O português na base escrita vietnamita
Foi o Padre Jesuíta Francisco de Pina quem trouxe a concepção romanizada à escrita do Quoc Ngu, língua nacional do Vietnã
Muito me apraz ter tomado conhecimento de mais um cunho lusitano no contributo de um feito maior como é o da construção de uma linguagem escrita, romanizada, sendo essa relativa a um país tradicionalmente reconhecido por uma cultura tão díspar como é o Vietname.
Centremo-nos na figura do Padre Jesuíta Francisco de Pina. Natural da cidade da Guarda (1585/86?), terá chegado à Cochinchina [sim, ela existe] por volta do ano de 1618, onde terá desenvolvido a sua actividade até à sua morte, em 1625, na cidade vietnamita de Da Nang.
Entrou para a Companhia de Jesus aos 19 anos e desenvolveu os seus estudos em Letras e Teologia no Colégio Jesuíta de Macau. Esta instituição, que foi estabelecida segundo o modelo da Universidade de Coimbra, já conferia, desde os finais do séc. XVI, os graus académicos de Mestre em Letras e de Doutorado em Teologia. Como disciplinas complementares, eram ministradas outras matérias como a língua japonesa, as religiões orientais, a pintura e a música.
Por outro lado, não poderemos esquecer que a Residência dos Jesuítas nesta região do Mar do Sul da China, permanecia na cidade do centro litoral vietnamita, denominada de Hoi An, e não em Macau, como logicamente se poderia entender. Saiba-se que a sede dos jesuítas na Ásia seria no Japão e que estes mantinham, por razões histórico-comerciais, a sua influência nessa zona costeira do Vietname.
Acabados os seus estudos, Pina muda-se então para a missão de Hoi An. E é aí, no contacto com os falantes nativos, que se apaixona pela língua vietnamita e se autopropõe a realizar uma tarefa de todo exigente e pioneira: romanizar a língua escrita do Vietname, que até então era apresentada sob o antigo registo baseado em ideogramas de feição chinesa.
Para quem não sabe, a língua vietnamita actual não se escreve por ideogramas como o chinês, o japonês ou outros idiomas asiáticos. Embora manifeste acentuação e sintaxe particulares, apresenta-se-nos através dos mesmos caracteres por nós utilizados, organizados em torno de um alfabeto.
Pina terá sido então o iniciador do processo, no que viria a concretizar-se no «Quoc Ngu» ou “Língua Nacional” e no desenvolvimento e adopção oficial de um registo romanizado e distinto do chinês.
No entanto, o trabalho revelou-se muito mais complexo e por isso mesmo, demasiado moroso. À medida que iam chegando novos missionários, Pina concentrava-se agora, e, em simultâneo, a formar estes seus discípulos na língua vietnamita. Isto é: precisava de ajuda! E, terá sido no meio daqueles sacerdotes, oriundos não só de Portugal, mas também de Itália e de França, que se distinguiu um jovem padre jesuíta francês, de nome, Alexandre de Rhodes, que terá sido o precursor de Pina no trabalho a realizar, e, julga-se, o finalizador do projecto, já que Pina teria falecido entretanto.
Este facto ter-lhe-á conferido os “louros” da obra, assumindo praticamente o papel de criador do projecto, «o pai do Quoc Ngu », secundarizando-se, durante séculos, a figura primordial do jesuíta português que esteve na base de todo este primoroso trabalho linguístico.
Bibliografia
Vide Roland, Jacques, Pionniers Portugais De La Linguistique Vietnamienne, Orchid Press, 2002, Bangkok, Thailand.
Tags: alfabeto, Cochinchina, companhia de jesus, jesuita, LÍNGUA, lusofonia, Quoc Ngu, vietnãPOLÍTICA DE COMENTÁRIOS
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Eu já sabia que o idioma vietnamita era escrito em caracteres latinos , mas esse texto de Pedro Sebastião, trouxe-me informações preciosas de como isso veio a acontecer. Parabéns.