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Catorze anos na boquinha da garrafa

por
michellniero@opatifundio.com
13 de May de 2009

Superado o complexo de Édipo com a loira do Tchan, o jovem brasileiro tem hoje o desafio de aprender a carregar nas costas um país; no que isso vai dar?

freud grande Catorze anos na boquinha da garrafa

Segundo Freud, o Complexo de Édipo acontece quando a criança atinge o período fálico, geralmente próximo dos seis anos de idade. Ocorre então diferença de sexos: o homem diz “ordinária” e a mulher rebola

O ano de 1995 marcou o início de uma era de ouro na indústria fonográfica brasileira. Depois da morte precoce dos integrantes dos Mamonas Assassinas, era preciso preencher o vazio financeiro deixado por eles. A solução foi quebrar a hegemonia “Rio-São Paulo” das paradas de sucesso e buscar na efervescente cena musical baiana um novo fenômeno de vendagem.

Com um disco lançado, o Gera Samba apareceu na mídia com um pacote sonoro e visual bastante eficiente. Um ritmo dançante e acelerado, com influências da música baiana e elementos do pagode e do samba. Três dançarinos, sendo duas belas mulheres em trajes mínimos (uma loira e uma negra) e um negro, alto, do tipo professor de aeróbica com um sorriso carismático. Pra completar, um vocalista cantando de forma semi-tonada frases de cunho sexual e de duplo sentido e um homem de meia idade, supostamente bem humorado, que cumpria uma árdua jornada de trabalho que inclua fazer vocalizações esporádicas (como o famoso grito “ordinária!”) e empresariar a banda.

Tinha tudo pra ser um grande sucesso popular, arrebanhar algumas patricinhas marombeiras e alguns moleques metidos a passear com o carro do pai. Ao pai da família ficava o interesse no divertimento gratuito proporcionado pelo rebolado das dançarinas e às mães torcer pra que aquilo fosse só mais uma moda, como aquela da lambada. Foi um sucesso sim, durou muito mais que a lambada e pior, contaminou principalmente as crianças.

“Depois de nove meses você vê o resultado”

e o tchan Catorze anos na boquinha da garrafa

Sobre o comando de Compadre Washington, É o Tchan e Cia. do Pagode revezavam nas paradas de sucesso do fim dos anos 90. E a molecada adorava

A criançada cantava assim: “Tudo que é perfeito a gente pega pelo braço. Joga ela pro meio, mete em cima mete em baixo. Depois de nove meses você vê o resultado”. Trata-se do primeiro sucesso do Gera Samba chamado “segura o Tchan”.  Coincidência ou não, o Ministério da Saúde registrou a partir de 1996 um aumento no número de partos, sendo que mais de 638 mil nascimentos eram filhos de adolescentes. Um ano depois da moda do “segura o Tchan” se alastrar pelo Brasil, de cada dez partos realizados pelo SUS (Sistema Único de Saúde) dois eram de crianças e adolescentes que variavam de 10 a 19 anos de idade.

No ano de 1998 o sucesso da chamada axé music, gênero que grupos como o Gera Samba (que já havia virado “É o Tchan” por questões jurídicas) e Companhia do pagode ( do hit “dança da garrafa”) foram catalogados pela mídia tradicional, já representava em 1998 13% do total da indústria fonográfica brasileira, atrás apenas do pagode. Com isso, uma verdadeira febre por produtos licenciados com a marca “É o Tchan” passou a entrar no mercado. Eram cadernos, chicletes, álbuns de figurinha, lancheiras, sandálias infantis, roupas imitando Carla Perez (principal dançarina do grupo) e toda e qualquer forma de ganhar ainda mais com o sucesso do grupo com o público infantil.

Enquanto a molecada “segurava o Tchan” e ralava “na boquinha da garrafa” em 1999, o número de partos de adolescentes pulava para quase 713 mil, mesmo com todas as campanhas para o sexo consciente, uso da camisinha e os alertas para o risco de contaminação da AIDS. Isso até Carla Perez e seu micro-short anunciarem sua saída do Tchan. Ela, adivinhem, iria se tornar apresentadora de programas infantis.

Nesse mesmo momento o número de mães solteiras crescia no país. Enquanto que muitos meninos chamavam de “ordinária” toda e qualquer mulher que pudesse satisfazer as necessidades sexuais da puberdade, a família brasileira passava rapidamente a ser “apenas” mãe e filho (ou filha) com participações especiais da avó. A mãe passou a ser a referência financeira da família e foi trabalhar e a avó (que ainda era mãe) também trabalhava.

