Mamãe, eu quero ir pro céu
Minas Gerais é um dos estados brasileiros que menos consome livros, mas se o céu não existe para quê acreditar nele?
Dia desses, um jornal daqui do nosso sertão, publicou dados de uma pesquisa do Ibope referente ao gasto anual do caboclo mineiro com livros. Segundo a pesquisa, o cidadão mineiro gasta por ano míseros R$ 14,40 nos balcões de livrarias. Diante desses números, alguns sujeitos arrepiaram os cabelos, outros proferiram palavrões diante do jornal e do instituto, ofendidos, retrucando o discurso típico dos envergonhados. Afinal somos um grande estado, com dimensões de nação, berço de nomes literários como Guimarães Rosa, Drummond, Adélia Prado, Sabino, Luiz Vilela, só pra citar alguns, e não pega bem ficar com fama de mão de vaca no mercado literário.
Até onde vai meu entendimento, não é caso de susto.
Mas a minha opinião parece ser uma exceção. Outro dia, navegando por um blog literário (sic) deparei-me com um texto inflamado de um sujeito, um bem intencionando aspirante a escritor que, com convicção inviolável, levantava argumentos escandalosos, ofensivos e mostrava por A + B como as pessoas deveriam gastar o ordenado. Segundo o Sr. aspirante, as pessoas deveriam deixar de fazer prestações nas Casas Bahia, ir em shows de bandas da modas, de comprar celulares modernosos, pra comprar livros. Uma espécie de cartilha do consumidor cultural sadio. E esse não é único texto que existe por aí, onde letrados e aspirantes, choramingam a crueldade dos leitores, a pouca venda de seus produtos, a ignorância das pessoas de bem, qualificadas como alienadas, desinformadas, fúteis e um sem número de adjetivos de baixo calão. As pessoas são horríveis; nós, os letrados, uns injustiçados.
Ainda existem aqueles que evocam o chavão do capitalismo, da pobreza, da propaganda nos impingindo necessidades das quais não precisamos, do colonialismo cultural do qual somos vítimas passivas, do problema das escolas públicas e das universidades privadas, e mais uma dezena de artefatos socio-culturais atarracados nos nossos calcanhares coloniais e que, por força sobrehumana, nos impedem de evoluir como um povo branco, cosmopolita, consumidor de cultura de luxo. A culpa é do sistema, e nós, os letrados, somos uns injustiçados.
Acredita-se no céu, e isso é uma lástima.
Em pleno século 21, ainda acredita-se no céu. Não naquele céu onde São Pedro nos espera com uma chave ou naquele céu comunista ao fim da aposta, alguns até acreditam; mas acredita-se no céu enquanto mundo ideal, justo, realidade perfeita. Crêem que este mundo é errado, logo, deve existir, sabe-se lá onde, um mundo certo e precisamos importá-lo pra cá com silogismos e adjetivos. Acredita-se que este mundo, com tudo que existe nele, não basta. E se este não basta, é preciso inventar outro: um céu habitado por seres de bolsos cheios, asas nas costas e livros nas mãos.
Tags: leitura, letramento, livros, modernidade, TRAÇOS CULTURAISPOLÍTICA DE COMENTÁRIOS
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De facto não me parece que haja como forçar as pessoas a ler, mas também é verdade que um bom livro é uma experiência edificante, e não há que ter receio ou problema em afirmá-lo, mesmo que tal não implique uma atitude militante que diminua pessoalmente quem, por que motivo seja, não se convence a investir mais na literatura.
Mas também é verdade que o livro aparece um pouco como um artigo de luxo, dados os preços correntes, com execpção talvez de colecções promocionais que em geral se limitam aos clássicos, que, por sua vez, raras vezes são as primeiras escolhas de quem quer experimentar a literatura.
E, finalmente, diria que quem principalmente consome a produção literária são os extractos urbanos de classe média e que, por tal, com o desenvolvimento económico que o Brasil tem realizado, julgo que, naturalmente, estas estatísticas tenderão a revelar um aumento da despesa das famílias com a literatura. Até porque em geral as despesas com a literatura não são vistas como investimento de modo que só o conforto financeiro, em princípio, levará a um crescimento dos índices de leitura.