Infância trucidada
Pelo que a imprensa angolana vem noticiando, pode-se afirmar, sem medo de errar, que é muito perigoso ser criança em Angola, principalmente se for da camada pobre da população
Pelo que a imprensa angolana vem noticiando, pode-se afirmar, sem medo de errar, que é muito perigoso ser criança em Angola, principalmente se for da camada pobre da população. É como ser judeu na época do nazismo. O perigo é ainda maior se for de sexo feminino. A infância de muitos seres está a ser trucidada.
A sociedade não possui forças para reagir. Algumas vezes, quando a imprensa oficial abre espaço para o debate, normalmente os especialistas, cuidadosamente selecionados, são unânimes em dar voltas, voltas e mais voltas e ninguém consegue pôr o dedo na ferida nem apontar saídas. Talvez seja o medo de desagradar a algum demônio ou então o “medo de expor publicamente as idéias”.
Em parte, é até compreensível esse comportamento. O país vive o pós-guerra de um prélio que começou há muitos séculos. Um dos primeiros é o do período da inquisição, depois a dominação portuguesa (legado da escravatura), em seguida o da libertação e, finalmente, a guerra civil, que terminou em 2002 e que, juntos, provocaram a morte de muitos intelectuais e muitos jovens.
Assim, qualquer país ou continente que viveu essa realidade cruel (é o caso da América latina, mas não numa escala como a nossa), a tendência é das pessoas passarem a vida memorizando o famoso ditado “na boca calada não entra a mosca”. Não é por acaso que na sua recente crônica intitulada: “Aonde andam os intelectuais angolanos?” Gustavo Costa escreveu: “Os nossos intelectuais sobrevivem, aquartelados, numa sociedade vergada a um inquietante défice de debate. Os nossos intelectuais meteram a viola no saco e submeteram a crítica a um coma profundo!”. Nesse cenário, ter um Arnaldo Jabour, nem pensar, é mais fácil o camelo passar debaixo da agulha. Mas isso é outra conversa…
A herança maldita de tudo isso é aumento de casos de violação sexual contra crianças e crimes que apresentam elevados níveis de brutalidade. Parece que os valentões resolveram descontar suas frustrações nas crianças. Parece que a situação sócio-econômica, social e política do país levou a uma profunda crise de valores.
O país rico em petróleo, diamantes, madeira, com terras aráveis onde “em se plantando também tudo dá”, Pero Vaz de Caminha assim diria se passasse em Angola, as primeiras vítimas foram as famosas “catorzinhas”. “Namorar” meninas de 14 anos, que a princípio não têm o corpo preparado para isso. Agora baixou-se o nível.
Nos últimos dias as coisas se deterioraram muito. Aumentou, de forma assustadora, o número de violações de menores ou esfaqueamento até a morte por serem acusadas de práticas de feitiçaria. A primeira dificuldade começa antes do nascimento. Num país essencialmente cristão, onde há cerca de 60% católicos, meia dúzia de ateus e o restante de outras denominações cristãs, islâmicas e animistas, somente cerca de 60% das gestações vão adiante, principalmente na capital. Em seguida surge a elevada taxa de mortalidade infantil, em torno de 182 para 1.000 nascimentos.
Atualmente, o que se está presenciando são adultos, de maneira irracional, ‘se divertirem sexualmente com crianças’, conforme afirmou certo escrivão, sem nenhuma preocupação com traumas, dores e outros tipos de problemas psicológicos que podem causar em suas vítimas. É o pai que abusa sexualmente de filha; tio a sobrinha, avô a neta, padrasto a enteada, ou seja, de uma forma geral, tudo praticado por pessoas próximas. É aí que está o perigo. Perigo de se ter Josefs Fritzls. Recentemente, só para citar alguns exemplos, foi noticiado o caso do padrasto que abusava sexualmente dq enteada de 24 meses e do tio de 74 anos que abusava de uma menorzinha de tenra idade. É verdade que isso também ocorre em diversos lugares. É inerente ao ser humano.
No entanto, as motivações, no nosso caso, são escusas: crença de curas de certas doenças e, principalmente, crença de que é fórmula para se chegar à riqueza, em vez de se acreditar no trabalho. Além desses há um grupo que não admite ‘criar para os outros de graça’. Os violadores não estão muito preocupados com os 6 ou 12 anos de reclusão que podem pegar, de acordo com o código penal vigente, dependendo da idade do infrator. Ultimamente algumas vozes, timidamente, têm se levantado no sentido de se promover uma conferência nacional que trate o caso.
Por outro lado, algumas famílias também dão sopa ao azar. Com inúmeros marginais livres pelas ruas, muitos pais saem cedo para suas atividades, normalmente informais, e deixam seus filhos soltos. É comum ver crianças, por exemplo, de 8 anos a caminhar longas distâncias para irem à escola ou voltar, ao anoitecer, pelas ruas escuras sozinhas ou então encontrá-las em grupos de crianças a brincarem longe de olhares de um adulto. Assim, nessa situação, elas são facilmente aliciadas. Os malvados as envolvem com atenção, que normalmente os pais não as oferecem: bondade, benevolência e até presentes. Como resultado, basta ligar a TV no programa “Ecos e Factos” que, sempre, apresenta pelo menos uma criança encontrada perambulando pelas ruas e outras sendo procuradas.
