É baixinho ou pivete?
A diversidade lingüística e cultural do país da bola trouxe a infância uma infinidade de sinônimos. Alguns, no entanto, servem até pra xingamento

Enquanto o país discute a diminuição da maioridade penal, sofremos com a falta de estrutura social derivada de uma república que prendia 'pivetes' de nove anos por legítima defesa
Em solo patropi, nada de mufanas ou de miúdos, expressões utilizadas com frequência para designar crianças em Moçambique e Portugal, respectivamente. Ser criança no Brasil se mistura com o “estar” criança.
Pode um país vislumbrar um futuro desenvolvido, maduro, tratando o comportamento infantil de maneira pejorativa? Numa briga brasileira de bar, por exemplo, seja por ciúme ou pela coragem latino-americana, é comum ouvir frases exaltadas do tipo “você é um moleque!”. O bêbado nem sabe, mas trata-se de uma expressão de origem africana, vinda pra cá no período escravista. Moleque (mule’ke) vem do idioma quimbundo, língua falada na região conhecida hoje como Angola, e significa “menino”, “garoto pequeno”. Mas segundo o dicionário Houaiss, pode servir de adjetivo também para “indivíduos sem palavra”, ou “sem gravidade”.
Moleque é sinônimo de criança mas também serve pra xingar o outro. O mesmo, porém, não acontece com outros sinônimos utilizados no País como “guri”, “piá”, “bacurin”, “pirralho(a)”, “pimpolho(a)” e “baixinho(a)”. Mas então porque só moleque se tornou xingamento?
Segundo o mesmo Houaiss, na sua origem etimológica, “moleque” diz respeito também à “criança negrinha”, o que pode dar uma pista histórica, social e até mesmo racista sobre essa distinção. Piá e guri, por exemplo, são expressões mais utilizadas em regiões com maior herança europeia, como São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “Baixinho” veio da Xuxa, ou seja, uma sugestão midiática que, como outras, pegou como vírus.
Mas destes substantivos acima citados, qual seria o sinônimo mais próximo de moleque? A resposta é nenhum, pois em um país de desigualdades sociais gritantes, a língua se torna um dos maiores reflexos dessa injustiça social. Junto a moleque temos pivete e trombadinha, novamente termos utilizados para designar a infância no Brasil. Mas não qualquer infância.
Em matéria publicada no site Observatório da infância, a coordenadora do programa de Cidadania e Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ), Esther Arantes, afirma que uma das primeiras medidas adotadas pelo 1º Código de Menores, logo após a proclamação da República e o suposto fim da escravidão, foi a redução da idade penal para os nove anos. Neste mesmo período, o trabalho infantil foi legalizado, permitiu-se a retirada do pátrio poder por motivo de pobreza e o envio dessas crianças, que passavam a serem definidas como menores abandonados material e moralmente, aos internatos correcionais. É nesse momento que ser moleque, ou ser pivete, se tornou diferente de ser criança.
As informações coletadas por Esther mostram ainda que no início do século XX era comum no Brasil prender “pivetes” que tinham atirado pedras em comerciantes agressores de crianças, por exemplo, ou simplesmente apanhadas perambulando ou dormindo na rua. A medida lá do início da república, ao invés de provocar diminuição da pobreza, apenas fez com que hoje fosse comum ouvir nas ruas brasileiras que tal lugar é perigoso porque “tá cheio de trombadinha, de moleque de rua” ou de “pivete correndo pra lá e pra cá”.
Mas pior que se comportar como um moleque no Brasil é ser pivete. Trata-se um adjetivo que não vai ao shopping, não brinca no parque de diversões, apenas sabe pedir dinheiro no sinal de trânsito, fazendo malabarismos com três limões velhos pra tentar arranjar um trocado do “tio”. É pior que moleque, pois não dá pra “estar sendo” pivete por aqui. É substantivo e adjetivo grudento, um estigma; ou melhor, uma marca deixada a ferro quente.
