Fado, a alma de um povo
“O fado é um mistério. Nunca ninguém vai conseguir explicá-lo”. Amália Rodrigues fadista portuguesa
PORTUGAL – Sinto o nariz gelado, a brisa do Atlântico agasalha-me o rosto. As ondas emprenham as rochas do litoral. Em painel de fundo contempla-se Lisboa. Deambulamos pelas ruas que a vida nos fez caminhar. Presenciamos como a noite está a cair nos braços dessa velha cidade e como mostra o que o dia escondeu. Viajamos até aos bairros da Alfama, onde a alma portuguesa se pode sentir ao mesmo tempo que a sua forma mais perfeita de manifestar-se, o fado, torna-se reconhecível em cada esquina. Precisamente nas tabernas e nas casas de fado que se encontram anarquicamente pelas ruas, atrevemo-nos a entrar. A sonoridade utópica enfeitiça-nos para tal acto.
Shiuuuuuu. Silêncio que se vai cantar o fado!
Recaído sobre os seus ombros transluz um xaile, embora de cor negra embarga em si bordados de cores garridas. Um apagão faz-se notar, apenas o palcoestá em destaque. Por debaixo dos focos assistimos como uma mulher e os seus prantos acompanham o lhanto da guitarra portuguesa. A melodia começa a ganhar forma entre os dedos que percorrem as cordas e com ela os arrepios no meu corpo enxugam-me a alma. Escuta-se os gemidos da fadista e a guitarra a cantar. Voz translúcida, lamentosa, expressões que falam tudo e não dizem nada. Toques suaves sobre a guitarra, como se de algo divino se tratasse e que com o tocar pudesse destroçar, porém, entalam-se os suspiros, cala-se o peito e o som da guitarra salta, com reviravoltas e trampolins, com ondulações únicas, cambalhotas e remoinhos e aí.. aí surge o jogo de reciprocidade com a imponência, a que nos tem habituado, a guitarra portuguesa.
“Toda a poesia – e a canção é uma poesia ajudada – reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste. O fado, porém, não é alegre nem triste. É um episódio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando não existia e desejava tudo sem ter força para o desejar. As almas fortes atribuem tudo ao Destino; só os fracos confiam na vontade própria, porque ela não existe. O fado é o cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou. No fado os Deuses regressam legítimos e longínquos. É esse o segundo sentido da figura de El-Rei D. Sebastião”. Fernando Pessoa
A marca mais portuguesa de sempre…
O Fado, um estilo musical que passou por gerações e que através dos anos converteu-se no melhor expoente da angústia interna, da paixão amarga e da serena melancolia que habita na alma dos portugueses, é a perfeita comunhão íntima entre uma música e o seu lugar de origem.
Numa mistela de sentimentos arrojados, fado, é a forma que queremos transmitir através da música o que é ser português, ou na introdução da tradição, o que é a saudade.
Nele reside o povo português, uma estranha forma de vida, um simbolismo inato e por direito próprio, a expressão da alma portuguesa. Do latim fatum, que significa destino, um destino inexorável e fatal. A crença no destino como algo que nos subjuga e ao qual não podemos escapar.
Por isso o fado acarreta em si essas particularidades nos sentimentos, porque canta a parte do destino que foi contra os desejos do seu dono.Geralmente é cantado por uma só pessoa (fadista) e acompanhado por guitarra clássica (nos meios fadistas denominada viola) e guitarra portuguesa.
A origem…
Nasceu pequeno, num bairro ainda mais pequeno e quase logo à nascença grande se tornou. Não há certezas quanto à origem do fado, uns apontam para uma lenda, outros para a história de Portugal. Mas a explicação pode ser ainda mais surpreendente. Em Lisboa, alguns mouros permaneceram após a reconquista cristã nos bairros da Mouraria. Os cantos melancólicos dos árabes tornaram-se sonoridades bem típicas daquele bairro Lisboeta.
Outros géneros se lhes juntaram vindos de outros povos que permaneciam de alguma forma no território português. Os escravos trazidos das colónias africanas trouxeram outras musicalidades do Lundum e da modinha que permitiram numa junção de música, no mínimo, diferente.
Brota o fado e a guitarra portuguesa. Começou nas tabernas e cresceu nos pátios do bairro da Alfama junto ao Castelo S. Jorge, mais abaixo na Mouraria, no Bairro Alto, na Madragoa e foi rapidamente adorado pelo povo.
Tal foi a popularidade, que a alta burguesia começou a frequentar aqueles locais para o ouvir, trocando muitas vezes, o teatro para ouvir cantar o fado. Uns apontam que depois de esta mistura o fado foi cultivado no Brasil. Na sequencia das invasões francesas, a corte portuguesa refugiou-se no Brasil no inicio do século XIX. Assim sendo, o fado passou a integrar influências dos ritmos brasileiros.
Mas se a forma musical teve origem em vários povos, o conteúdo, esse é bem português. No fado canta-se o melhor da poesia portuguesa. Ouvindo as palavras de cada fado pode sentir-se a presença do mar, a vida dos marinheiros e pescadores, as ruelas e becos de Lisboa, as despedidas, o infortúnio e a saudade.
É a expressão de uma alma colectiva, feita da alma de cada um…
Vanessa Mota é portuguesa, formou-se em jornalismo cumprindo parte do curso no Brasil, por meio de um programa de mobilidade.
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Vanessa, e tão maravilhoso quanto um fado é ler um texto com esse vocabulário tipicamente lusitano tão rico e delicioso de saborear.
Ainda vou a Portugal ter essa experiência in loco.
Beijos!
que saudades de Alfama!