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ANGOLA

O ‘amigo preferencial’ da bicha

por
vulamagina@hotmail.com
25 de October de 2010

Atendimento preferencial actualizado em Angola: Idosos, mulheres grávidas, pais com bebés ao colo, portadores de deficiências e… amigos

bicha 300x225 O amigo preferencial da bichaEm Angola há bicha* para tudo e em tudo, ou pelo menos quase todos os lugares. Bicha para comprar pão, pagar no caixa de supermercado, levantar ou depositar dinheiro no banco, e até para ir a casa de banho (sanitários ou banheiro para muitos), porque não? Enfim e tal como disse, há bicha para tudo e podem ser virtuais ou físicas.

Além de muitas vezes desorganizadas, onde as temos de suportar inalando mau cheiro ocasionado por falta de higiene de muitos, um outro quebra-cabeças instalou-se no funcionamento destas bichas: a actualização do atendimento preferencial. Agora, a prioridade no atendimento não é apenas para os já conhecidos e reconhecidos internacionalmente, idosos, mulheres grávidas e os portadores de deficiência (portadores de necessidades especiais em muitos países). A mais recente actualização determinou, assim como que por lei da selecção natural de Charles Darwin, que os amigos dos atendedores também fazem parte do atendimento preferencial e o agravante de estarem na frente dos outros.

Não se surpreenda se for a um banco, onde por norma o atendimento é por ordem de chegada, e em frente de si passarem outras pessoas, facilmente identificadas por estarem com “ar” de apressados (como se os outros gostassem de lá estar). Pois os “furadores” apresentam-se com um longo, irritante e falso sorriso, logo correspondido pelo funcionário do balcão (caixa) que o dá prioridade de se aproximar passando na frente dos outros. Se assim acontecer, relaxe! Sinta-se consolado pelo ar condicionado já que lá fora o calor é insuportável, a menos que queira abandonar a bicha de bolsos vazios e nervos à flor da pele (só para não dizer à árvore da pele. Nestas ocasiões, não necessários troncos porque pétalas não resistem).

O facto parece não preocupar as pessoas que embora se mostrem irritadas na ocasião, se consolam depois de muitos minutos de espera, quando tiverem suas necessidades realizadas (dinheiro no bolso, pão no saco etc.). Este conformismo é talvez levado a cabo pelo pensamento de que naquele estabelecimento o seu atendimento não é “preferencial” mas que, dada a quantidade de amigos que por ordem da natureza cada angolano ganha por dia, em outra circunstância será ele o privilegiado.

Este pensamento vicioso acaba originando por sua vez um ciclo de “corrupção passiva” que além de não ser nada agradável acaba prejudicando muito, o normal funcionamento do próprio país. Ora se não vejamos: Imagine que esteja a trabalhar e por imperativo de vária ordem tenha que ir ao banco para retirar um valor impossível de se fazer através do multi-caixa (caixa electrónico em muitos países). Lá estás tu enfrentando uma insuportável bicha, e no limiar da sua vez de ser atendido, chegam pelo menos duas pessoas enquadradas no “preferencial actualizado”. Além do tempo por si cumprido por conta da ordem de chegada, terá suportar as interrupções dos “apressados” que para agravar a falta de educação e respeito pelos outros, ainda troca um dedo de conversa com o operador, sobre questões supérfluas como “foi boa a farra de ontem”, “tens visto a fulana”, “me dê o seu número” e blá, blá blá.

Fim das contas, passa-se menos tempo no trabalho, o que prejudica outras pessoas que dependem do seu atendimento, e se for seguir o ciclo das coisas, resulta no atraso do desenvolvimento do país por inteiro. Afinal, quantos documentos ficam sem ser assinados por dia porque a pessoa indicada para os despachar ficou fora três das oito horas que é seu tempo diário de serviço? Mas não pense que o trabalhador será penalizado! O chefe já está ao corrente da situação que acontece nos bancos associada a outra bicha que se enfrenta a caminho do serviço, a universal bicha de carros, comummente chamada engarrafamento (trânsito em muitos países).

* Embora se podem atribuir vários significados à palavra BICHA, no presente texto refere-se a maneira de como as pessoas se dispõem uma em frente da outra formando uma fila (também chamada de “fila indiana”) Na linguagem popular em Angola usa-se bicha ao invés de fila.

 O amigo preferencial da bicha

Custódio Fernando

é angolano, natural de Malanje. É jornalista, radialista e escritor

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