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ANGOLA» TRAÇOS CULTURAIS

Alambamento

por
fchocolate@hotmail.com
27 de January de 2011

Uma manifestação cultural da tradição dos povos Bakongos

alambamento noiva AlambamentoAngola dispõe de uma grande variedade de recursos culturais que funcionam como verdadeiros meios para facilitar o convívio e a reconciliação entre os povos de uma determinada tribo ou região etnolinguística. Entre estes recursos incluem-se as crenças e os costumes tradicionais, bem como os recursos provenientes das diversas crenças e as numerosas influências ideológicas que foram introduzidas durante e depois da dominação colonial. Independentemente da maneira como eles entraram, fazem hoje parte do património cultural dos angolanos, embora em graus diferentes em vários extratos da sociedade.

Apesar de diferentes eles cruzam-se e complementam-se uns aos outros. A combinação cuidadosa dos principais valores culturais destes grupos se constitui em fundamentos sólidos para a construção de uma convivência de paz e reconciliação, entre os povos o que se constitui, por sua vez, a base para uma convivência harmoniosa entre os membros do Clã, tribo, aldeia até mesmo da cidade.

Enquanto os valores ocidentais se caracterizam por privilegiar uma abordagem individual, os elementos culturais africanos em particular os dos povos Bakongos enfatizam o coletivo, o social, a comunidade. A filosofia de vida dos povos que compõem hoje Angola em particular aqueles que constituem a tribo Bakongo – em virtude de a maior parte desta população ser de origem camponesa – está profundamente enraizada no sistema de valores tradicionais, especialmente em momentos de crise pessoal e/ou social. Os rituais e as cerimônias são a forma através das quais são honradas ou geridas situações específicas.

A guerra que assolou Angola por mais de três décadas fez deslocar as populações de suas regiões de origem para as regiões mais seguras. Em consequência disso, muitos costumes e rituais tradicionais caíram em desuso. No entanto alguns rituais continuam a realizar-se e têm grande importância, como os rituais ligados à morte e ao luto, ao nascimento, rituais de reintegração de pessoas em sociedades e os rituais de casamento.

Na sociedade angolana, o casamento rege-se por duas correntes, a ocidental, com casamento no registo civil ou na igreja e a tradicional, com alembamentos, pedidos e casamentos. Poucos são os que optam exclusivamente por uma vertente, o habitual é cumprir os ritos tradicionais e culminar no casamento civil ou religioso.

A cerimónia de um casamento tradicional para os povos Bakongos é considerada como a mais importante na tradição destes povos. Diferente de região para região, devidas as necessidades da vida moderna, esta cerimônia tem vindo a ser simplificada gradativamente, mais, o importante é a união das famílias. A do noivo e a da Noiva.

O alambamento foi sendo adaptado às circunstâncias modernas e à vida na cidade. Tanto no campo como na cidade, a família do noivo entra em acordo com a da noiva acerca do “valor da rapariga”. Esse valor não é determinado apenas em quantia monetária é determinada, fundamentalmente em produtos tais como o gado, cereais e outros objetos de uso pessoal para a família da noiva. Na verdade, esta cerimónia consiste em resgatar a noiva com aquilo que há de mais valioso na região. Na cidade, o gado foi substituído por dinheiro, roupa ou bebidas. Tanto na aldeia como na cidade nos dias de hoje, a organização desta cerimónia, baseia-se em preceitos e normas por isso, em algumas regiões já existem formulários próprios para o pedido.

Os formulários seguem algumas normas, para evitar abusos ou tentativas de enriquecimento súbito por parte da família da noiva. É obrigação do noivo entregar tantas grades de cerveja quantas forem definidas pela família da noiva em resposta a carta de pedido endereçada a esta. Para além da cerveja é obrigatório apresentar também vinho tinto. Juntamente com a carta de alembamento o noivo deve entregar uma quantia em dólares, cujo montante varia entre 200 e 400, dependendo apenas das posses do noivo ou da vontade de impressionar a família da noiva.

Um fato completo, com sapatos e chapéu para o pai da noiva, um vestido ou uma peça de pano para a mãe e para as damas d’honor são também alguns objetos que devem fazer presente no lote das coisas que o noivo deverá apresentar no dia do alambamento. Esses objetos essenciais servem de requisitos para a preparação de um casamento condigno. Tendo isso preparado pelo noivo e família e, em função a data proposta por estes na carta endereçada a família da noiva tudo pronto para a cerimónia do alambamento.

