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A presença portuguesa em Macau

por
evahan@opatifundio.com
27 de May de 2011

Há mais de 400 anos, num pedaço de terra da província de Guangdong (Cantão), apareceu um grupo de estrangeiros, os portugueses, cuja chegada mudou de forma inesperada o panorama dessa pequena aldeia que era, na altura, quase desconhecida na China. Desde então, começou a sua extraordinária história

Em cerca de 1557, os portugueses que lá chegaram obtiveram permissão oficial de residência do então governo de Guangdong, pagando uma taxa de aluguer. Iniciam, desde então, uma influência gradual e subtil sobre esse território, mais tarde baptizado de Macau.

Com o aumento da população portuguesa em Macau, o intercâmbio cultural entre a China e Portugal, bem como com outros países europeus, desenvolve-se rapidamente. Em 1849, Portugal deixa de pagar a taxa de aluguer e depois, em 1887, assina com o Governo Chinês o Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português, o qual “reconhecia e legitimava a ocupação perpétua de Macau e das suas dependências pelos portugueses”[1], o que se irá traduzir numa influência portuguesa mais profunda e duradoura em Macau.

A 20 de Dezembro de 1999, a República Popular da China reassumiu o exercício da soberania sobre Macau, terminando assim, em Macau, a administração europeia.

Neste artigo, iremos analisar o que deixaram os portugueses em Macau durante mais de 400 anos. Em suma, iremos analisar a herança portuguesa em Macau.

A língua portuguesa

macau A presença portuguesa em MacauO português é uma das línguas oficiais em Macau e é um aspecto indispensável da cultura de Macau e dos macaenses. Os documentos oficiais do governo de Macau são redigidos em língua portuguesa e em qualquer rua, podemos ver placas toponímicas, sinalizações, paineis publicitários, etc. traduzidos em português, desde ao nome de um ostentoso casino à insígnia de uma pequena clínica dentária privada “perdida” num beco. A partir desses detalhes podemos perceber que a penetração da língua portuguesa em Macau foi profunda.

Tão profunda que deu origem a um crioulo específico que começou a desenvolver-se após o estabelecimento dos portugueses no Território: o Patuá.

De acordo com o linguísta e investigador australiano Alan Baxter, o Patuá “é uma língua crioula de base portuguesa, com elementos de várias línguas. É como um aglomerado de reflexos dos contatos dos portugueses nos séculos XVI a XIX. Há elementos da Índia, da Malásia, há palavras japonesas (…)”[2]

No entanto, hoje em dia, e de acordo com o director do jornal Macau Post Daily, Harald Bruning, muito poucas pessoas conseguem falar ou entender esse crioulo.

“O patuá é, actualmente, falado por escassas dezenas de pessoas, sobretudo mulheres com idades superiores a oitenta anos, em Macau e Hong Kong, e talvez alguns milhares (ou centenas, dependendo das estimativas) entre a diáspora macaense espalhada pelo mundo (…). O patuá é, sem dúvida, uma língua criticamente ameaçada. Alguns descrevem-na, com dramatismo, como uma “língua que está a morrer” ou como “língua moribunda.””[3]

A língua portuguesa em Macau, é a língua de administração pública. Mesmo que tenha deixado uma marca profunda na cultura de Macau, a importância e a universalidade do português está a enfrentar enormes desafios. Para os estudantes em Macau, o português já não é obrigatório, excepto para os que têm vontade de trabalhar nas agências do governo ou os que trabalham com a lei. Qual é a importância actualmente do português para Macau e para a China?

Macau precisa de reconhecer que a língua portuguesa é uma das suas riquezas e que essa riqueza é de suma importância para a China (Alan Baxter em entrevista ao jornal Hoje Macau)[4]

Sabemos que a relação cooperativa entre a China e os países lusófonos está a reforçar-se nos últimos anos, especialmente com o Brasil, Angola e Portugal. Este intercâmbio aumentará a necessidade da aprendizagem do português, e na China, o melhor lugar para aprender português é em Macau. De facto, o território reúne as melhores condições para o ensino da língua portuguesa.

Arquitectura

Macauhoje.3t A presença portuguesa em MacauQuando os portugueses permanecem oficialmente em Macau, a transformação do território passa a ser algo de inevitável.

Os portugueses, vivendo em Macau, procuraram uma qualidade e estilo da vida semelhante a que tinham em Portugal. Tentaram construir um mundo luso naquele pedaço de terra. Iniciaram, assim, a construção de edifícios permanentes.

A arquitectura em Macau divide-se em dois estilos: chinês e europeu.

Não podemos falar de um estilo tipicamente português porque as construções não são totalmente de estilo tradicional português, mas sim, europeu.

No entanto, esta arquitectura europeia tem uma relação profunda com a presença portuguesa em Macau.

Hoje, grande parte destes edifícios fazem parte do centro histórico de Macau. Este centro, constituído por 22 prédios e 8 largos situados no Território, foi eleito, em 2005, pela UNESCO (em português, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), património cultural da humanidade.

