Um novo intelectual, no meio da sanzala
Mestre Tamoda representa, na visão de Uanhenga Xitu, a dificuldade de se inserir a língua “estudada” em meio à necessidade de se preservar raízes culturais e linguísticas
Antes da colonização Européia, os territórios que hoje compõem o continente africano, considerado pelos historiadores, arqueólogos etc., como o “Berço da Humanidade”, os povos desta parcela do planeta já detinham de certa organização em todas as esferas da vida sócio-produtiva (econômica, política, social e cultural), o que fazia deles povos bem organizados e estruturados, estabelecendo certas regras de convivência para uma melhor harmonia e cooperação de todos os elementos integrantes dos grupos desde a família, clã, aldeia, comuna, Vila ou Cidade.
Como qualquer povo, para que todos pudessem participar no desenvolvimento da vila ou da região em que se encontravam, os povos africanos tinham e continuam tendo a língua, que se resume num conjunto de códigos orais e escritos, que desempenhou e continua a desempenhar um papel importante na transmissão dos valores culturais de geração para geração permitindo assim uma maior interação entre os elementos de uma determinada área, ou território.
A história do “novo intelectual da sanzala” (sitio, povoação relativamente pequena) é retratada por Agostinho André Mendes de Carvalho ou simplesmente “Uanhenga Xitu” no seu consagrado livro “Mestre Tamoda” (1984). Uanhenga Xitu fez os estudos primários e secundários além do curso de enfermagem em Luanda, fazendo, também, estudos em Ciências Políticas na Alemanha. Em 1959 foi preso e foi na cadeia aconselhado por amigos de prisão como Antonio Cardoso e Antonio Jacinto que começou a escrever os seus contos tentando, assim, delinear uma literatura africana.
Nesta obra, o autor narra a dificuldade que certo homem, a quem chamou de Mestre Tamoda, encontrou na tentativa de se adaptar entre a cultura que recebera dos seus ancestrais e da cultura que aprendera dos seus patrões na casa onde trabalhava no momento da colonização Portuguesa em Angola.
Tamoda muito novo foi viver na cidade de Luanda, onde viveu muitos anos, trabalhava e estudava nas horas vagas com os filhos dos seus patrões e com os criados do vinho do patrão onde aprendeu a ler e a escrever certos bilhetes que já eram entendidos pelos outros.
Tivera vários empregos, o seu último foi na casa de um Doutor que vivia solteiro. Na ausência deste ele passava o tempo a decorar e a copiar os vocábulos do Dicionário os que lhe soavam muito bem.
Já na idade de se casar e, não agüentando, mas a vida da cidade entendeu voltar na sua aldeia natal. Nesta viagem, levou consigo alguns trajes (vestes) que adquiriu na cidade e nas casas por onde trabalhou livros incluindo dicionários antigos, passando a partir dali intitulando-se como um “Rei” na aldeia, pois, achava ser o a única pessoa que melhor falava o português em relação aos demais habitantes da mesma onde por sinal a maioria ou quase todos falavam a língua materna, o “Quimbundo”.
As palavras que saiam na boca do Tamoda deixavam assustadas e quase que se percebem nada o que dizia perante as pessoas da aldeia inclusive aqueles que tinham maior grau acadêmico em relação a ele, tal como se observa, “eu já trabalhei como criado do Doutor Desembargador, de generais e coronéis, de médicos de grande fama no Hospital Central de Luanda, contínuo de “eminêncio”, advogados, este fintilho, mequetrefe, basbaque, cavalgadura do cipaio, ximba de merda, kabujanganga, sundéifulo a pensar que sou da igualagem por quê?”… (XITU, 1984, p. 20).
Os populares da aldeia se questionavam sobre a sua procedência, por causa do português que falava e que começou a ensinar nas crianças da aldeia o que fez com que fosse intitulado de Mestre.
Como o dinheiro que trouxe da cidade, já lhe permitia pagar certas pessoas para o trabalho de campo, passou apenas a exercer a sua nova profissão que é a de ensinar o português literário as novas gerações onde conquistou muitos fãs e adeptos, principalmente os jovens. Mafula, sua namorada com quem mais tarde veio a se casar foi a pessoa que mais lhe aturou nessa sua nova carreira de se expressar com “putos caros” e em publico.
