title=
PORTUGAL

Agostinho da Silva: um pequeno mosáico biográfico

por
vascojoao@hotmail.com
6 de July de 2010

Em Portugal não há elites, há indivíduos de elite. (José de magalhães)

agostinho silva Agostinho da Silva: um pequeno mosáico biográficoO texto que se segue versa precisamente acerca de um desses indivíduos de elite que nasceram em terras de Portugal – George Agostinho Baptista da Silva (1906-1994), mais conhecido por Agostinho da Silva.

Uma advertência prévia, no entanto, para o termo elite, hoje muito desgastado por uma apropriação deficiente do seu significado original. Assim, por elite, entendo não um grupo que simplesmente se apropria ou aproveita de uma posição social de destaque para a usar em proveito próprio, mas, antes, aqueles que de um determinado grupo, que pode chegar a ser um povo, se destacam por suas qualidades humanas e são, por tal, reconhecidos por seus pares como seus melhores representantes. É nestes termos, e só nestes, que qualifico Agostinho da Silva de indivíduo de elite.

A pequena biografia que se segue será, por sua vez, menos um elenco de datas e factos, do que uma colagem de imagens e idéias que serve acima de tudo para tentar dar a tónica da pessoa que aqui recordamos.

Agostinho da Silva nasce em 1906, no Porto, isto é o facto. Quanto à natureza do evento, no entanto, ouçamos o próprio:

“Naquela biografiazinha que estive escrevendo um pouco a pedido do amigo, ponho a idéia de que eu, quando chegou a minha hora de nascer no céu das idéias, estava atento ao globo terrestre que ia passando pela frente à espera de encontrar uma terra que me agradasse. E, como eu, estavam outros: quer dizer, toda a gente escolhe o lugar onde nasce. Que nascer não é uma fatalidade, mas uma escolha pré-consciente, daquela consciência que se perde quando se voa lá do Céu para a Terra, como diz Platão. (…)Eu o que escolhi foi Barca de Alva, que é a última terra portuguesa antes da fronteira com a Espanha, isto é, logo a seguir à Espanha. Mas é muito difícil fazer o cálculo matemático para de um corpo em movimento, como é o Céu, ir acertar noutro corpo em movimento que é a Terra. Então os calculistas lá se enganaram e eu fui parar ao Porto. Mas, logo que foi possível, repararam o erro e apenas com alguns meses fui realmente crescer em Barca de Alva”.(1)

Ingressa na escola com seis anos de idade, em 1912, para completar em 1929 o Doutoramento na Universidade do Porto, com 20 valores. É interessante verificar, porém, que pese embora todo o sucesso académico que granjeou ao longo de sua vida, Agostinho da Silva sempre foi muito crítico de um ensino que via como demasiado formal, que servia acima de tudo para integrar a pessoa num mundo já pré-formatado, onde os factores da liberdade criativa e da vocação natural não eram levados em conta. As escolas, para o nosso protagonista de hoje, deveriam dar a iniciativa à criança, “a que o adulto assiste e em que aprende, ou reaprende, a ter imaginação, a criticar, a se integrar no jogo como num trabalho ou no trabalho como num jogo, a sonhar considerando o sonho como uma actividade necessária e legítima, numa palavra a ter todas as qualidades que perturbariam a calculada e, o que supõem, segura vida dos desembargos do paço ou dos presídios supremos”. (2)

Depois do Doutoramento, uma Bolsa de Estudos leva-o até Paris, à Sorbonne a ao Collège de France, viagem essa que não deixa de representar uma visita de estudo à europa a que Portugal, para ele, só em parte menor pertencia, não pela diferença quanto a índices de desenvolvimento, mas, direi, por natureza de sua identidade mais profunda. Para Agostinho da Silva, inclusive, a entrada de Portugal na CEE só faria sentido se significasse o desembarque, finalmente, do país no continente europeu, sobretudo para que levasse à europa os valores de um humanismo de que se havia afastado para construir a civilização da técnica e do domínio. Para este desembarque de Portugal na europa, com esta espécie de missão humanista, o Brasil seria fundamental, quer para proteger Portugal deste mergulho na europa, quer para reforçar os valores humanistas que Portugal lhe deveria levar. Estes valores são, essencialmente, aqueles pertinentes à Idade do Espírito Santo e ao Quinto Império, de que falaremos um pouco mais adiante.

