Ditadura?
É possivel que todos nós sejamos ditadores, uns mais que outros sendo que ela se torna tanto mais grave quanto mais velhos vamos ficando

ilustração da chamada Mocidade Portuguesa, organização juvenil do Estado Novo português que pregava ideais fascistas
Vivi oficialmente em duas ditaduras por dois anos, a de criança dona do meu mundo e a do Dr. Caetano que substituiu aquele verme de nome Oliveira Salazar, que caiu da cadeira e morreu pouco depois, deixando uma herança que muitos fascistas se vão aproveitando para fazer reviver. Como homem de bem fugiu de Portugal morrendo no Brasil em 1980.
O que mais incomoda na herança cultural deixada por esses seres abjectos que cada vez mais cabeças pensantes insistem em tratar como ícone de uma sociedade perdida em sucessivos ataques a uma democracia povoada por gente que apenas se preocupa em encher os bolsos à custa de quem faz o país andar.
Como vem num artigo da Fundação do homem outrora chamado Salazar, em que ele fala não gostar da sua vida:
«- Não é absurda a vida que eu levo? Dizem que não gosto da vida. A realidade é outra: eu não gosto da minha vida. Julga que não sou sensível às alegrias simples que são permitidas aos outros? Julga que eu não gostaria de ter criado um lar? Que não desejaria dormir sem preocupações, livre das mil coisas mesquinhas que são o preço de toda a obra governativa, quando se lhe fica sujeito durante dezenas de anos»
fonte:
(http://www.geocities.com/CapitolHill/Lobby/6559/perfil8.html)
O problema é que o Tarrafal (campo de concentração para portugueses malvados em Cabo verde), a PIDE e a guerra colonial são algumas das memórias que me acompanham agora que me ponho a falar dessa herança cultural.
Claro que a memória é curta e os heróis que saíram dessa época mesquinha ou já morreram ou cada vez menos os conhecem. Outros aburguesaram-se e como verdadeiros velhos do Restelo apregoam que os males desta sociedade são culpa dos ‘chulos’ que vendem Portugal aos espanhóis ou a quem o queira comprar, enquanto enchem as classes desmedidas de impostos por tudo e por nada.
Enquanto isso e apesar de me sentir a perder liberdade de dia para dia, algo de muito importante se passou, apesar de mal digerido e sem sangue.
«E depois do adeus» cantado por Paulo de Carvalho serviu como senha para a revolução dos cravos, num 25 de Abril (o de 1974) que tende a ser ostracizado pelo crescente capitalismo selvagem de que o país onde nasci é bom (mau, terrível) exemplo. Uma série de anos depois, essa senha deverá ser conhecida pelo bando de poetas à solta, pelos vanguardistas da cultura e pouco mais, que urge roubar e tapar os olhos ao povo que é sempre a maioria.
A democracia, para mim que não conheço outro regime, permite-me escrever aqui, sem câmaras que me vigiem os passos e permite-me reagir como naquele verso magistralmente cantado por um dos expoentes máximos da cultura lusófona, chamado José Afonso:
«Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
É o que faz falta»
in ‘O coro dos tribunais’ 1972
Nesta democracia tudo é explicito e os saudosistas queixam-se disso mesmo, ainda assim e apesar da ditadura comercial que impede que aquilo que não dá dinheiro saia para os olhos do povo embrutecido há quem vá avisando a malta das brilhantes revisões do eterno fado
(saudades d’A Naifa e do João Aguardela e da revisão assombrosa da música mais portuguesa de todos os tempos: o fado)
aqueles agitadores neofascistas (ah eu sei que isto é contraditório) chamados Heróis do Mar que pelo menos lembravam-nos do orgulho de ser português e ao mesmo tempo libertavam-nos dos preconceitos de um povo quieto e amorfo, lançando a cultura pop para níveis nunca antes vistos em Portugal (os saudosos anos 80).
(por onde anda o Rui Pregal da Cunha e o Paulo Pedro Gonçalves e porque se deixaram de cantar os versos da ‘Saudade’ e do ‘Fado’?)
Claro que temos o melhor fadista vivo (os bons nunca morrerão…) chamado Carlos do Carmo que continua a ser um dos mais importantes meios de divulgação da poesia portuguesa, que não é apenas Luís de Camões ou Fernando Pessoa.
Por onde andam os movimentos de recuperação do legado deixado pelo magnífico escritor José Gomes Ferreira? Do poeta Ruy Belo? Do músico Fernando Lopes Graça? E de outros tantos que os Big Brother e concursos da moda obliteram em nome do lucro imediato?
Tags: ditadura, Estado novo português, fascismo, repressão, Salazar, TRAÇOS CULTURAIS









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