Já estou morto (justiça por mãos próprias)
Uma cena cotidiana de um quinhão angolano onde não haviam olhos, nem dentes a serem compensados
Nota ao leitor: a história contada abaixo foi baseada em fatos reais ocorridos na Vila de Cacuso, a 100 Km da capital da provincia de Malanje, em Angola
Durante mais de cinco anos fui o compadre, o amigo da casa, “o tio” dos meninos. Durante mais de cinco anos, foi eu quem sempre esteve junto a esta família dando o meu apoio moral, psicológico e muitas vezes financeiro. Foi meia década de muitas alegrias transmitidas e tristezas partilhadas, enfim cinco anos comendo e bebendo do fruto da nossa amizade.
Esta situação parecia ser o mais belo exemplo de amizade de uma pessoa para com toda uma família… até hoje. Hoje descobri que amizade só não basta e que não é errado pensar que quem vê caras não vê corações. Tudo começou de manhã cedo quando recebi a ligação telefónica do chefe da família que pretendia saber se eu já estava partindo para o trabalho afim de que como de costume o pudesse dar uma boleia (carona no português brasileiro), afinal, costumava ser assim durante os últimos anos desde que comprei o meu primeiro carro (por que andar cem quilómetros sozinho, se posso ter a honra de partilhar longas conversas acompanhado com o meu compadre?).
Embora tivesse já percorrido alguns quilómetros do percurso, decidi voltar e apanhar o meu compadre. Olhei para o relógio, estava atrasado cerca de vinte minutos, mais podia ser compensado com mais condução e menos conversa durante a viagem. Reduzi a velocidade, manobrei o carro e fui ao encontro do compadre em sua casa. Ao se aproximar de casa, a velocidade que eu levava diminuía paulatinamente até que de repente um objecto me aparece em frente! Eu de imediato travei o carro, mas o objecto que também vinha em alta velocidade não teve tempo de parar a ponto de evitar o embate. Foi inevitável! Era o mais novo filho do casal, o meu afilhado que como de hábito vinha ao meu encontro (só que desta vez não esperou que eu estabilizasse o carro).
O susto foi muito grande que fiquei alguns segundos a tentar perceber o que realmente estava a acontecer. E quando decidi sair do carro a fim de socorrer o menino, senti que algo forte e pesado na minha cabeça. Fiquei sem forças e cai ao chão. Fui atacado por um dos membros da família que aos gritos informava que eu havia atropelado o cassule (1).
Daí em diante todos me chamavam de assassino, um deles partiu-me as pernas e outros lançavam contra mim pedras e qualquer outro objecto pontiagudo. Meu sangue escorria pelo chão, meus pés e braços não mais conseguiam se movimentar só meus olhos entreabertos viam tudo. Fui rodeado por todos da família e por alguns vizinhos principalmente daqueles que sempre ajudei. Não tive tempo de reagir aos ataques, mas tive tempo para descobrir que não era verdadeira a simpatia que demonstravam por mim e que se ainda tivesse alguma oportunidade nunca mais voltaria a pisar nestas casas.
Mas não tive. Assim como não me deram a chance de socorrer o menino, não me deram também a chance de morrer de remorso mais tarde. Eles mutilaram não só os meus membros mas a minha vida antes que isso acontecesse. Vejo um homem com uma faca em mãos, é o irmão mais velho da comadre, chegou perto do meu corpo, pegou-me pelo pescoço, acendeu os seus olhos, levantou a mão o mais alto que pode e escolheu meu lado esquerdo para esfaquear em três golpes. Mas ele não sabe de uma coisa. Já estou morto.
1) Cassule – Último filho, também conhecido por cassula em muitos países.
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Custódio: é angolano, natural de Malanje. É jornalista, radialista e escritor |
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Simplesmente complexo, – compreender as razões/sentimentos humanos e suas motivações. A realidade supera a ficção.
Estou morto.
Estive em Angola.
Estou vivo.
Sou infinito.
Vivo não é figurado.
Não tenho materia temporariamente
mas sou infinito.