FALANDO DE LÍNGUA

Com trema, sem trema… continuamos aguentando

por
admin@areadeletras.com
16 de June de 2009

orig publico2 Com trema, sem trema... continuamos aguentandoNa verdade, o que pouca gente sabe é que o acordo ortográfico que passou a vigorar em 1º de janeiro de 2009 é um ajuste que tem muito mais interesses econômicos e políticos por trás, do que questões lingüísticas. O mercado brasileiro é muito maior do que o de todos os de outros países de Língua Portuguesa somados (segundo a CBL – Câmara Brasileira do Livro, movimenta 2,4 bilhões de reais/ano, produz 300 milhões de exemplares e mais de 35 mil títulos ano.
Quer razão maior?
Dos aproximadamente 240 milhões de falantes de Língua Portuguesa, nós somos 190 milhões (quase 80%), exportamos música, novela, produtos gerais, serviços aos irmãos de idioma e conseguimos aprovar um acordo que toca em menos de 2% das nossas regras e muito mais que isso nas deles.

O acordo é vantajoso para o Brasil?
Mais ou menos. O fato de haver ortografias distintas nunca impediu que os livros cruzassem o atlântico (nos dois sentidos). Alegam a necessidade, por exemplo, de se editar o HOUAISS duas vezes por causa das distinções de grafia. Tudo bem, mas além do HOUAISS, que é um dicionário, e, obviamente, precisa ser reeditado nesses casos, qual mais precisa? Acharemos uma meia dúzia de livros que não justificam o empenho hercúleo realizado.

Há interesses políticos
O interesse político é que, embora o acordo tenha sido alinhavado em sua parte final em 1995, só entra em vigor agora, com prazo de adaptação de 3 anos, bem no meio do governo Lula que nunca escondeu de ninguém que sonha em ser o líder dos países excluídos, uma espécie de general do exército de Brancaleone. Pois começou bem… Um exemplo aos pobres que se vêem nele, o homem que veio galgando os degraus numa caminhada de superação. Acho louvável. Sem deboche mesmo. Acho sim.

Mas enfim, mudou
Na verdade, fizemos a comunidade lusófona engolir a maioria das regras para se unificar em nome de uma unidade lingüística que, assim como o Godot, de Becket, fica sob uma árvore esperando. Podemos até escrever do mesmo jeito, mas o que nos faz tão distantes, tão distintos não está na grafia das palavras, mas em uma herança cultural que, fora a língua, nos separa por mais de um oceano. E acho que essa diferença é que é o legal da coisa.

 Com trema, sem trema... continuamos aguentando

Marcelo Leite

é Doutor em Língua Portuguesa pela UFRJ, professor, pesquisador, Coordenador do Curso de Letras da USS e Diretor do CEFLCH. Assina os blogues Saco de Filó e Falando de Língua.

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5 comentários

  1. O segundo maior problema do ser humano é pensar. O maior problema é os actos que comete, quase sempre atentatórios a todo o meio ambiente que o rodeia e sempre imbuídos de uma qualquer trama política, que as mudanças se fazem pelo dinheiro e não para facilitar a vida aos povos. Isto pode paraecer uma teoria da conspiração (uma obsessão compulsiva, uma doença…) e daqui a uns anos constatarmos que as mentes iluminadas que se fecharam numa sala a mudar bué palavras e expressões, provavelmente tentados a carregar num qualquer botão vermelho que fizesse explodir a cabeça dos que estão sempre contra aquilo que pensam sempre ser algo iluminado.

    Quanto a riqueza cultural podia lembrar-me dos franceses cuja última revisão ortográfica foi há mais de 200 anos e dos alemães que, como o seu ar de bêbados indica, brincam às reformas de vez em quando. Eu por mim prefiro essa variante do latim chamada francês e penso que cada português com as suas próprias idiossincrasias se devia adaptar às pessoas que tem no seu país e não aos assentos na ONU e sonhos políticos de alguns obtusos que sonham em comandar os pobres, provavelmente para uma miséria maior.

    Venham essas expressões brasileiras, africanas e sobretudo as inglesas ou dos imbecis norte-americanos que é o que nos injectam no cérebro todos os dias, que é aquilo com que convivemos. Levem esses acentos irritantes em cima do i e deixem-nos com o hífen, a trema e aquilo que utilizarem em África (não faço ideia do que será e gostava de o saber).

    Para mim rapariga continuará a ser uma forma carinhosa de tratar uma mulher, no Brasil não é, que tal universalizar a puta? Ah perdão, é uma asneira e fica culturalmente mal un dicionário ter essas palavras que se chamam de palavrões…

    Como diz no final da sua crónica o ‘legal’ é mesmo a diversidade e é nela que estão a escarafunchar em nome de políticas que mudam com o vento!

  2. Acho que no fim dos anos 60 ou início de 70, teve um reforma ortográfica também. Daquela vez, escapei por pouco. Ainda não tinha entrado na escola e não foi preciso adaptação alguma.

    Mesmo que sejam 2% de alterações, do nosso lado, e muito mais para os outros países, vai ser um transtorno geral. E sem sentido. Não vejo como nossa língua, com pequenas singularidades na escrita, com sotaques diferentes, era impedimento para o contato entre as culturas e povos. As diferenças estão na vivência de cada grupo. E não devem mesmo ser exterminadas. Devem sim, ser apresentadas.

    Me agradaria mais uma isenção absoluta de impostos para produtos de cunho cultural, como livros, filmes, discos, importados dos países de língua portuguesa.

    Excelente post.

    Abraços

  3. As “estatísticas” diferem ligeiramente, mas não tão indiferentemente quanto isso: a norma brasileira será afectada em cerca de 0,45% (não 2%, como aqui referido) e a norma padrão (portuguesa e dos PALOP) em 1,6%.

  4. Bia Gonçalves says:

    Isso me parece coisa de quem não tem o que fazer. Parte dos países lusófonos da Africa não c oncordam com esse acordo. Por que aprovaram se nem todos concordam?

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