Ela preferiu o táxi
Ela preferiu o táxiVilma se recorda dos sapos de uma vida nada monótona. Hoje, com 67 anos, se diz guerreira e ri do passado
BRASIL – Vilma Rodrigues de Carvalho, única mulher entre três filhos, foi e é um grande orgulho para toda família. Casou-se muito jovem, aos 16 anos, e teve um casal de filhos. Aos 25 desquitou-se e voltou a morar com os pais – junto com os filhos – no bairro da Saúde, em São Paulo. Até então sempre trabalhara no comércio como vendedora. Era de ver que o contato com o público seria o seu forte.
Sempre foi muito falante, espontânea, tinha grande habilidade com as vendas, mas ela queria mais. Vilma sonhava em conduzir sua vida profissional da mesmo modo de seu pai. Foi então que “duas palavrinhas mágicas” fizeram com que ela definitivamente despertasse a coragem para seguir este caminho: queria liberdade, queria independência.
A profissão? Taxista. Começava a grande jornada da sua vida. A primeira atitude foi dividir com o pai o desejo de seguir a mesma carreira. Na época ela já tinha habilitação e carro. Faltava, na sua concepção, muito pouco. Bastava apenas apoio e algumas orientações paternas de como transformar seu carro de passeio em um veículo de praça. No mais, a vida se encarregaria de ensinar-lhe.
E foi com grande decepção que Vilma escutou um grande e sonoro não do seu grande ídolo. Mas, por mais que doessem aos seus ouvidos todas aquelas negações, ela não desistiria de seu sonho, não se esqueceria tão cedo de suas palavrinhas mágicas.
Estaria sob pena de ser insultada e discriminada por atuar numa profissão predominantemente masculina, temia também pela sua segurança, tinha medo de assaltos, sem falar que não poderia mais ser tão vaidosa, pelo menos no trabalho. Deixaria de usar suas meias finas e os seus saltos que tanto gostava. Porém, a sua maior agonia era o risco de perder toda a admiração que seu pai herói tinha por ela.
Alguns anos se passaram e o sonho de trabalhar na praça continuava intenso. Foi então que ela resolveu fazer uma nova investida: aos 36, foi buscar amparo no seu filho, na época um jovem rapaz. Mas ela recebe mais um não dolorido. “Mamãe esqueça essa história, a senhora sabe que o vovô não quer saber nem por sonho dessa possibilidade”.

“O senhor pode me dizer como eu devo proceder para mudar o meu carro de passeio para um carro de praça? É isso mesmo, quero montar um táxi. Sou eu que vou dirigir, vou ser uma taxista.”
A passagem de dez anos só fez com que Vilma fortalecesse seus convicções, nenhum ‘’não’’ iria mais impedi-la. Procurou a ajuda de estranhos, parou em um ponto de táxi no bairro e fez a mesma pergunta que fizera ao seu pai. “O senhor pode me dizer como eu devo proceder para mudar o meu carro de passeio para um carro de praça? É isso mesmo, quero montar um táxi. Sou eu que vou dirigir, vou ser uma taxista.”
Mesmo sem conseguir esconder a surpresa, o taxista foi prontamente solícito e indicou o caminho à Vilma. Tendo feito todos os cursos obrigatórios que a profissão requer e com toda documentação necessária em mãos, eis que chega o grande dia.
Seu carro de passeio, um Chevette, agora era um táxi. Para o sonho ser perfeito, faltava a aprovação de seu maior ídolo. Cheia de orgulho e emoção, ela chegou à frente de sua casa com o seu táxi e chamou pelo pai. Pediu para que ele fosse o primeiro passageiro. Depois de um grande sermão, o seu João não pôde conter a emoção ao abraçar Vilma. Disse o quanto era orgulhoso por ter uma filha tão corajosa e fiel aos seus ideais.
Liberdade e independência passaram a fazer parte da sua vida profissional. Começava ali uma nova etapa. Ela poderia administrar o seu tempo de acordo com as necessidades financeiras e estar mais próxima à família, sem a vigia de um patrão.
