A flor do caos
Em meio à barbaridade paulistana, uma senhorinha calejada e frágil, transtornada pelo desespero urbano que aprendeu a sentir
Encravada na confluência de sistemas climáticos do Pacífico e do Atlântico, a cidade de São Paulo já não se ressente, apenas se rende diante da umidade relativa do ar. O ar também está cada vez menos insosso e a locomoção entre regiões próximas cada vez mais difícil. Fortes pancadas de chuva durante o dia 3 dezembro, por exemplo, travaram a cidade entre congestionamentos, regiões alagadas, calçadas instransitáveis e estações de trem paralisadas.
No que diz respeito aos trens, um fato interessante de ser contado ocorreu na estação da Lapa. A chuva, nem um pouco maneira, transformou a volta do paulistano pra casa em transtorno. Um imenso conglomerado de pessoas se formou em torno das catracas que dão acesso as plataformas, já que as atividades da estação foram temporariamente interrompidas. Para piorar a situação, o sistema responsável por validar os bilhetes de embarque também sofreu uma pane.
Preferi me posicionar ao lado da multidão, e esperei ali até que a situação se normalizasse. Escolha acertada, já que pude observar neste tempo de espera um pouco dos humores e temperamentos que formam o comportamento da cidade nesses tempos de grande confusão.
O porteiro
Ao lado da portinhola que dá acesso gratuito a aposentados, deficientes e funcionários públicos fica um funcionário da companhia de trens destinado a atender todos aqueles que, mesmo não tendo a velhice , a dificuldade de locomoção ou os privilégios requeridos, buscam a gratuidade para se deslocar pela cidade. Jovem, de gogó saliente, óculos de hastes finas e corpo esguio, ele, na sua palide de apartamento checava cada documento apresentado para decidir ou não pela abertura da portinha. Eu estava justamente colado à parede lateral dessa passagem.
Um dos casos mais emblemáticos da tarde envolveu uma família de três mulheres. Uma delas, gorda e aparentemente responsável pela garota mais jovem, emergiu da multidão com um grito de “vai tomar no cu, caralho”, em um suposto desabafo ou perda de paciência declarada. O mundaréu de gente automaticamente respondeu a ela com gritos e vaias. Ela retrucou pulando e batendo palmas, excitada com o estrelato momentâneo.
Ela mais as duas mulheres foram em direção ao rapaz palido pedindo, com certa emergência e descuido aos bons modos, a passagem pela portinhola. O problema é que elas tinham o bilhete mas pela circunstância do sistema com problemas não poderiam passar. Insistiu até onde foi possível, e num dado momento, após uma consulta a sua chefia, elas puderam entrar.
Não que isso resolvesse alguma coisa. Lá dentro o caos era completo, com cada vez mais pessoas saindo dos trens, retidas, sem poder nem ir nem voltar. Mas o desejo das moças estava realizado.
Enfim, a flor
Enquanto prestava atenção em alguns homens troncudos e sadios gritando educadamente“libera essa porra” em meio à multidão, uma senhorinha realmente velha, já na casa dos 80, de pele cabocla, atarracada e arqueada pelo tempo se aproximou de mim. Ela arrastava um carrinho de feira com latinhas vazias e um cobertor surrado. A gritaria me impedia de entender a voz relutante da senhora. A bem da verdade é que nem no silêncio mais sepulcral lhe entenderia por palavras faladas.
Claramente, seja por doença ou velhice, as cordas vocais dela já não emitiam qualquer tipo de fonema. Nos olhos, apenas a claridade opaca de uma catarata em estágio avançado que lhe impedia de enxergar a aproximação do rapaz da portinhola:
- A senhora trouxe o carrinho hoje? Não quer esperar mais um pouquinho ai fora? As pessoas vão pisotear a senhora lá dentro, é melhor esperar.
O rapaz, agora acompanhado por uma garota morena, igualmente educada, continuava a seleção daqueles interessados em viajar sem pagar passagem. Um deles, inclusive, um homem de meia idade, moreno jambo, tênis esporte e camisa. Pressionou que nem pão de ló até que conseguiu entrar. Eu ali, ao lado da senhorinha. Olhava pra ela, tentava me comunicar, e para toda pergunta que fazia ela mostrava sua medalhinha de santo. Simultaneamente, juntava as mãos como se estivesse clamando por piedade.
Então começei a conversar, mesmo que não houvesse reciprocidade naquela comunicação. De certa forma, me senti confortável junto a ela, espectadores do caos chuvoso. Disse “esse pessoal não tem respeito por ninguém, né?”. Ela então fez um movimento com as mãos simulando um soco. Deu pra entender considerando o comportamento geral daquela multidão.
Os funcionários da estação elaboraram um plano de emergência para escoar o mundaréu de gente que, com cada vez menos paciência, se aglomerava em frente das catracas. Passaram a receber manualmente os bilhetes, como antigamente, e assim aos poucos as pessoas se organizaram em uma espécie de fila. A senhorinha estava impaciente. A cada funcionário que se aproximava ela fazia aquele mesmo gesto de piedade e mostrava sua medalhinha de santo. “A senhora não quer esperar mais um pouquinho? Daqui a pouco as coisas ficam mais tranquilas, tá bom?”, disse a menina, em tom maternal, com uniforme da companhia.
Eu também passei a tranquilizá-la, meio que num gesto instintivo, talvez um resto de humanidade que, por bem, cada um de nós ainda preservamos nessa vida urbana e egoísta que a gente paga pra manter. Repetia o conselho da menina, reforçava que o pessoal ali reunido não respeitava ninguém e ela apenas me olhava para depois fazer aquele gesto imitando um soco.
Depois disso tive que encarar a fila da bilheteria para ir embora. Deixei a senhorinha ali, mas não sem antes de dizer um “deus te abençõe”. É estranho mas eu, que continuo ateu, não me arrependo de ter dito isso.
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De todos os textos que já li no Dihitt (e deixo claro que não foram poucos), sem dúvida, foi o que mais gostei. Não creio que seja exagero afirmar que ele leva a uma série de reflexões, talvez com respostas que sejam capazes de mudar as atitudes de toda uma vida. Seu texto é agradável, emocionante e muito bem escrito. Parabéns pelo artigo, pelo blog, e, principalmente, pela sua sensibilidade.
Um abraço!
Excelente!
Um escriba extraordinário, de caneta contemplativa, diversificada e muito sensivel à natural reportagem social. Parabéns.
Olá!!
Você escreve muito bem e sua leitura me prendeu do começo ao final, mas confesso que achei que teria um outro final, não que um Deus lhe abençoe não fosse importante, mas estava tão agradável que já fiquei aqui torcendo pra que outras coisas acontecessem, principalmente com a velhinha.
Gostei do seu blog
bjs
Joicinha