Isto revela a importância dessas construções para Macau, a China e o mundo. Podemos perceber que são uma parte essencial e indispensável para o desenvolvimento de Macau. De acordo com o presidente da Ordem dos Arquitectos de Portugal, João Rodeia, “o uso da arquitectura como instrumento político traz mais negócio, mais afirmação no palco internacional, funcionando, muitas vezes, como fonte de atracção turística”[5].

Artes Decorativas

Além dos edifícios, não podemos negligenciar alguns detalhes que são a “alma” da arquitectura portuguesa, tais como a calçada portuguesa e o azulejo.

A calçada portuguesa

Como o nome indica é de origem portuguesa.

É amplamente utilizada em Portugal e também no Brasil, mas é em Portugal onde é considerada parte da tradição e expressão cultural, encarada como uma herança histórica do país. A calçada é um revestimento de piso, utilizado na pavimentação de espaços públicos e não só. São “basicamente” passeios calcetados com pedras de formato irregular de cor preta e branca, formando diversos desenhos que integram temas diversos. Terá surgido pela primeira vez em Lisboa no séc. XV e rapidamente expandido pelas vilas e aldeias do país. Esta arte passou as fronteiras do território português e expandiu-se com sucesso pelas antigas colónias portuguesas. Assim, em Macau, muitos passeios e praças são também pavimentados com calçada portuguesa. Em 1990, o governo de Macau revestiu com esta calçada, de cor branca e preta, o Largo do Senado, bem como pavimentou alguns passeios e largos que são hoje um aspecto interessante para todos os que por alí passam.

zMacau2 jpg A presença portuguesa em Macau

Calçada de estilo português em Macau

O azulejo

É um tipo de pintura aplicada em cerâmica quadrada com uma das faces decoradas e vidradas. A sua utilização é comum a outros países europeus e árabes, mas é em Portugal onde assume especial importância tanto artistica como culturalmente. Os portugueses decoram as fachadas ou o interior das igrejas, casas e fontes com azulejo.

Hoje em dia, o azulejo é também um aspecto específico da cultura de Macau. Para além dos edifícios públicos, o Museu do Vinho, expõe um painel de azulejo com cenários da vinha que explica, de uma forma bonita, o processo de cultivar a uva. O próprio aeroporto de Macau exibe paineis gigantescos de azulejo. Em 2009, o Museu de Macau promoveu uma actividade que visava ensinar os visitantes a pintar azulejos.

Religião católica

Portugal é um país maioritariamente católico. O catolicismo é a primeira introdução da religião ocidental em Macau. Nesse pequeno território situam-se dezenas de igrejas católicas. Pode-se dizer que Macau é uma cidade de igrejas. Não há dúvida de que a fé católica em Macau é herança de Portugal, pois com os descobrimentos, chega a evangilização. Portugal estabeleceu em Macau uma “Cidade de Deus” (Macau também se chamou “Cidade do Santo Nome de Deus de Macau”).

O Catolicismo tem uma história de mais de 400 anos em Macau. A Diocese católica de Macau, primeiro centro missionário no Extremo Oriente, foi criada em 23 de Janeiro de 1576. A Diocese tem agora 6 freguesias (entre as quais a de Lázaro, a de São Lourenço com uma história de mais de 300 anos), 2 distritos e mais de 20 grandes igrejas.

Macau tem actualmente mais de 2 milhões de católicos, sendo 60% desses católicos, chineses.

Nas actividades católicas, além da regular missa, há ainda procissões religiosas como a procissão da Virgem Maria que ocorre na Páscoa. Há também outro tipo de procissões como a da Procissão de Jesus e a Procissão de Nossa Senhora de Fátima.

Rancho folclórico

Mais uma das tradições populares portuguesas. Um rancho é um grupo rural de dança, canto e música folclórica portuguesa. Em Portugal, estes grupos gozam de um grande apreço das populações locais, sobretudo rurais e organizam-se, um pouco por todo o país, festivais folclóricos ao longo do ano. Existem assim, vários ranchos folclóricos em Portugal havendo também um rancho em Macau. Chama-se Associação de Danças e Cantares Portuguesa “Macau no Coração”. A maioria dos membros desta associação são macaenses com ascendência portuguesa. A Associação já deu espectáculos em muitos países e regiões.

Podemos dizer, que as danças tradicionais portuguesas são também um património cultural de Macau.

Gastronomia

Com a presença portuguesa no território, a gastronomia de Macau também foi profundamente influenciada. Integra fortes vestígios de receitas enraizadas na tradição portuguesa mas também chinesa ou ainda indiana, tornando-a rica e peculiar. Cozinha essencialmente caseira, encontram-se vários locais em Macau onde pode ser apreciada. É denominada gastronomia macaense.

