Futebol de cubículo
Da pelada de rua, ao winning eleven no quarto, a molecada brasileira se adapta aos novos tempos para continuar jogando bola; mas adaptar demais pode estragar
O brasileiro, de um modo geral, gosta de brincar com coisa séria. Faz chacota da política, da educação, solta piada quando não deve, prefere rir em situações onde o melhor a se fazer seria chorar. O mesmo, porém, não acontece nas ocasiões mais ordinárias, Este mesmo brasileiro costuma levar a sério carnaval, partidas de truco, sinuca, dominó, videogame e sobretudo um esporte.
São nas partidas de futebol de rua que geralmente nascem os grandes craques brazucas. Foi “dibrando” com os pés descalços, escurecidos pelo piche do asfalto ou pela terra batida, que surgiram Ronaldos, Romários, Garrinchas, Pelés, Zicos e tantos outros. Com uma bola de meia, gols improvisados com chinelo de dedo e dois times diferenciados pelo uso (ou não uso) da camiseta, ganhamos cinco copas do mundo.
Só que esse campo improvisado mas eficiente, onde o moleque aprende desde cedo a matar bola oval, dura, deformada, daquelas que na época de profissioral virão dos beques ruins de bola, vem desaparecendo da paisagem urbana do país. O rádio orienta o motorista a procurar vias alternativas para driblar o congestionamento e o que ele encontra? Uma rua vazia, silenciosa, com casas dos dois lados e com crianças presas pelos pais por conta da violência e do perigo dos atropelamentos.
Mas a gente sabe como é criança. No aperto ela dá um jeito, pode até perder um pouco, mas nunca abre mão da brincadeira. O jeitinho brasileiro atua em prol do futebol, da paixão nacional, daquilo que todo moleque, sobretudo, do sexo masculino, é condicionado desde cedo a gostar por causa do pai. Sai a pelada na rua, entra temporariamente o futebol de calçada até que o “gol-a-gol” na garagem ganhe definitivamente a titularidade.
Entenda “gol-a-gol”, ou “golzinho”, como um tipo de futebol jogado com, no máximo, duas pessoas. As grades do portão se tornam a rede que, ao invés de balançar suavemente com a chegada da bola, promove um estrondo desagradável e provocador, principalmente aos cachorros. Nesse jogo, os dois lados são ora goleiros ora atacantes. Um chuta, o outro tenta defender e vice-versa. Antes do início da partida, os dois jogadores entram no consenso entre a quantidade de gols necessários para determinar um ganhador. Em virtude do campo menor, a bola precisa perder alguns centímetros de circunferência. Tudo pode se tornar bola, desde aquela com sininho que o cachorro usa pra brincar, até bolinhas dadas em promoções de refrigerante.
Os tempos, no entanto, não estão pra brincadeira. As garagens precisam abrigar o carro do pai, sem falar que os vizinhos não param de reclamar do barulho a cada gol e das perigosas bolas fora capazes de quebrar telhados, vidraças e amassar capôs. O futebol é então migrado para o interior da casa, se torna indoor e fica ainda mais improvisado.
O futebol atravessou a porta da cozinha e foi parar na sala. Jogado sozinho ou entre irmãos, o futebol de sala tem como característica o drible. Não há definição exata de onde fica o gol e nem o adversário, que tanto pode ser um ser humano como um móvel, um cachorro, uma vassoura ou o que for. Ao driblar o adversário, tudo pode se tornar gol: uma entrada de corredor, as pernas da cadeira, o vão do sofá ou até mesmo o espaço que separa a mesa de centro do rack da TV. É um futebol mais “semiótico”, onde o desespero de se jogar bola elimina praticamente todas as regras. Tudo para manter o fundamental da prática esportiva.

Geração recente se contenta a jogar bola pelo winning eleven; qual o futuro da 'pátria de chuteiras'?
Mas não dá, é transgressão demais e a mãe proibiu veementemente as crianças de brincarem na sala depois do vaso quebrado. Resta então o videogame, jogado no quarto, de maneira solitária, com irmão ou entre amigos. Os pais adoram pois “distraem” a criança e evita que elas aprontem ou saiam de casa. Afinal, as coisas não estão pra brincadeira. Ali ela ganha campeonatos, encarna o craque do time do coração e pode até criar-se dentro do jogo. Elas podem também comprar e vender jogadores, como bons cartolas.
Ao mesmo tempo, a seleção brasileira de futebol não vive um bom momento. Há um bom tempo deixou de figurar no primeiro lugar no ranking da FIFA. Depois de terminar de maneira melancólica a Copa do Mundo de 2006, o time não conseguiu mais criar empatia com a torcida. Jogam muito nos times europeus, mas na hora de se reunirem parece que desaprendem. Muitos apontam o desentrosamento da equipe como o principal motivo para esse período de fracasso. Talvez seja o reflexo de uma geração que teve que se contentar com os cúbilos do meio urbano para continuar jogando bola. Acostumados com o “gol a gol” solitário, com o drible na sala-de-estar ou com o futebol de joystick, deve ser difícil mesmo se entrosar com mais 21 em campo.
Tags: brincadeiras infantis, copa do mundo, Futebol, infância, meio urbano, segurança, seleção brasileira, TRAÇOS CULTURAIS, urbanização, vida urbana, violênciaPOLÍTICA DE COMENTÁRIOS
- Colabore com a democracia e mantenha o bom nível do debate. Exerça a liberdade de expressão com responsabilidade.- Comentários sem identificação serão apagados. Prática de SPAM,ofensas, xingamentos, demonstrações de racismo ou intolerância religiosa, racial ou política também. O contraditório é garantido e ansiosamente aguardado, desde que ele seja bem usado.














Digg
Salve no delicious
Envie para o Stumble

























Bela observação. Há tempos mesmo que percebemos um pouco de tudo na seleção, menos o coletivo. Parece que o “cubículo” não tirou o talento dos nossos jogadores. Apenas a sua vontade de compartilha-lo em campo e com os torcedores.
e tbm era um vez as pessoas conversavam frente a frente,
nao usando blog ^^.
eu nao curto futebol akele sensacionalismo de nomes de jogadores , entao isso pode estar sendo um efeito colateral da ‘midia’ ou sei lah dos responsaveis sobre isso.
Leandro, você está fazendo uso da internet, está lendo um blog, deve ter msn e orkut. Tem um e-mail. Portanto se comunica com as pessoas através do computador.
Muito legal o artigo Michell. As vezes jogo um futebol no Playstation, mas não é a mesma coisa que jogar no campo com os amigos (jogo com a turma aos sábados). Também já joguei muita bola no quintal, garagem e na rua quando era muleque. Bons tempos.
Cara, exatamente isto, muito massa esta relação que fez com o futebol de rua e o decaimento da seleção… vc escreve mto bem, deu gosto de ler.
obs: não seria melhor deixar o top comentaristas com os comentaristas que mais comentaram no blog desde o início? Acho que seria mais honesto com todos, ficaí a dica.