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O quarto de despejo da cidade

por
michellniero@opatifundio.com
22 de February de 2010

A construção de grandes de sinuosas estradas urbanas em São Paulo não elimina as distâncias entre aqueles que são e estão na marginal

favela do sapo 300x177 O quarto de despejo da cidade

Protesto realizado pelos moradores da Favela do Sapo, em SP, após ação de desocupação encomendada pela prefeitura

Talvez tenha sido uma concidência infeliz o fato de que uma das maiores marcas do pretenso progresso paulistano, as chamadas marginais, tenham sido construídas justamente sob territórios antes ocupados por gente que até hoje não foi convidada para passear nesse palco desenvolvimentista. O próprio nome “marginal”, algo que está a margem, parece ter um duplo sentido incrivelmente infeliz.

De todas as favelas formadas no entorno do rio Tietê a partir do meio do século XX ainda sobram 19 ocupações nesse espaço, segundo dados recentes da prefeitura da cidade. Algumas delas, como a “Favela do Sapo”, por exemplo, passaram por um processo de “desocupação” em julho do ano passado por se tratar de uma “área de risco”.

Nem dá pra dizer que fica mal na foto, pois uma simples operação no Photoshop resolveria as pretensões de este ou aquele político, mas o fato é que a favela é, por si só, uma área sujeita a uma série de riscos. É como se fosse uma pedra instável, a ponto de ceder à gravidade. E eles estão lá, também, por conta de um despejo anterior, realizado pela sociedade economicamente ativa que, pela força da concentração de renda, marginalizam aqueles que não possuem serventia econômica ou política. Despejar alguém despejado soa mininamente sem sentido.

Nessas ações de despejo do Estado, paga-se uma indenização para o favelado deixar o local. Em outros casos até cedem um apartamento popular, uma pequena casa, mas fica por ai. Não se pensa, por exemplo, que pobreza no Brasil é um problema complexo, crônico, que não se cura com ações analgésicas, que servem apenas para aliviar os sintomas daqueles que se incomodam com “tamanha bagunça no meio da cidade”.

Já tive o desprazer de sentar ao lado de senhores que, no alto de um volante de automóvel, dizem. “Pra quê dar apartamento pra pobre se depois eles vendem e voltam pra favela?”. Esse pensamento capial, bem corrente, em São Paulo, poderia ser evitado ao se pensar na complexidade que envolve o processo de empobrecimento de uma população.

Basta pensar, por exemplo, que habitação é apenas um problema desse pobre, semi-analfabeta, incapaz de exercer atividades de baixa especialização com a “elegância discreta” pedida pela sociedade paulistana.  Morar na favela é, também, declarar-se incapaz de pagar água, luz, aluguel, impostos (IPTU), isso pra ficar no mais básico e elementar,   já que a renda mensal de um brasileiro abaixo da linha de pobreza mal banca a alimentação. Obviamente que dentro desse universo há aqueles oportunistas que utilizam a pobreza como muleta para obter vantagens, mas esse é um comportamento minoritário.

Na maioria das vezes, prevalece a lei natural da sobrevivência. Mais uma vez, abdicam da morada para garantir alimento por algum tempo. Por um outro prisma, lembro de um outro sujeito, que também no alto de seu volante, fala. “O prefeito dá casa pra esses pretos, eles vendem e gastam tudo em bebida e droga, tá certo isso?”.

Primeiramente, o fato de serem “pretos” é plenamente justificável ao fazer uma breve análise da história brasileira, jamais poderia ser colocado como causa a uma situação de pobreza. O uso de bebida e drogas são também indicíos de que a realidade de uma pessoa pobre não se modifica apenas com uma habitação.

Para este caso, deixo um diálogo presente o livro “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, que também serve para soldar a primeira e a segunda parte dessa matéria:

“Outro dia encontrei um soldado. Perguntou-me:

- Você ainda mora na favela?

- Porque?

- Porque vocês deixaram a rádio Patrulha em paz.

- É o dinheiro que não sobra para o aguardente.”

Relatos de Carol

Carolina Maria de Jesus é um daqueles nomes que, de tão comuns no Brasil, passam batidos. Não é como, por exemplo, Clarice Lispector. Ambas, no entanto, exerceram a mesma atividade em épocas semelhantes. Foram escritoras não suas devidas formas de ver e sentir o mundo, mas com reconhecimento inversamente proporcionais.

