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LITERATURA NA LUSOFONIA» PORTUGAL

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se”

por
acp-anacris_pires@hotmail.com
27 de September de 2009

pessoa 300x177 Primeiro estranha se, depois entranha se

estátua de Fernando Pessoa da autoria de Lagoa Henriques exposta em frente ao café A Brasileira que se situa no Chiado, em Lisboa

Para falar daquele que é considerado por muitos o expoente máximo da literatura portuguesa do século XX, nada mais lógico que utilizar palavras do próprio para defini-lo. Fernando Pessoa escreveu esta frase – que data de 1927 e que foi o primeiro slogan criado para a Coca-Cola em Portugal – e hoje utilizo-a para tentar descrever um pouco do que algumas pessoas, como eu, sentem quando começam a conhecer a obra desta figura mítica da literatura portuguesa.

Pessoa não era um, era muitos num só, todos ao mesmo tempo. O poeta não se limitou a escrever poemas, ele imprimiu nos seus textos as marcas das suas várias personalidades e deu a cada uma delas um nome, uma história, uma colectânea de escritos que solidificavam quem estes seres imaginários eram e aquilo que defendiam.

Passemos às apresentações…

Fernando Pessoa, enquanto ele mesmo, teve várias fases tendo sido influenciado por diversos aspectos, diz-se que Pessoa era Maçom e que o facto de o ser teria despertado no poeta o seu lado místico. Mensagem, que foi a sua única obra publicada em vida, evocava uma busca pelo patriotismo perdido por meio de uma interpretação épica da História de Portugal que estava carregada de misticismo.

Através de Alberto Caieiro conhecemos o bucólico com uma linguagem simples, quase infantil, ao mesmo tempo que complexa no patamar reflexivo. Para Caieiro – que era considerado o Mestre, até mesmo do ortónimo – aquilo que podemos sentir é mais importante do que aquilo que pensamos, por suas palavras aquilo que o caracterizava resume-se a isto: “pensar é estar doente dos olhos”.

Com Ricardo Reis o neoclassicismo impõe-se, a escrita torna-se elaborada. Reis invoca a Grécia antiga, proclama-se neo-pagão, busca incessantemente o epicurismo e o estoicismo apegando-se ao lema horaciano “carpe diem”, pois a angústia que a brevidade da vida lhe proporciona o impede de viver de outra forma.

Já Álvaro de Campos, conhecido como o filho indisciplinado das sensações, explode em dor e desespero, cai no imundo do que é o citadino e se levanta ao som das máquinas industriais. Campos traz consigo o futurismo e a reflexão sobre o absurdo da vida. A sua escrita é caótica, assimétrica, agressiva e imaginativa.

Iniciei afirmando que utilizaria a frase escrita por Pessoa – “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” – para descrevê-lo e depois de sucintamente apresentar Fernando Pessoa (ortónimo) e três dos seus mais conhecidos heterónimos, tenho a dizer que para mim o poeta é a verdadeira personificação do slogan que criou. Admito que quando o conheci estranhei a sua invulgar desfragmentação que vai além de fases e de onde nascem poetas de um poeta, mas a sua multiplicidade entranhou-se de tal forma que hoje é impossível para mim escapar à sua influência.

Termino com a que acreditam ter sido a última frase escrita pelo poeta: “I know not what tomorrow will bring…”.

Pois é Fernando… Nem tu, nem eu.

Acrescento, para os interessados, uma curiosidade entre outras várias que podem ser encontradas na Internet sobre Fernando Pessoa:

“Ofélia Queiroz, sua namorada, criou um heterónimo para Fernando Pessoa: Ferdinand Personne. “Ferdinand” é o equivalente a “Fernando” em alguns idiomas e “Personne” significa “ninguém” em francês, residindo a curiosidade deste trocadilho no fato de Fernando, por criar outras personalidades, não ter um eu definido.”

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4 comentários

  1. Parabéns pelo Pst.
    Paz. Sempre, Paz.

  2. Sou fã dos textos do poeta. Tenho alguns poemas que servem de inspiração para diversos momentos.

    Abraço

    Rogerio Martins

  3. Sem dúvida, o maior português do século XX!!

    É um orgulho para mim poder dar os Parabéns à Ana pelo excelente artigo!!

    Espero que continues a mostrar aquilo que vales, falando-nos de “Pessoa(s) assim!

    Um beijo*

  4. Mau says:

    Sem dúvida o maior escritor português ao lado de Camões. Mas na minha opinião o maior da língua portuguesa é o brasileiro Machado de Assis.

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