O boletim da Guiné-Bissau
Uma impressionante publicação para os padrões do Portugal colonialista surgia em 1945: O “Boletim Cultural da Guiné Portuguesa”
Eu certamente não teria melhor tópico do que este quando o assunto são línguas regionais, pois o antigo “Boletim Cultural da Guiné Portuguesa” é o mais importante repositório de informações acerca da cultura de qualquer um dos territórios sob administração portuguesa.
A publicação surgiu em 21 de julho de 1945, incentivada pelo então governador daquela colônia, Sarmento Rodrigues. Era editado pelo chamado “Centro de Estudos da Guiné Portuguesa”, que o pubicou trimestralmente durante 28 anos. Tratava de praticamente todos os assuntos ligados ao território da Guiné – as doenças e seus tratamentos, tipos indígenas (com boas fotos e ilustrações), histórias e contos dos povos que ali residiam, etc. etc., além de é claro, quase todo o volume trazer artigos realmente científicos sobre as línguas utilizadas na Guiné-Bissau.
Afirmo categoricamente que qualquer pessoa que queira se iniciar no estudo de uma língua guineense deve pelo menos correr os olhos no acervo deste Boletim. Os artigos são detalhados, com bastantes páginas, vocabulário e gramática. Um artefato de suma importância, principalmente nos dias de hoje onde publicações tratando do aprendizado de línguas africanas são verdadeiramente raríssimos.
É interessante notar aqui mais um efeito, talvez benéfico do colonialismo. Como eu disse várias vezes em vários outros artigos, o colonialismo é algo realmente negativo, mas que às vezes trazia alguma coisa de bom. Esse é o caso do Boletim Cultural da Guiné e de várias outras publicações no passado, das diversas potências coloniais: o leitor que queira estudar alguma língua africana qualquer vai perceber que o mercado hoje em dia traz pouquíssima variedade de títulos sobre qualquer língua. O suaíle talvez seja uma modesta exceção, mas geralmente é difícil por as mãos em um bom manual sobre qualquer língua africana. Isto não acontecia no passado – início do século XX até cerca dos anos 50, onde proliferavam vários títulos sobre muitas línguas africanas. O colonizador precisava então de um bom domínio das línguas locais para poder se relacionar e explorar melhor o território colonial. Então, os melhores manuais de inúmeras línguas são dessa época, o auge do colonialismo. Quando a África deixou de ser campo de exploração dos europeus, as publicações sobre línguas subitamente rarearam.
No caso do colonialismo português e do Boletim Cultural da Guiné, a iniciativa de publicação de tal obra é ainda mais louvável se levarmos em conta que os portugueses pareciam muito mais interessados que as outras potências em fazer valer os seus valores ao invés de conhecer melhor a cultura dos seus diversos territórios. O Boletim Cultural da Guiné é um oásis num deserto de publicações governamentais ou patrocinadas pelo estado onde a África era um mero espelho de Portugal, onde o negro africano, o chinês de Macau ou o nativo de Timor eram apenas portugueses de diferentes cores de pele. Ao ler qualquer outra publicação de Angola, Goa, Macau, etc. etc. a impressão é de não se ter saído de Portugal. Tal impressão se inverte no Boletim Cultural da Guiné, onde parece que havia uma seriedade realmente crítica e científica na composição dos artigos. O tratamento é belíssimo, e como eu disse, vale no mínimo uma corrida de olhos. As outras publicações oficiais do ultramar português envelheceram um monte desde o 25 de Abril. O Boletim Cultural da Guiné, ao contrário, parece mais atual do que nunca.
http://memoria-africa.ua.pt/digitalLibrary/collections/BCGP/tabid/175/language/pt-PT/Default.aspx – Página Memória de África – todos os volumes do “Boletim Cultural da Guiné Portuguesa” digitalizados, desde o primeiro até o último número.
Tags: áfrica lusófona, colonização, cultura local, Guiné Portuguesa, GUINÉ-BISSAU, TRAÇOS CULTURAISPOLÍTICA DE COMENTÁRIOS
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Emerson
Sou estudante de história da África em Lisboa e estou a fazer uma pesquisa sobre a Justiça aplicada aos indigenas no período colonial 1894-1930.Tenho como uma das fontes de pesquisa os Boletins Oficiais de Moçambique e das demais colonias à época. Esses Boletins, apesar de oficiais, ou seja, obra dos colonizadores, são fontes inesgotáveis de informações sobre a África lusófona, e qualquer pessoa que queira desenvolver um trabalho historico e cultural sobre África lusófona há de tê-los como referência. Nas entrelinahs das informações oficiais podemos identificar as maneiras com que os africanos(portugueses) resisitiram a muitas das medidas tomadas pelos colonizadores. É evidente que tudo é um produto da reflexao de cada um, mas não podemos deixar de reconhecer que esta fonte é uma das que podemos contar para conhecer um pouco desta África, que tentaram esconder por tantos anos, mas que ficou ali, resistente, atenta, e porque nao dizer, oculta a muitos olhos que não souberam enxergar,e que nós, hoje, podemos, através dos boletins, e do que tentaram nas suas informações esconder, começar a revelar e identificar.
Continuemos a ler os boletins.
Esmeralda Martinez
Muito interessante. Obrigado!