Negra, semi-analfabeta, moradora da favela do Canindé, Carolina foi descoberta pelo jornalista Aldálio Dantas em uma visita como repórter do jornal Folha da Noite (hoje Folha de SP). Ele foi deslocado para produzir uma reportagem sobre uma certa ocupação desordenada em constante crescimento em meados dos anos 50. Favela era novidade naquela São Paulo, e como tudo aquilo que é exótico e inusitado, estava próximo de virar matéria jornalística.

carolina de jesus e clarice lispector 300x250 O quarto de despejo da cidade

Clarice Lispector e Carolina de Jesus - aproximação entre as duas trouxe o interesse de outros intelectuais sobre a obra de Carolina

Por força da necessidade do jornalista, Carolina se tornou  oficialmente escritora , já que na cabeça de Dantas não haveria melhor repórter que ela para falar da favela do Canindé. Ela, que já há algum tempo, passara a manter um diário em um caderno encontrado após revirar um lixo, viu de uma hora para outra sua pretensão de ser escritora ser realizada. Parte desse seus dias de luta passou a ser publicado, em capítulos, em jornal.

O sucesso de Carolina foi imediato. Falar sobre os excluídos do pais era uma novidade que se tornava ainda mais quente quando quem falava era uma excluída de fato. Do jornal ela foi para as livrarias. Com o nome de “Quarto de Despejo”, seu livro vendeu quase 100 mil cópias numa época em que a primeira edição de uma obra quase nunca passava dos cinco mil exemplares vendidos.

A favela do Canindé foi uma daquelas ocupações que deram lugar à Marginal Tietê. Após cumprir o papel documental de retratar a vida dentro de uma favela, Carolina Maria de Jesus, como bem disse Adoninan Barbosa em música, saiu de moda pra virar Carolina novamente. E escrevo tudo isso enquanto vejo a minha cidade ser operada a favor de uma “nova Marginal”, que continuará inacessível a tantos “novos marginais”.

Como bem disse Carolina Maria de Jesus. “ A favela é o quarto de despejo de uma cidade”.

54449 O quarto de despejo da cidadeEm tempo: “Quarto de Despejo” é uma obras brasileiras de não-ficção fundamentais para se conhecer a fundo a dinâmica cultural num local onde a miséria é a espinhal dorsal de uma organização social. E o livro fica ainda mais essencial e rico ao perceber o linguajar utilizado, as construções da língua portuguesa tidas por muito como inadequadas, a irônica e acidez de Carolina que fez dela uma “maldita”, rejeitada tanto pela direita quanto pela esquerda brasileira. Sem dúvidas, trata-se de uma personagem da história recente do país que merece ser resgatada.

 O quarto de despejo da cidade

Michell Niero

é brasileiro, jornalista, especialista em Globalização e Cultura pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Em 2008 idealizou o projeto O Patifúndio! e o mantém até hoje, graças a sua segunda paixão, a lusofonia, e aos colaboradores, verdadeiros amigos espalhados em cada território onde a língua portuguesa é exercitada.

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3 comentários

  1. walter fernandes says:

    “A socidade marginaliza-os, mas não quer que sejam marginais” – Valete, Rapper Afro-Lusitano.

    As políticas e planos directores urbanístico devem ter por fim principal e orietador o equilibrio e a integração entre as suas gentes; o que passa necessriamete pelo acolhimento das diversas classes e realidades sociais, contempladas no mesmo meio social… Com oportunidades e serviços sociais prestados a todos, ainda que a níveis e qualidades diferentes entre si.

    Se for utopia tal equilibrio e integração, também o será a efectiva “marginalização” mecânica da sociedade.

    P.S.: Cá, em Angola, o fundamento para essa “marginalização” tem sido a inquestionável UTILIDADE PÚBLICA, em nome da qual se têm perpetrado desalojamentos desumanos que ficam por isso mesmo.

  2. Michell, infelizmente o poder público veja os olhos para as classes mais pobres e tenta esconde-las nas periferias, varrendo do centro da cidade o problema que eles não querem resolver. Abraço.

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