Sem mãe em casa, a criança com cinco anos de idade em 2001, então, tinha o desafio de iniciar e superar seu complexo de Édipo com alguma figura feminina da TV, que poderia ser uma atriz de novela, uma apresentadora de programas infantis ou a Carla Perez, que teve sonho de ser apresentadora infantil bater na trave.  Reconhecer o sexo masculino, por sua vez, poderia ser mais  fácil observando o comportamento älegre e descontraído de compadre Washington.

bloco carla perez carnaval Catorze anos na boquinha da garrafa

Depois de mostrar como se segura o Tchan às crianças e comprovar isso em uma capa da Playboy, Carla Perez se torna a 'cinderela baiana' em um bloco infantil no carnaval

C cindearla, loira, assim com a Xuxa, sen(sex)sual também, assim como Xuxa, falando no diminutivo com uma voz enjoada e anasalada. A Xuxa nos bons tempos também era assim. O diferencial era o sotaque com acento baiano. Aliás, ela nessa época até protagonizou um filme chamado “cinderela baiana” – como se a curta vida dela rendesse um bom longa metragem.

O É o Tchan continuou sendo uma indústria de sucessos até que em 2001 o compadre Washington (aquele do grito de ” ordinária”) foi acusado de bater na morena do Tchan, que naquela época era a Sheila Carvalho. . Desde então, a coisas começaram a melar pro grupo. Cada um foi pro seu lado e uma nova formação foi montada. Mas aí já era tarde.

Estamos no ano de 2009 e aquela criança nascida 1996 tem está perto de completar14 anos. É um adolescente que em breve poderá trabalhar como aprendiz. Talvez ele até precise trabalhar de outra maneira, ou antes dos 14. Afinal, a mãe continua sustentando a casa e pior, não sai do forró e arranjou um macho que vive batendo nela. Essa mesma criança, em muito breve, será ouvido pelo IBGE, poderá ser considerado da classe C, ela poderá votar daqui dois ou três anos e vai ser convidada pra uma “festinha”. Se não abandonar a escola, poderá ingressar em uma faculdade e ser a primeira da família a virar “letrada”. Ela vai ter que ralar, e não vai ser na boquinha da garrafa.

 Catorze anos na boquinha da garrafa

Michell Niero

é brasileiro, jornalista, especialista em Globalização e Cultura pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Em 2008 idealizou o projeto O Patifúndio! e o mantém até hoje, graças a sua segunda paixão, a lusofonia, e aos colaboradores, verdadeiros amigos espalhados em cada território onde a língua portuguesa é exercitada.

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14 comentários

  1. Muito boa a reflexão!

    Abraços do
    Antonio Carlos

  2. Assino com Siqueira.

    Essa "curtura" brasileira traz á lembrança o aviso de Joseph Pulitzer, trocando "imprensa" por "mídia":

    "Nossa república e sua imprensa crescerão ou fracassarão juntas. Uma imprensa capaz, desinteressada, imbuída de espírito público, com inteligência para saber o que é direito e com a coragem para fazê-lo, pode preservar esta virtude pública sem a qual um governo popular será uma impostura e uma farsa. Uma imprensa cínica, mercenária e demagógica produzirá, no devido tempo, um povo igual".

    Mas um dia a garrafa quebra!

  3. Michell, um dos melhores artigos que já li aqui no Patifúndio. Parabéns pelo seu senso crítico. A comparação é perfeita, idolatramos figuras banais do nosso país (Carla Perez pode ser muito gostosa, mas é burra demais) e o resultado é um povo ignorante que não sabe parar de fazer filhos e se prevenir. Espero que as mães e pais que fizeram os filhos na época do Tchan leiam isso aqui e passem aos filhos, que estão na época do funk carioca. Abraços.

  4. Gabriel says:

    O “tchan” e essa bundalização da música brasileira é uma regressão, certamente uma das piores coisas que já aconteceu na música e na cultura brasileira. Os reflexos estão aí até hoje, com essa molecada que ouve “funk” carioca.

  5. Jean says:

    Achava que só eu e uns poucos amigos pensassem assim, eu tinha por volta de meus 13 anos quando tudo isso aconteceu, nessa idade já observava o quando era vulgar e de péssimo gosto essas musicas, vi mães arrumando suas crianças como se fosse dançarinas de axé, festas de aniversários onde meninas de 10, 11, 12 anos competiam pra ver quem rebolava mais. Sempre vi ligação deste movimento cultural (kkkkkkk) com o numero de filhos sem pais o numero de adolescentes grávidas. Agora nada mais nos resta esperar que o FUNK complete seus 14 anos e vermos os numeros

  6. Boa reflexão…

    Infelizmente a coisa é cíclica… uma hora é axé depois lambada e agora o funk… o maior lixo de todos os tempos…

    Imagine a geração Créu ?!