Não seria tudo um “mar de rosas”, confessa a Vilma, mas o prazer da realização de seu grande sonho estava sendo sentido na pele. Agora era verdade, Vilma era uma taxista.
Ultrapassando as barreiras do preconceitoUltrapassando as barreiras do preconceito

Vilma teve de lidar com o preconceito implacável dos motoristas de táxi dos anos 70 e 80 para abrir caminhos
O começo de Vilma na praça foi “batendo lata”. O trabalho era árduo, o transito implacável. A discriminação falava alto, principalmente vinda do sexo oposto. Seu horário no início era das 6h às 18h. Treze anos se passaram e ela precisava ter um ponto fixo.
Em suas idas e vindas se deu conta de que uma mega construção que estava sendo erguida na Barra Funda. Curiosa e astuta tratou de fazer pequenas paradas no local. Ela não era bem vinda. Alguns taxistas, igualmente “curiosos”, tratavam-na mal e ameaçam furar os pneus de seu carro se ela insistisse em voltar.
Não demonstrava intimidação. Foi numa dessas paradas que acabou pegando como passageiro um engenheiro do complexo em construção que estava ainda em terraplanagem. Teve o prazer de conhecer durante o o percurso da corrida a maquete do que seria mais tarde o Memorial da América Latina, a Estação Barra Funda do Metro/Trem e o Terminal Rodoviário.
Mulher que nunca mandou recado, não pestanejou em ir seis vezes ao gabinete do diretor dos Transportes Públicos de São Paulo até conseguir das mãos dele uma concessão para um ponto fixo no Memorial da América Latina.
É lá que Vilma trabalha há quase 18 anos. O trânsito a fez com que mudasse seu horário, optou por trabalhar à noite e de madrugada. “Eu não suportava mais ficar tanto parada num só lugar, as costas começaram a reclamar demais. Eu adoro essa cidade à noite, tudo é muito mais bonito”, diz ela, com vislumbre no olhar ao pensar nas luzes da cidade.
Doze foram os assaltos que ela sofreu, sendo que dois marcaram muito. Em um, se jogou do carro em movimento para não ser seqüestrada, onde acabou quebrando a perna. No outro, quase morreu de medo por ter sido obrigada a deitar num matagal molhado enquanto o assaltante vasculhava o seu táxi. “Posso suportar qualquer coisa nessa vida, menos a possibilidade de ter um sapo por perto”, lembra Vilma, sem deixar de surpreender nossa equipe de reportagem.
Célia Duarte é estudante de jornalismo da Universidadde Nove de Julho (UNINOVE) em São Paulo.
Tags: barra funda, mulheres trabalhadoras, são paulo, táxi POLÍTICA DE COMENTÁRIOS
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Vilma se recorda dos sapos de uma vida nada monótona. Hoje, com 67 anos, se diz guerreira e ri do passado
BRASIL – Vilma Rodrigues de Carvalho, única mulher entre três filhos, foi e é um grande orgulho para toda família. Casou-se muito jovem, aos 16 anos, e teve um casal de filhos. Aos 25 desquitou-se e voltou a morar com os pais – junto com os filhos – no bairro da Saúde, em São Paulo. Até então sempre trabalhara no comércio como vendedora. Era de ver que o contato com o público seria o seu forte.
Sempre foi muito falante, espontânea, tinha grande habilidade com as vendas, mas ela queria mais. Vilma sonhava em conduzir sua vida profissional da mesmo modo de seu pai. Foi então que “duas palavrinhas mágicas” fizeram com que ela definitivamente despertasse a coragem para seguir este caminho: queria liberdade, queria independência.
A profissão? Taxista. Começava a grande jornada da sua vida. A primeira atitude foi dividir com o pai o desejo de seguir a mesma carreira. Na época ela já tinha habilitação e carro. Faltava, na sua concepção, muito pouco. Bastava apenas apoio e algumas orientações paternas de como transformar seu carro de passeio em um veículo de praça. No mais, a vida se encarregaria de ensinar-lhe.
