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Primórdios da literatura angolana

por
fchocolate@hotmail.com
15 de September de 2009

Foi justamente por meio da palavra que a realidade angolana começou a ser redesenhada

escritores angolanos 300x177 Primórdios da literatura angolana

Na parte superior, Ruy Carvalho, Agostinho Neto e Uanhenga Xitu; na parte inferior, Adriano Botelho de Vasconcelos, Ana Paula Tavares e Pepetela

A Literatura é entendida  como a arte de criar e recriar textos; de compor ou estudar escritos artísticos; o exercício da eloquência e da poesia; o conjunto de produções literárias de um país ou de uma época e ainda, como a carreira das letras pois, do latim “litterae”  significa “letras”.

Neste artigo, apresentamos a literatura, como sendo o retrato da atividade  humana, gerada pelas manifestações sócio-culturais de uma população em um determinado tempo e espaço social, através da utilização da linguagem, da língua e da escrita para fins não somente de comunicação, mas também estéticos, culturais e sobretudo, para a transmissão e conservação do legado cultural.

O contato com a literatura de um povo, permite conhecer e ou reconhecer o passado, o presente e, por meio dela, pode se fazer uma antevisão do futuro de uma determinada região ou povo, sem contudo, cair em preposições definitivas.

O passado e o presente de angola estão repletos de história, umas boas e outras, “sabe Deus”. Todavia, apesar da imposição feita pelo colonialista e da negação da cultura africana em detrimento à do colonizador, a repreensão de qualquer forma de manifestação pela língua nativa, o povo angolano soube sempre de uma ou outra forma preservar os seus usos e costumes procurando desse modo não perder totalmente a sua identidade cultural.

Isso, de alguma forma, contribui no surgimento da literatura angolana, presente no primeiro momento sob a oralidade (palavra) em detrimento da escrita, pois, o conhecimento do presente e do passado, do visível e do invisível, da vida e da morte era passada de geração para geração por intermédio da palavra. Com isso, a palavra torna-se um signo capaz, não só de condensar as dicotomias oriundas do conflito entre colonizador e colonizado, mas também numa tentativa de resolvê-las.

Da mesma forma que os colonizadores empregaram a palavra e a sua língua para transmitir as suas verdades. Foi justamente por meio da palavra que a realidade angolana começou a ser redesenhada. A língua portuguesa que, ao ser empregada pelos colonizadores, foi instrumento de dominação, transformou-se em instrumento de luta e de libertação ao ser empregada pelos colonizados.

A literatura em Angola nasceu antes do país 1975 (ano da conquista da independência em Angola), a escrita angolana se construiu a partir da negação contra o complexo sistema de contradições da sociedade colonizada.

“A mesma é marcada fundamentalmente por três influências: a do neo-realismo português, cujo apogeu se situa nos anos 40; o movimento negritude de Léopold Senghor na África de expressão francesa que impressionou diversos grupos da Casa dos Estudantes do Império que vivia em Lisboa nos anos 50, e o grupo intelectual que se formou, a partir de 1948, em torno do poeta Viriato da Cruz; e o movimento modernista brasileiro, calcadas nos modelos ocidentais, seguindo as regras da literatura oral ou fazendo uma literatura militante que serviu de traço de união entre os diferentes movimentos pela independência da colônia, os escritores angolanos procuram impor sua forma de expressão”. (WWW. Grande Enciclopédia Larousse Cultural.com acessado em 11/09/2009)

Com isso, a literatura de Angola traz em muitos dos seus escritos e principalmente pela palavra, muito realismo e imagens do preconceito da dor causada pelos castigos corporais, do sofrimento pela morte dos entes queridos, e da exclusão social que o povo angolano passou durante o período colonial. Na atualidade, acrescenta-se a isso, às quase três décadas de guerra civil a qual o país esteve mergulhado logo após a conquista da independência que tornou a área da literatura “quase que paralisada” e com poucas publicações no nível da escrita. As poucas que existem, foram um esforço tremendo dos seus autores, pois a condição as quais o país estava mergulhado impossibilitou o funcionamento de muitos setores da indústria nacional.

Na escrita, essa realidade é muita das vezes coberta pela beleza que normalmente nos passam as grandes obras artísticas dos expoentes da literatura angolana. Essa era uma forma que os angolanos mostravam que estavam adaptados aos valores da cultura e da civilização, sendo capazes de agir de uma forma mais civilizada e coerente com os valores sociais que era dos próprios colonizadores. Se escrever e publicar não poderia, com efeito, receber o tratamento desumanizador que a voz colonial preconizava.