  7. Gil Freduzesck says:

    Nossa que pessoas traumatizadas essas que atacam a cultura brasileira!…Cultura brasileira sim!Segundo elas devemos abolir o Funk,o axé,o samba…sim o samba porque mulheres de bunda de fora”não pode”.Não me assustaria se dia desses visse um artigo condenando o mambo,a rumba,a cúmbia…afinal que coisa mais indecente esses movimentos sençuias”que vergonha América Latina”que cultura musical mais terceiro mundista.Devemos sim é não indentidade própria e passar a copiar a cultura musical de outros países”mais descentes”.
    Eu como fã de axé que sou não tenho mais tempo pra escrever aqui,estou indo para a micareta,Fuiiiiiiii………….Me poupem,que falta de imaginação!!!

  8. Michell, um dos melhores artigos que já li aqui no Patifúndio. Parabéns pelo seu senso crítico. A comparação é perfeita, idolatramos figuras banais do nosso país (Carla Perez pode ser muito gostosa, mas é burra demais) e o resultado é um povo ignorante que não sabe parar de fazer filhos e se prevenir. Espero que as mães e pais que fizeram os filhos na época do Tchan leiam isso aqui e passem aos filhos, que estão na época do funk carioca. Abraços.

  9. lidiane roberta says:

    gostaria de saber noticias dos integrantes do grupo boquinha da garrsfa pois acompanhava todos os shows da banda e formei muitoa amigos .

  10. Michell Niero says:

    Cara Lidiane,

    Você não leu a matéria, né?
    Mas decidi publicar seu comentário porque só reafirma o que eu quis dizer.

    Um abraço.

  11. Walter Guerra says:

    Uhuuuu…

    E o é o tchan está voltando em 2010… com força total… 3 loiras e 3 Morenas… e ainda os cantores da primeira formação… relaxem… porque ninguém segura o tchan… ou melhor… todo mundo segurando o tchan… kkkk…!

    Só no Brasil mesmo pra ter certos tipos de critica… sendo que no mundo inteiro existe musicas de duplo sentido que fazem sucesso… e mulheres com roupas curtas que dançam…

    Opinião: NÃO JUSTIFICA COLOCAR DESTA FORMA OS PROBLEMAS DO PAÍS… SENDO BEM VISIVEL QUE SE TRATA DE (PRINCIPALMENTE) FALTA DE CONDIÇÕES SOCIAIS E ORIENTAÇÃO “tal problema”…

  12. Monique says:

    Eu não vou condenar quem escreveu a matéria
    Mas então é assim? surge Mamonas Assassinas falam que morreram pq influenciavam as crianças, surge é o tchan e voltam a falar de crianças e….
    Eu tinha 6 pra 7 anos qdo o gera samba surgiu e é com todas as letras que falo que NÃO TENHO VERGONHA NENHUMA DE DIZER QUE DANÇEI E COPIEI…Eu danço até hoje e choro só de lembrar pq dá saudades e o mundo quer dizer a vivencia naquela época era mais feliz hoje nem sair na rua vc pode pq não sabe se chega em casa viva!!!
    Eu acho que os anos 90 foi algo feliz pra todo mundo que viveu está década que é considerada a melhor…
    Hoje é fácil criticar a Xuxa, Sandy e Junior, Tchan mas na época em que era moda todo mundo se enfartava de cantar e dançar as músicas
    E dai que falava de sexo um dia todo mundo vai fazer e saber o que é né?!
    Eu não condeno quem escreveu a matéria mas isto vai da cabeça da pessoa se uma adolescente engravidou aos 13 é problema dela e dos pais e não de uma simples letra até pq eu não fazia sexo naquela época pq era criança então não pode dizer que todo mundo deixou se influenciar!

  13. Cayro Almeida says:

    O famigerado “grupo musical”, “Tchan”, representou o retrocesso musical, a idade medieval da musica baiana e brasileira.

  14. leonardo marques says:

    1995.o ano da BUNDALIZAÇÃO da Musica Brasileira.a verdade é essa.ainda bem q me libertei disso a tempo!infelizmente,vivenciei essa fase!

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