No dia do pedido, o noivo acompanhado de sua família vão até à casa da noiva. À entrada do quintal, as tias da rapariga espalham panos, que o noivo terá de pisar até chegar ao local designado para a leitura da carta. Na verdade, nem todas são tias. Há algumas vizinhas que aproveitam a boleia. Em cada pano tem de deixar notas em dinheiro. Quanto maior o valor, melhor, mas não é proibido usar notas pequenas. Depende apenas das posses do noivo e da vontade que tem de impressionar a família da noiva.

Durante este tempo, a noiva está escondida. As tias negoceiam com o noivo o valor que ele terá de pagar para elas trazerem a rapariga às costas. Depois de tudo acertado, trazem a noiva e lê-se o conteúdo da carta. Tudo é conferido, não vá o noivo e família ter faltado à palavra e ter-se esquecido de trazer um ou outro lenço. Se faltar alguma coisa ao acordado, o pedido é rejeitado ou é aceite com a condição de o Noivo sua família pagarem uma multa em função do não cumprimento do acordo.

Quando tudo estiver em ordem, ou seja quando as famílias chegam ao acordo marca-se a data do casamento. Nalgumas famílias deixa-se ao critério dos noivos, noutras são os pais que decidem. Importa dizer que durante a cerimónia de Alambamento o Noivo e a Noiva não têm direito a palavra. Tudo é negociado entre as famílias. O alambamento representa a aliança entre duas famílias, pelo fato da cerimónia cingir-se mais num acordo feito entre as famílias do que entre os próprios noivos, que são os personagens principais do ato.

Se a data de casamento for muito próxima o noivo depois de consultar a família pode pedir um adiamento da data proposta em função das condições ou posses para a realização desta cerimónia que para esse caso concreto implica mais um investimento para este.

A origem do alambamento encontra-se inserida no quadro de uma necessidade histórica e social. O alambamento existe no sentido de se criarem determinadas condições e imposições sociais de forma a manter a ordem social dentro de parâmetros bem delineados.

No passado, e mesmo em alguns círculos actuais, o cumprimento dos usos e costumes é considerado como sagrado. O não cumprimento implica ameaça de morte, desgraça, infidelidade para com a comunidade e especialmente para com os mais idosos, que sempre seguiram à risca o cumprimento rigoroso das regras que regem a sociedade tradicional.

Nos dias de hoje, o alambamento converteu-se num acto ancestral sacralizado, tendo em conta as ameaças e as pragas mergulhadas no mito de que sem a realização desta cerimónia surgem consequências imprevisíveis no lar, como a não procriação, o que faz com que muitos observem o cumprimento escrupuloso da realização do acto.

O alambamento é uma espécie de aliança familiar, em que os presentes trocados durante a cerimónia são o sinal externo do pacto a ser realizado e a garantia da indissolubilidade do casamento tradicional, que nos dias de hoje se transformou numa verdadeira fonte de receitas. É um acto tradicional que defende o conceito de família extensa, em que o elemento de ligação não é o sexual, entre marido e mulher, mas de geração, de pais para filhos. É nesta perspectiva que tem de ser analisado o casamento tradicional, o seu ritual, os seus impedimentos, as regras a observar e todos os demais requisitos exigidos, cujo cumprimento é mantido por uma forte pressão social, tradicional e familiar.

Na carta, o homem manifesta o desejo de se tornar noivo ou futuro marido de uma determinada moça. A família da mulher, em resposta ao pedido de noivado feito pelo candidato, envia uma carta à família do marido onde exprime a sua satisfação em poder receber o pretendente, anexando, na missiva, uma lista que acaba por definir as quantidades de produtos diversos que o homem deve levar para a consumação do chamado casamento tradicional, alambamento, representando assim a segunda parte deste processo. Depois de feita a entrega das coisas à família da mulher, o homem é autorizado a assumir a moça como mulher. E reconhecem-no como genro.

 Alambamento

Francisco Macongo

é angolano, mora no Brasil e é mestrando em Psicopedagogia na UNIFIEO, em Osasco, cidade da região metropolitana de São Paulo.

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