Por ser um espírito livre Agostinho da Silva deu-se mal com os ares do Estado Novo e em 1947 muda-se para o Brasil. “(…)Ao chegar ao Brasil logo várias coisas foram sucedendo. A primeira, talvez, foi que me encontrei a mim próprio, de repente, descobri-me, sem que houvesse qualquer acto voluntário: as coisas foram realmente sucedendo e a úniva virtude que se poderá pôr de minha parte é que eu me deixei levar por aquilo que despertava em mim ou que, parecendo vir de fora, efectivamente, me batia à porta para que eu abrisse”. (3)

Viveu cerca de 22 anos no Brasil e esteve envolvido na fundação de várias universidades e projectos de natureza social e cultural. Inclusive, quando regressou a Portugal fê-lo trazendo uma reforma providenciada pela Universidade de Santa Catarina e não aceitou qualquer outro abono financeiro que as autoridades portuguesas lhe ofereceram. Mesmo os direitos de autor de sua obra ele recusou, pedindo apenas que as editoras os direccionassem para apoiar estudos de cultura portuguesa. Dizia ele, parafraseando, que melhor servia esse dinheiro para fazer avançar estudos sobre o sebastianismo em Portugal, por exemplo, do que serviria se o tivesse usado para comprar mobiliário novo para a sua casa.

Considerou o Brasil o melhor que Portugal fez e que ao Brasil caberia realizar aquilo que sendo o melhor de Portugal, este, no entanto, não conseguiu concretizar. Falava, acima de tudo, dos ideais da Idade do Espírito Santo e do Quinto Império. Idade do Espírito Santo, que, por sua vez, se definia à partida pelo imprevisível, enfim, pela dádiva do excedente de ser que a vida universal jorra sobre as vidas particulares convocando-as a abraçar esse imprevisível como matéria prima e fundamental da liberdade e da criatividade do espírito humano. O Quinto Império, ligado aos ideais da Idade do Espírito Santo, representa por assim dizer a sua realização política, cultural e social. É um Império sem Imperador, ou com um Imperador menino, quer dizer, dirigido pelo princípio de generosidade da criança – que não tem preconceitos, que está aberta ao mundo e vive pela liberdade de o conhecer, de com ele brincar e jogar, sorridente e em paz.

Quinto Império, ainda, que para Agostinho da Silva deixou de ser um projecto daquele Portugal de um milhão de habitantes que nos séculos XV e XVI se lançou nos descobrimentos, para se tornar, sim, um projecto de todos os povos de língua portuguesa – deles para o mundo.

Do Brasil escreveu e disse muita coisa que não cabe aqui, mas realço uma pequena frase que, a meu ver, poderá ser uma síntese feliz da sua experiência e visão do país: “O Brasil não é o país do isto ou aquilo, mas o país do isto e aquilo”.

Portugal e os portugueses foram quase omnipresentes na sua obra ensaística e disse, entre muitas coisas, deste povo que era também o seu, que alberga “tranquilamente variadas contradições impenetráveis, até hoje, ao racionalizar de qualquer pensamento filosófico”. E que, pensando certamente na Idade do Espírito Santo, “gostaria muito que o Povo português se especializasse no imprevisível”. (4)

Faleceu em 1994, em Lisboa. Vive, porém, na sua obra e na esperança que irradia.

Site oficial: www.agostinhodasilva.pt

(1) Agostinho da Silva, Vida Conversável, Ed. Assírio e Alvim, 1998.
(2)Agostinho da Silva, Dispersos, Ed. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, in http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6222.pdf
(3) Agostinho da Silva, Vida Conversável, ibidem.
(4) Conversas com Agostinho da Silva, entrevista de Victor Mendanha, Lisboa, Pergaminho, 1994/ 1998 (9ª).

 Agostinho da Silva: um pequeno mosáico biográfico

João Vasco

é português, natural de Luanda, Angola. É Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa

Outros artigos deste autor

Tags: , , ,

POLÍTICA DE COMENTÁRIOS

- Colabore com a democracia e mantenha o bom nível do debate. Exerça a liberdade de expressão com responsabilidade.

- Comentários sem identificação serão apagados. Prática de SPAM,ofensas, xingamentos, demonstrações de racismo ou intolerância religiosa, racial ou política também. O contraditório é garantido e ansiosamente aguardado, desde que ele seja bem usado.

Deixe seu comentário!