E foi com grande decepção que Vilma escutou um grande e sonoro não do seu grande ídolo. Mas, por mais que doessem aos seus ouvidos todas aquelas negações, ela não desistiria de seu sonho, não se esqueceria tão cedo de suas palavrinhas mágicas.
Estaria sob pena de ser insultada e discriminada por atuar numa profissão predominantemente masculina, temia também pela sua segurança, tinha medo de assaltos, sem falar que não poderia mais ser tão vaidosa, pelo menos no trabalho. Deixaria de usar suas meias finas e os seus saltos que tanto gostava. Porém, a sua maior agonia era o risco de perder toda a admiração que seu pai herói tinha por ela.
Alguns anos se passaram e o sonho de trabalhar na praça continuava intenso. Foi então que ela resolveu fazer uma nova investida: aos 36, foi buscar amparo no seu filho, na época um jovem rapaz. Mas ela recebe mais um não dolorido. “Mamãe esqueça essa história, a senhora sabe que o vovô não quer saber nem por sonho dessa possibilidade”.

“O senhor pode me dizer como eu devo proceder para mudar o meu carro de passeio para um carro de praça? É isso mesmo, quero montar um táxi. Sou eu que vou dirigir, vou ser uma taxista.”
A passagem de dez anos só fez com que Vilma fortalecesse seus convicções, nenhum ‘’não’’ iria mais impedi-la. Procurou a ajuda de estranhos, parou em um ponto de táxi no bairro e fez a mesma pergunta que fizera ao seu pai. “O senhor pode me dizer como eu devo proceder para mudar o meu carro de passeio para um carro de praça? É isso mesmo, quero montar um táxi. Sou eu que vou dirigir, vou ser uma taxista.”
Mesmo sem conseguir esconder a surpresa, o taxista foi prontamente solícito e indicou o caminho à Vilma. Tendo feito todos os cursos obrigatórios que a profissão requer e com toda documentação necessária em mãos, eis que chega o grande dia.
Seu carro de passeio, um Chevette, agora era um táxi. Para o sonho ser perfeito, faltava a aprovação de seu maior ídolo. Cheia de orgulho e emoção, ela chegou à frente de sua casa com o seu táxi e chamou pelo pai. Pediu para que ele fosse o primeiro passageiro. Depois de um grande sermão, o seu João não pôde conter a emoção ao abraçar Vilma. Disse o quanto era orgulhoso por ter uma filha tão corajosa e fiel aos seus ideais.
Liberdade e independência passaram a fazer parte da sua vida profissional. Começava ali uma nova etapa. Ela poderia administrar o seu tempo de acordo com as necessidades financeiras e estar mais próxima à família, sem a vigia de um patrão.
Não seria tudo um “mar de rosas”, confessa a Vilma, mas o prazer da realização de seu grande sonho estava sendo sentido na pele. Agora era verdade, Vilma era uma taxista.
Ultrapassando as barreiras do preconceito

Vilma teve de lidar com o preconceito implacável dos motoristas de táxi dos anos 70 e 80 para abrir caminhos
O começo de Vilma na praça foi “batendo lata”. O trabalho era árduo, o transito implacável. A discriminação falava alto, principalmente vinda do sexo oposto. Seu horário no início era das 6h às 18h. Treze anos se passaram e ela precisava ter um ponto fixo.
Em suas idas e vindas se deu conta de que uma mega construção que estava sendo erguida na Barra Funda. Curiosa e astuta tratou de fazer pequenas paradas no local. Ela não era bem vinda. Alguns taxistas, igualmente “curiosos”, tratavam-na mal e ameaçam furar os pneus de seu carro se ela insistisse em voltar.
Não demonstrava intimidação. Foi numa dessas paradas que acabou pegando como passageiro um engenheiro do complexo em construção que estava ainda em terraplanagem. Teve o prazer de conhecer durante o o percurso da corrida a maquete do que seria mais tarde o Memorial da América Latina, a Estação Barra Funda do Metro/Trem e o Terminal Rodoviário.
