Aniversário por pedras e areia
Mas como o “mal” estava feito, a mãe viu-se na obrigação de dar uma explicação “pública” para justificar o porquê de trocar a festa de aniversário da menina por pedras e areia
Já de volta, e como de hábito por estas paragens, estava eu a suportar uma longa fila de banco (quase que iguais as que suporto no Brasil, só que sem sombra para me proteger e linhas para demarcar o labirinto que os clientes tem que seguir) ignorei o cansaço, ainda recebi a informação da vitória do Palmeiras, time pelo qual me encantei (acho que pela cor da camisola, afinal, eu também joguei com um equipamento semelhante no clube da Rádio Nacional de Angola em Malanje). Mas não foi a informação da vitória do Palmeiras que vou falar, nem da equipa de futsal em que militei enquanto trabalhador da Rádio Malanje.
Acontece que enquanto tentava digerir a nova etapa, enquanto tentava me consolar que não existia um labirinto para seguir a fila, enquanto tentava arrumar um encosto para melhor escrever e claro, enquanto tentava fugir do sol abrasador de Luanda, chegou mais um participante para a fila, na verdade não é bem uma fila com que muitos leitores estão habituados; quando as pessoas chegam no local, um dos guardas oferece uma lista onde as pessoas escrevem o nome e depois esperam pela chamada (modernismo ou criatividade?), como dizia (ou escrevia?), surgiu no momento mais um participante que contrariamente a maior parte de nós, tinha uma particularidade que não passava dos olhos de todos quantos estavam na “fila” da dependência do banco. O tal participante era uma senhora nos seus vinte e poucos ou trinta anos acompanhada de uma criança, de mais ou menos quatro ou cinco anos, que a chamava de mãe. Juntando A mais B deu para notar que se tratavam de mãe e filha.
O sol se firmava mais ainda, o calor de Luanda realmente incomodava, mas a criança que acabara de chegar aos poucos foi chamando atenção dos adultos, tanto que conseguiu arrumar um “amigo” que lhe ofereceu diversão ao lhe perguntar a idade dela e da boneca que trazia em mãos. Mas como qualquer amizade, houve uma conquista. Já dentro da dependência, o novo amigo sentou-se numa das cadeiras que acabou ficando vaga depois que a pessoa que a utilizava levantou-se. A reacção do amigo não passou despercebido à menina, tanto que simultaneamente informou: – “Essa cadeira é daquele moço!” Ao que o “usurpador” replicou amigavelmente à dócil menina: – “Não é não! Esta cadeira é do público.”
- Quem é o público? – Questionou baralhada a menina.
- Público é qualquer pessoa.
E assim continuou o diálogo. Lembro que segredaram nos ouvidos sobre mim. De que eles falaram não me lembro; o que não consigo esquecer é quando o amigo perguntou a menina quantos anos ela tinha. Depois de ter respondido, a coqueluche da fila acrescentou mais uma informação que deixou a mãe perplexa e envergonhada: – Esse ano, nós não demos festa! – Não? Perguntou o amigo, como que querendo obter mais informações sobre o assunto. – Não demos festa (de aniversário). Não compramos nada mesmo. Só compramos pedra e areia. – Acrescentou a realista menina em alto e bom som, o que causou uma enorme gargalhada dos presentes ao mesmo tempo que nos deixou sem graça, afinal este é um assunto que deixou a mãe visivelmente envergonhada.
Passou o sorriso porque tivemos que nos conter para não piorar a questão. Mas como o “mal” estava feito, a mãe viu-se na obrigação de dar uma explicação “pública” para justificar o porquê de trocar a festa de aniversário da menina por pedras e areia.
– Não demos festa porque estávamos construindo a nossa casa – Estava explicado, pelo menos para nós os adultos.
Não era sensato gastar o pouco dinheiro para a realização da casa própria com a realização do desejo de ter uma festa de anos. Contudo valeu a sinceridade da menina o que me fez lembrar do velho adágio: “Se os jovens tivessem a experiência dos velhos e os velhos a força dos jovens, o mundo seria perfeito.” Concordo mas também acrescento outro: Se todos tivéssemos a sinceridade das crianças, se não perdêssemos a força na velhice e se ganhássemos experiências enquanto jovens, o mundo seria maravilhosamente perfeito.
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Custódio: é angolano, natural de Malanje. É jornalista, radialista e escritor |








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