Vivo em um país onde substantivos se tornam adjetivos. Moro no Brasil da inversão de valores, onde o mais raro elogio pode se tornar o xingamento mais imundo. Principalmente quando as crianças não são rosadas.
Tags: Declaração dos Direitos da Criança, desigualdade social, direitos humanos, discriminação social, escravidão, estatuto da criança e do adolescente, linguística, lusofonia, racismo, trabalho infantil, TRAÇOS CULTURAISPOLÍTICA DE COMENTÁRIOS
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é moleque!!!
Perfeito artigo Michell, muito bom mesmo. Não sabia esses significados que estão tão presentes no nosso vocabulário. Legal saber desses sgnificados aqui no Patifúndio. Abraços.
Respondi lá na sua revista. Excelente artigo!
Palmas! O Brasil precisa de voz ativa. Temos algumas, e você se mostra como uma delas neste artigo.
Parabéns pelo ótimo artigo!
dea
Perfeito artigo Michell, muito bom mesmo. Não sabia esses significados que estão tão presentes no nosso vocabulário. Legal saber desses sgnificados aqui no Patifúndio. Abraços.
Aqui esta a grande prova de que a diversidade lingustica ultrapassa fronteiras. Tal como em muitos paises da lusofónia encontramos espessões Brasileiras, é bom saber que no Brasil também se usam mesmo sem que muita gente saiba, expressões provenientes de outros povos irmãos.
Valeu pela dica.
Para um estudante de letras (como eu) esse blog é um ótimo achado. Visitarei com frequência, moleque (no bom sentido)!
abç
Pobre Esponja
Aqui onde eu moro, Bahia – Salvador, “guri” e “pirralho” são xingamentos. Ninguém aqui gosta de ser chamado de guri e pirralho. “Guri” é como se fosse um bebezinho, que não sabe se cuidar sozinho e “pirralho” é criança chata.
Cabem adendos aqui…
Lidando por hora apenas o subtítulo, é certeiro dizer que conjunturas sociais movem a linguística; este é um acontecimento fantástico duma língua que tem rebolados próprios, não?
Por outro lado, me referindo agora à segunda parte do subtítulo, há de se convir: existem fenômenos análogos a este em outras línguas que não são vistos nestes termos que o caro Niero apresenta do aparatoso português brasileiro.
Por isso acima, e avançando agora para a primeira questão que nos é feita no texto, embora a resposta seja obviamente um “não”, devo dizer também que tal pergunta é infeliz em si mesma por induzir à infelicidade ao menos quando se trata duma visão panorâmica do fenômeno linguístico não apenas brasileiro, mas de modo geral.
Ah! me lembrei: o texto tem como âmago o profundo problema social relacionado aos meninos do Brasil refletido na maneira do povo falar. Bom, neste sentido e como exemplo, digo que as ideias do nosso ilustre Michell não dizem muito respeito à minha condição sociocultural. “Moleque” bem que pode conotar negatividade, mas minha doce mãe, em tom de carinhosa brincadeira, por dezenas de vezes me tratou nesse termo e derivados, sempre longe de ser pejorativo. Minha resposta à segunda pergunta seria então: “Moleque é xingação? Depende!”
Aposto que Niero diria que não, mas aqui ele generalizou demais da conta. Tenho de ventilar em minha fala que a acepção de “moleque” conta com mais de 10 regionalismos no Houaiss. Alguns são pejorativos, outros etimologicamente exatos e há sentidos positivos. Por favor, demos a César o que é de César para não cair em extremismos… há casos e casos, e depende de onde se localiza no Brasil esse ‘seu bar brasileiro’.
Tudo que quero dizer é que o ‘brasileiro’ – língua, povo, time e outros brasileiros mais – tem dribles tal qual no futebol; nem sempre eles obtêm sucesso como com foi com “pivete”, 2010 e os meninos, isso é fato.
Abraços dum baiano da gema.
Apostou e perdeu, caro Jonab,
Muito obrigado por cair na provocação.
Um abraço