Mulher que nunca mandou recado, não pestanejou em ir seis vezes ao gabinete do diretor dos Transportes Públicos de São Paulo até conseguir das mãos dele uma concessão para um ponto fixo no Memorial da América Latina.
É lá que Vilma trabalha há quase 18 anos. O trânsito a fez com que mudasse seu horário, optou por trabalhar à noite e de madrugada. “Eu não suportava mais ficar tanto parada num só lugar, as costas começaram a reclamar demais. Eu adoro essa cidade à noite, tudo é muito mais bonito”, diz ela, com vislumbre no olhar ao pensar nas luzes da cidade.
Doze foram os assaltos que ela sofreu, sendo que dois marcaram muito. Em um, se jogou do carro em movimento para não ser seqüestrada, onde acabou quebrando a perna. No outro, quase morreu de medo por ter sido obrigada a deitar num matagal molhado enquanto o assaltante vasculhava o seu táxi. “Posso suportar qualquer coisa nessa vida, menos a possibilidade de ter um sapo por perto”, lembra Vilma, sem deixar de surpreender nossa equipe de reportagem.
Célia Duarte é estudante de jornalismo da Universidadde Nove de Julho (UNINOVE) em São Paulo.
POLÍTICA DE COMENTÁRIOS
- Colabore com a democracia e mantenha o bom nível do debate. Exerça a liberdade de expressão com responsabilidade.- Comentários sem identificação serão apagados. Prática de SPAM,ofensas, xingamentos, demonstrações de racismo ou intolerância religiosa, racial ou política também. O contraditório é garantido e ansiosamente aguardado, desde que ele seja bem usado.











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Há ainda mt preconceitos contra as mulheres, mas acho q ela é uma vencedora…
t+
passa lá no meu blog depois
Há pessoas que tem um epsírito guerreiro mesmo e isso me impressiona. Eu també sou assim. Corri atrás de tudo que quis e consegui e sei a dimensão da luta dessa mulher porque entre o seu momento e o seu objetivos existe o tempo e esse se encarregada com todo o empenho de te encher de porrada para ver até o onde vai o seu querer…
Bela história
Sempre descobrimos personagens interessantes por ai. Muita gente tem uma história legal e interessante. Parabéns ao O Patifúndio pelas matérias com que vocês nos brindam. É sempre muito bom abrir seu site e ler o que está escrito aqui. Parabéns, um abraço
Guilherme
Ela e um exemplo de que as mulhers tem se espaço!
Um exemplo pra mulheres de nossos dias.
Outro exemplo é de mulheres que predominaram em nosso quadro de medalhas nas Olimpíadas.
Mostram o seu valor.
Abraço!
Acesse:
http://www.radioadcampos.blogspot.com
E ainda hoje existem pessoas que, provavelmente, deixam de pegar o táxi por ser o motorista alguma mulher. Quebrar barreiras é o que pessoas com essa fazem
Olá,
num mundo carente de bons exemplos, conseguimos ver que ainda há esperança neste post.
A força característica do ser-humano está bem presente.
Parabéns pela reportagem.
Valorizar esse tipo de notícia é o que falta às pessoas.
Abraços,
Mensageiro.
http://www.mensagensaomundo.blogspot.com
Olá,
o Brasil realmente precisa de guerreiros assim.
Não são apenas os que vão as Olimpíadas.
Muitas pessoas do nosso cotidiano, com sua força de vontade, conseguem fazer coisas incríveis.
Símbolos de persistência.
Parabéns pelo blog!
Abraços,
Mensageiro.
http://www.mensagensaomundo.blogspot.com
São pessoas assim, que colaboram para um mundo melhor, disso não tenho dúvida!!!
As mulheres mostrando todo o seu valor……
Se ela for uma boa taxista deve ser legal passear com ela. Ela faz o que gosta.
É, ela é um exemplo.
belíssima história!
meu pai é taxista, sei como é uma profissão dura. ela é uam mulher de garra e coragem, parabéns dona Vilma