Crianças “feiticeiras”
Outro problema que ocorre é o elevado número de crianças acusadas de serem feiticeiras que, normalmente são mortas, pasmem, a pauladas pelos seus familiares: pais, filhos, irmãos ou tios. O critério para provar que a criança é feiticeira é aleatório. Não há nada de científico. Qualquer gesto estranho que a criança faça e alguém ache que aquilo é sinal de feitiçaria, ou que diga que sonhou que estava voando ou ficou rico… Eureka!. Não só crianças mas adultos também vêm sendo mortos. Esse o caso que ocorreu neste mês de maio na província da Lunda Norte onde vários idosos foram enterrados vivos.
O feitiço da moda é o “voador” que faz com que, segundo acreditam, o seu possuidor tenha domínio de voar, como se fosse águia. Isso possibilita que todas as noites visitem diversos lugares tanto de Angola como de outros continentes, Brasília, por exemplo. Normalmente atribui-se a isso o motivo de doenças e miséria que se acomete a todos membros da família do feiticeiro. A solução, quando os membros da família descobrem, é a morte do feiticeiro não importando a idade.
Assim, muitas crianças, que a princípio imitam aquilo que os adultos fazem, vivem em abrigos fugindo da morte. No início deste ano, 40 crianças, de 5 a 12 anos, por exemplo, estavam sob proteção do lar Kuzola, em Luanda, acusadas de feitiçaria. Outras se transformam em meninos de rua. Por não terem nada que ocupe suas mentes incorporam práticas nocivas para sociedade e para suas próprias vidas, como criminalidade, consumo de bebidas alcoólicas, entorpecentes etc.
Na sua recente visita a Angola, o Papa Bento XVI exortou ao povo angolano a não levar a sério essas práticas de feitiçaria. Pensando mesmo bem, se todas as denominações que se dizem serem cristãs, que devem totalizar 90% da população angolana, levassem a sério o que está escrito na Bíblia, a sociedade estaria investindo maciçamente na educação, como aconteceu em muitos países – como a Coreia do Sul, por exemplo -, que passaram por problemas quase semelhantes.
Sem educação, com baixa qualidade do ensino, má distribuição de renda, perda de competitividade do país em relação às outras economias, sem saúde, sem solidariedade, com a ausência do Estado; se a sociedade continuar fechando os olhos para essa realidade, enquanto não se veicularem campanhas que estimulem as vítimas a denunciarem os agressores, com igrejas mais preocupadas com a feitiçaria e a macumba como lenha para a fogueira das sessões do descarrego, e outras não estão nem aí, pessoas que também só se lembram de igrejas para efeitos de casamentos e mortes, falta de empregos e de oportunidades iguais, pessoas sem qualificação, com pessoas que encontram em telenovela um modelo de comportamento a ser seguido, com famílias desestruturadas “todos em casa gritarão e ninguém terá mesmo razão”.
Assim, um porá a culpa no outro pela miséria e o outro acreditar que se fosse o um daria uma melhor vida para a família. Os padrastos, por exemplo, atribuem aos afilhados o grande peso econômico, principalmente nas famílias de elevado agregado familiar. Enquanto os especialistas continuarem a perder tempo discutindo quem é mais velho “o ovo ou a galinha” a infância de muitas crianças continuará sendo trucidada.
Tags: direitos humanos, feitiçaria, infância, injustiça social, lusofonia, misticismo, religião, TRAÇOS CULTURAISPOLÍTICA DE COMENTÁRIOS
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Isso nao acontece so em Angola. Na africa de uma forma Geral. O problema é que os governos fecham as vistas, estao a trabalhar aos interesses de fora. Outra coisa, paises desenvolvidos estao cientes deste problema mas fecham suas vistas porque estao mais interessados na exploracao dos recuros desses paises. Paises africanos têm um temor de investir na educação que nao nda para entender se seus dirigentes amam seus povos ou nao. Angola, pelos vistos nao foge a regra. Talvez futuras geracoes venham ganhar juizo.
Caro Fernando! Lamento que esta seja a realidade do nosso pais.
Contudo, vamos juntos reflectir sobre esses males que enfernam aqueles que a preori deveriam ser os mais benéficiados.
Infelizmente temos homens que dizem revolver o “problema do povo”, mais na verdade deveriam mudar o discurso em, “resolver o problema do bolso” porque é o que eles fazem.
É absurdo o que se vê e se vive em Angola.
Vamos fazer fé que a sensibilidade dos nossos dirigentes se volta mais para o bem estar das nossas crianças para, tal como voçê afirma “as novas gerações venham ganhar juizo”.
Calar é morrer. Parar é sinónimo de fraqueza. Força ali!
Simplesmente vista grossa do governo.
Aqui no Brasil, infelizmente também se tem muito disso.