Mas, para além da gastronomia macaense, é também possível conhecer a gastronomia de Portugal. Há uma dezena de restaurantes portugueses em Macau, nos quais se podem comer pratos típicos portugueses. Por exemplo, é possível comer a típica sopa chamada caldo verde ou comer amêijoas com chouriço e azeitonas. Para além disso, há vários pratos de carne tais como o cozido à portuguesa ou carne de porco à alentejana. Os chineses que adoram pato e porco, costumam apreciar o arroz de pato ou ainda o leitão assado. Como parte da melhor cozinha tradicional portuguesa, os pratos de bacalhau são indispensáveis e obrigatórios em todos estes restaurantes. De entre as inúmeras maneiras de o cozinhar, há o bacalhau à Gomes de Sá, o bacalhau com natas ou ainda o bacalhau assado na grelha. Como sobremesa é também possível provar diversos queijos portugueses.

A culinária portuguesa não integra apenas pratos deliciosos, também valoriza muito o ambiente do restaurante. Quase todos eles são simples, elegantes com uma atmosfera nostálgica e grande parte deles tipicamente portugueses.

Nesta linha, temos por exemplo, o Santos (na Taipa), o Manel (na Taipa), o Fernando (em Coloane), entre outros, onde a comida é mais autêntica e o ambiente mais tradicional. Depois, há outros como o Golfo Restaurante Português (no Porto Interior com uma longa história), o Macau Club (construído numa casa de ópera em 1873) e o do Clube Militar. São lugares mais elegantes onde as pessoas podem saborear a culinária portuguesa mas também macaense.

Há ainda muitos outros locais onde podemos saborear pratos portugueses.

Sistema jurídico

Durante o período de transição de Macau à China, esta última, bem como Portugal, teve uma série de aspectos a tratar de forma a garantir a transição do Território eficazmente. Um dos aspectos foi a aplicação da lei no território.

O sistema jurídico actual, vigente em Macau, é um sistema de direito típico da Europa continental. O conjunto de normas jurídicas de Macau baseia-se no conceito de Estado de Direito. Este sistema é baseado essencialmente no modelo do direito português. Mas esse sistema traduz também um típico processo burocrático português nem sempre positivo.

Em nossa opinião, o sistema jurídico de Macau apresenta duas grandes vantagens. Em primeiro lugar, facilita a negociação entre Macau e os países europeus. Em segundo lugar, contribui para um ambiente social diferente do da China continental, mais próximo com o da Europa, o que atrai muitos estrangeiros a visitar e até a estabelecer-se nesse território. Podemos afirmar que, de certo modo, o sistema jurídico em Macau estimulou a comunicação entre Macau e o resto do mundo.

Em jeito de conclusão

De acordo com a nossa investigação, pudemos verificar que Macau, em muitos aspectos, é, em geral, uma cidade profundamente influênciada pela cultura ocidental, e mais especificamente, pela cultura portuguesa.

Citamos neste artigo alguns aspectos como a língua portuguesa, a arquitectura, a religião, a gastronomia e o sistema jurídico. Todos estes aspectos contribuiram e continuam a contribuir para o desenvolvimento das relações entre a China e Portugal bem como os países lusófonos. Simultaneamente, facilitam a comunicação entre Macau e o resto do mundo. Para além disso, enriqueceram a cultura e sociedade local, estimulando o turísmo do território.

Obviamente, uma parte da responsabilidade desse resultado são os portugueses. Foram eles que transformaram o território, trouxeram a sua cultura, estimularam o desenvolvimento comercial, deixando um riquíssimo legado. Vários elementos desse legado são hoje património de Macau.

Muitos são os que acreditam que o esforço realizado pelos portugueses no território visavam unicamente os seus próprios benefícios e interesses. Talvez seja verdade, mas como hoje podemos ver, Macau ganhou mais do que “perdeu”. De qualquer forma, a verdade é que o território desenvolveu-se muito após a chegada dos portugueses e ainda hoje, Macau continua a beneficiar muito com o que herdou.

Macau guarda em si um tesouro muito precioso: a herança portuguesa. É necessário proteger esse legado e explorar, da melhor forma, essa riqueza. Acreditamos que Macau conseguirá desenvolver-se ainda mais se não menosprezar essa herança e até tornar-se verdadeiramente numa preciosa pérola do Oriente para o mundo.


[1] “Macau” in Wikipédia [em linha], http://pt.wikipedia.org/wiki/Macau [consultado em 2011-01-07]

[2] Alan Baxter. O português na China dos casinos in Revista Língua Portuguesa [em linha], http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11552 [consultado em 2011-01-07]

[3] Harald Bruning. À procura do reconhecimento internacional in Revista Macau [em linha], IV Série – N° 6

http://www.revistamacau.com/rm.asp?id=006031 [consultado em 2011-03-10]

[4] Alan Baxter. Portuguesmente Falando in Jornal Hoje Macau [em linha]. http://hojemacau.com.mo/?p=6521 [consultado em 2011-03-02]

[5] João Rodeia. Arquitectura com A grande in Jornal Hoje Macau [em linha]. http://hojemacau.com.mo/?p=6159 [consultado em 2011-02-03]

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