Passou a ser o homem de todas as consultas em termos de duvidas e de significação de certas palavras. A sua própria família não entendia o que ele dizia, chegando ao ponto de alguns afirmarem que certas palavras que vinham da sua boca eram asneiras ou disparato e que muitas delas ate no dicionário não continham.
Os ensinamentos de Mestre Tamoda aos seus discípulos começaram a criar muita confusão no seio dos moradores da aldeia ate mesmo na escola onde os jovens estudavam. Vale ressaltar que o português utilizado pela personagem era diferente da modalidade ensinada na escola, desse modo, muitos dos significados de certas palavras dados por ele não eram entendido por todos, razão pela qual fez surgir muitos vultos, intrigas, brigas entre os seus fãs, entre professores e alunos e entre os funcionários ate mesmos os chefes da aldeia.
Mestre Tamoda veio a falecer anos depois por causa da porrada que levou por ser acusado de causar intrigas e discórdia no seio da população por causa do seu português.
A partir deste conto, percebe-se que o contato entre culturas diferentes pode originar a perda de identidades lingüísticas e, conseqüentemente, das raízes culturais de determinados povos e ou grupos de povos.
Percebe-se, desse modo, que Tamoda fazia uso de um vocabulário estudado com o intuito de impressionar os seus ouvintes. Apesar de não agradar o público mais velho chamou a atenção da juventude e das crianças tornando-se bastante popular. Diante de tantas inovações como a criatividade lexical, começa a incomodar as pessoas que estão ao seu redor, Tamoda, na sua missão de ensinar o português as outras gerações, enfrentou muitas batalhas e dificuldades, pois, não usou políticas adequadas para tal, faltou-lhe a humildade.
Breve biografia
Uanhenga Xitu nasceu a 29 de Agosto de 1924, na sanzala de Calomboloca (Icolo e Bengo). Foi preso pela polícia política do governo português em 1959 e permaneceu no campo de concentração do Tarrafal de 1962 a 1970. Presentemente é membro do Comité Central do MPLA, tendo sido Comissário Provincial de Luanda e Ministro da Saúde. Foi Embaixador da República Popular de Angola na República Democrática Alemã. Foi na prisão que começou a escrever os seus contos.
Tags: ANGOLA, bantu, língua portuguesa, literatura africana, mestre tamoda, português em Angola, variação linguísticaPOLÍTICA DE COMENTÁRIOS
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É muito curioso: Li este artigo alguns minutos depois de rever a biografia de Uanhenga Xitu. Conheço algumas das suas obras, cheguei de ler algumas crónicas do Livro Ministro (escrito enquanto ministro da saúde. Admiro Uanhenga Xito principalmente pela seu carisma e disposição a favor da verdade. Como político é tido como a oposição dentro do seu partido. Como escritor é um dos mais polémicos da literatura Africana. “Luanda não é Mutamba a capital não é mutamba”, “Sou o Poeta de Kimbundo sem carne no cu” só para citar algumas das suas mais célebres citações.
Parabens Amigo Macongo, acertou “na mosca”.
Atenciosamente,
Custódio Fernando
Caro Macongo,
Os meus parabéns!
Estou de “Olhoatento” no teu excelente texto.
Um abraço
A par de António de Assís Júnior e Pepetela, Uanhenga Xitu faz a diferença so pelo “atrevimento” de escrever e publicar. Eu li Kahitu, Manana e o mestre Tamoda na minha adolescencia e devo sublinhar a ordem correta: os primeiros livros da minha vida: Manana e Kahitu, a partir daí não mais consegui parar de ler seguindo O Segredo da Morta de antónio de Assis Junior, as aventuras de Ngunga de Pepetela,tudo isso por mero acaso e hoje não mais consigo parar de ler entre Saramagos e outros… devo dizer OBRIGADO UANHENGA XITU por me despertar para a leitura porque ele mesmo diz: Não há livro, que por mais mau que seja, não tenha algo de bom!
Embora o nome de registo seja: Agostinho André Mendes de Carvalho, o escritor faz questao de afirmar publicamente que o nome, Uanhenga Xitu, nao é pseudoniomo mas seu nome verdadeiro, seu nome Kimbundu. Boa postagem meu caro amigo.
Namibiano Ferreira