, só lhe vai fazer bem.

5. Quando forem assediadas na rua ou no trabalho, queixem-se. Na policia, se preciso for. A impunidade de determinadas posturas não pode continuar a ser alimentada por uma passividade silenciosa da vossa parte. Porque para se chegar à violência física há todo um percurso, uma matriz que sustenta determinados comportamentos que não podem nem devem ser tolerados. Alguma de vocês já ouviu um piropo na rua elogiando a vossa inteligência ou capacidade de luta? Pensem nisso. Se um homem, numa discoteca, vos tirar para dançar pegando na mão como se vocês fossem propriedade dele, não aceitem. Se na dança forem demasiado apertadas, larguem-no sozinho na pista. Não há nenhuma lei que diga que as mulheres tem que ficar ali, sofrendo como um animal no matadouro antes de lhe cortarem a cabeça para posterior degustação. Exijam respeito. Tenham noção do peso e da importância que vocês tem na vida dos homens. Eles, mesmo que digam o contrário, não dão um passo sem a vossa ajuda e colaboração. São mais dependentes de vocês do que vocês deles. Pensem nisso, hajam e quem sabe possamos contribuir para que nas próximas gerações não haja mulheres a queixarem-se dos mesmos males de sempre.

Retirado do blog Café Margoso

 Às mulheres de Cabo Verde

João Branco

é francês de nascimento mas possui nacionalidade portuguesa e cabo-verdiana. É presidente da direção da Associação Artística e Cultural Mindelact. Além disso, atua e dirige na área teatral e mantém o blog Café Margoso.

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