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ENTREVISTA

‘Ele falava a linguagem das ruas’

por
felipetonet@opatifundio.com
20 de September de 2010

Para comemorar o centenário do poeta do povo, Adoniran Barbosa, O Patifúndio! entrevistou o músico e integrante do Demônios da Garoa, Izael Caldeira

Simpático e atencioso, José Maria, já um senhor, é o responsável pelo Museu Municipal de Valinhos, me atendeu em uma tarde de quarta feira.

O assunto era Adoniran Barbosa, cidadão ilustre do município, base do Unificados, e que recentemente completou 100 anos de nascimento. Dedicado, Zé Maria, mostrou e explicou curiosidades da vida do cantor e ator.

Entre elas, uma cópia autenticada da certidão de nascimento do poeta, que desmente a data da comemoração de seu centenário. Nela, está 7 de agosto e não 6 de agosto, como é comemorado.

Museu não é padaria, afirma Zé Maria. Ele ressalta a importância das pesquisas históricas, principalmente para levar aos estudantes da cidade informações consistentes sobre um dos valinhenses mais famosos.

Filho de imigrantes italianos Adoniran Barbosa, cujo nome de batismo é João Rubinato, mudou-se para São Paulo com o sonho de ser ator, porém o destino levou-o para o rádio.

Cantou como ninguém o dia a dia e a boemia paulistana. Em suas letras deu voz aos pobres e marginalizados. Tratou de temas tristes sempre com bom humor.

O grande sucesso de Adoniran só veio após seu encontro com os Demônios da Garoa, grupo vocal ainda hoje em atividade. Essa parceria colocou o sambista e também o grupo, nos ouvidos e bocas de todo o país.

Para comemorar o centenário do poeta do povo, O Patifúndio! entrevistou o músico e integrante do Demônios da Garoa, Izael Caldeira.

oziel caldeira Ele falava a linguagem das ruas

Izael Caldeira (voz e timba), integrou o Demônios a partir de 1981

O Patifúndio! – O Demônios da Garoa é um dos grupos em atividade mais antigos do mundo, a que você atribui essa longevidade?

IZAEL CALDEIRA – Pois é, entramos até no Guinness Book (livro dos recordes), somos certamente o grupo em atividade mais antigo das Américas, e a pesquisa vai mostrar que somos o do mundo também. O grupo existe há 67 anos, desde a década de 40.

O Demônios se tornou um patrimônio, fez muito sucesso na década de 50 e 60, até 75, depois caiu um pouco, mas por ter um estilo tão marcante, se tornou hereditário. Gostar de demônios da Garoa é uma coisa que passa de pai para filho. Hoje, ainda hoje as músicas do grupo são cantadas em rodas de samba, depois das partidas de futebol, nos botequins.

O Patifúndio! – Você está no grupo há quanto tempo?

IZAEL CALDEIRA – Somadas as duas passagens, uns 15 anos. Eu participei durante os anos 80 e depois voltei em 99.

Claro que o grupo teve diversas formações, né. Passar tantos anos com os mesmos músicos é humanamente impossível, mas o legal é que o Demônios nunca perdeu seus estilo, nunca fugiu das suas origens.

O Patifúndio! – Origens ligadas a São Paulo…

IZAEL CALDEIRA – Isso, os Demônios da Garoa são a cara de São Paulo. E isso se deve principalmente aos sambas do Adoniran.

O Patifúndio! – Qual é a importância do Adoniran para o Demônios da Garoa?

IZAEL CALDEIRA – Toda. O Demônios era um grupo vocal como tantos outros que existiam na época, inclusive imitava outros grupos. Foi a parceria com o Adoniran que deu identidade para o grupo, a partir daqui que o demônios encontrou seu estilo.

E o contrário também é verdade. O Adoniran já tinha gravado muitos dos seus sambas famosos, mas nada tinha acontecido. Foi depois da parceria com o Demônios, das introduções, da linguagem que encontrou junto com o grupo que o Adoniran fez sucesso.

O Patifúndio! – Principalmente a forma de falar, as onomatopéias né…

IZAEL CALDEIRA – Isso. O quaiscalingudum, o nóis fumo, nóis voltemo. Era o jeito que a população falava, a linguagem das ruas. A poesia, a tragédia contada na letra ganhou uma forma engraçada. O caipira italiano.

Isso marcou muito, até hoje todo mundo conhece essas músicas, por isso que eu falo que o demônios é hereditário, passa de pai para filho.

O Patifúndio! – Para terminar, muitos anos de estrada ainda?

IZAEL CALDEIRA – Isso depende dos mais jovens e de deus, precisamos ter saúde né? Mas estamos ai, já há 67 anos, e estamos ai. Vamos permanecer por muito mais tempo. Hoje tempos uma ótima formação, fazemos muitos shows, é um show com muita vitalidade, muitas crianças comparecem, cantam com os pais, jovens entram no site na internet, conversam com a gente pelo Twitter, somos privilegiados, estamos ai.

 Ele falava a linguagem das ruas

Felipe Tonet

é brasileiro, jornalista, trabalhou em Angola em 2008 e foi um dos primeiros colaboradores do Patifúndio, quando este chamava-se Descobri a Pólvora! De volta ao Brasil, ele irá nos trazer periodicamente novidades do Fórum Social Mundial 2009, que ocorre na cidade brasileira de Belém entre os dias 27 de janeiro e 1º de fevereiro.

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