Apesar disso, observa-se, porém, que a descrição da realidade social e a contestação do colonialismo aparecem predominantemente nas obras de romancistas como, Mário Antônio (Crônica de uma cidade estranha, 1964); Arnaldo Santos (Quinaxixe, 1965) e Santo Lima (As sementes da liberdade, 1965), enquanto poetas como Antonio Cardoso e Agostinho Neto (Coletânea de Poemas, 1961), fortemente marcados pelo surrealismo, tentam comunicar sua inquietação por intermédio da língua portuguesa tal como ela se desenvolve na África. Importa salientar que muitas dessas obras foram escritas ainda na época colonial, mas a sua publicação só ocorreu muito depois. (WWW. Grande Enciclopédia Larousse Cultural.com. acessado em 11/09/2009).

A literária desempenhou em Angola um importante papel na superação do estatuto de colônia. Presente nas expedições libertadoras foi responsável por refletir o grito de liberdade de uma nação por muito tempo emudecido, mas nunca perdido. “O angolano vive por algum tempo entre duas realidades: a sociedade colonial européia e a sociedade africana; os seus escritos são, por isso, os resultados dessa tensão existente entre os dois mundos, um com escritos da nascente da realidade dialética, o outro com traços de rotura. Assim, com essa conturbada duplicidade, o escritor africano, à medida que vai conscientizando, vai recorrendo aos seus ancestrais, à infância, em busca do eu, da sua geração, de maneira harmoniosa, na pátria mãe, Angola – África.” (Isabelita Maria Crosariol. Jornal de Angola, 21 de Setembro de 2008. Acessado em 13/09/09)

Na história literária angolana, raramente se detectam referências ao ensaio, enquanto género literário. Alfredo Margarido diz: “os ensaístas também não são numerosos ou então encontram-se sobretudo no terreno político”. No entanto, deve-se fazer sobressair os nomes e as obras de Carlos Ervedosa, autor da única história da literatura angolana, Mário de Andrade, cujas análises da literatura angolana e principalmente da poesia são indispensáveis ao conhecimento do processo literário angolano, Costa Andrade, cujos poucos trabalhos sobre a cultura angolana mostram grande profundidade, Viriato da Cruz que, ao lado do ensaio político, analisa as condições da criação angolana, Mário António que, depois dum trabalho sobre o poeta e filólogo Cordeiro da Matta, continua a estudar a literatura angolana, bem como as estruturas histórico-sociais de Angola.

Nesta lista, ainda se destacam nomes de renomados escritores angolanos tais como : António Cardoso; António Jacinto; Luandini Viera, Adriano Botelho de Vasconcelos, Óscar Ribas, Ana Paula Tavares, Ruy Duarte de Carvalho, os renomados: Pepetela. (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos); Uanhenga Xitu ( Agostinho André Mendes de Carvalho) e tantos outros.

 Primórdios da literatura angolana

Francisco Macongo

é angolano, mora no Brasil e é mestrando em Psicopedagogia na UNIFIEO, em Osasco, cidade da região metropolitana de São Paulo.

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7 comentários

  1. Walter Fernandes says:

    Excelente, o seu artigo!
    E hoje? Como está a moderna literatura angolana?
    Parece-me que continua na “letargia” que se seguiu ao periódo pós-independência; e os poucos desvios àquela “inercia” configuram, salvo raríssimas excepções, abordagens muito generalístas, escapístas e ambíguas (algumas vezes)daquela que é a nossa realidade e que são as nossas aspirações. Motivadas ou por um endocolonialísmo comprometedor que nos tira a legitimidade de sermos objectivamente intelectuais e honestos e se assume tão ou mais temeroso que as experiências do gênero ou por receios e incertezas quanto aos destinos desta nação…

    Espero não ter-me desviado muito da abordagem em questão: tomei a literatura como movimento/instrumento de diagnóstico, intervenção e alteração/interaçaõ de realidades pré-existentes…

  2. Olá,
    Achei muito interessante o que você escreveu. Ando me interessando muito por este assunto. Estou escrevendo um roteiro de um filme a cerca de um Angolano no Brasil. Eu queria pedir que voce entrasse em contato para que possamos conversar sobre o assunto. Queria conhecer mais pessoas Angolanos que vivem no Brasil para conseguir escrever um roteiro muito bom.

    meu email é leoneumann@gmail.com

    abrs

  3. Zenilda says:

    Gostei muito do artigo , em temas de Anola na net ñ tem nada este attigo vai ser de muita ajuda n escola.

  4. daniela says:

    isso ajudou muito no meu trabalho sobre literatura angolana dpois de tantos sites que perdi tempo

  5. nanililia dias says:

    Lamento que se tenha esquecido do escritor Manuel Rui. Autor de uma vasta obra literária, autor do hino Nacional do seu País, entre outros Hinos,( preso pela P.I.D.E. durante o fascismo)vencedor do Prémio Sagrada Esperança com a obra Quem me dera ser onda…não pode nem deve!!!

  6. Isabel Pumba says:

    Gostei bastante e espero que continuem à escrever pois desejo que belas cores pitem as vossas vidas e os braços do altissimo vos conduzam com calma

  7. Jose da Piedade says:

    Achei muito interessante este artigo.

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