Boca do lixo, do luxo e do inferno
Ter uma Rua Augusta por perto é como atravessar a rua, ir a outro mundo e voltar, seja no Brasil ou em Portugal
Rua Augusta, São Paulo, Brasil: a cultura de massa e de praça
por Michell Niero
O realista diz que “a Rua Augusta é uma extensão de asfalto”; já os saudosistas se lembram dos pegas de Brasília 67, do brotos e brotas da jovem guarda, das calçadas chiques e das matinês no Conjunto Nacional. Os boêmios, enquanto isso, são atemporais. São também a paisagem e encorpam esse estilo relaxado, cinza poluído, mas elegante de quem escolhe o lado maldito da rua brasileira.
Pra quem não mora em São Paulo, é importante situar a Rua Augusta. Ela é uma das primeiras vias cortadas pela Avenida Paulista pra quem vai sentido vila Mariana, o que forma uma divisão impiedosa dos que têm, dos que querem ter e dos que são felizes mesmo não tendo nada. Mesmo assim é muito difícil saber aonde começa o lixo, o luxo e o inferno, mas é certo que todas essas instâncias coexistem nesse pedaço de asfalto.
A sugestão é comer a rua pelas beiradas, agindo como bom pedestre. Existe diferença também em visitá-la de dia e de noite. Geralmente, a “baixa” Augusta dorme quando chega a luz do sol enquanto que a noite ela pulsa. A madrugada é o tempo dos inferninhos, dos botecos, dos cineclubes, das sinucas, dos puteiros das putas e dos travestis no sinal. É também o tempo das baladinhas alternativas, dos carinhas hype de calça xadrez, que sonham estar em Manchester dançando ao lado do Vale do Anhagabaú.
De dia ficam os cinemas mais caretinhas, os livreiros, as lojas de discos, as padarias com mesinhas na frente. A baixa Augusta abaixa as portas para que a classe média de carro do ano possa parar no semáforo sem ser incomodado pelos convites dos travecos.
Tem isso também. A Augusta é um dos núcleos da cultura de massa em São Paulo. Todos lá são anônimos e/ou heterogêneos, consumistas e/ou hedonistas, violentos, tarados e/ou bêbados. Em locais como o Studio SP, por exemplo, é possível observar um pouco dessa arte subterrânea, que não tem muito a ver com o verde e amarelo brasileiro, mas sim algo de cor indefinida, ou de todas as cores, pois essa hibridez da Augusta não poderia se fechar apenas num jeito de cantar, de pintar, de se expressar, de dançar, de falar. Tudo ali se reúne, assim como nos botecos anônimos, que simplesmente abrem e fecham as portas sem se importar em botar um letreiro cheio de fru-fru na fachada.
Mesmo assim, nada mais brasileiro que ter na mesma rua o lixo e o luxo. Só que o lixo nesse caso não é o inferno. É o luxo feito óleo, que não se mistura com o mesmo pedaço de rua que compartilha. É o que sobrou do glamour dos 60 e 70, época em que a Augusta era uma das ruas mais chiques e freqüentadas pela elite da cidade. Lá pra cima, subindo a via sentido Conjunto Nacional, você encontra as boutiques caras, as galerias afrescalhadas, os cafés, os hóteis caros, tudo muito chato e no lugar.
Sugestão: o escritor pernambucano Xico Sá, uma espécie de Nelson Rodrigues da Augusta, talvez seja um porta-voz muito mais adequado que eu para falar sobre a rua. Ele publicou em 2007 o livro “Caballeros Solitários Rumo ao Sol Poente”, um romance ficcional inspirado em muitos dos personagens que pôde observar nos seus mais de 10 anos de centrão paulistano. Para ele, a gente maluca de Augusta e arredores anda a cavalo em busca de um sentido qualquer para gastar as horas. Enquanto isso, o idioma da cidade vai mudando para uma espécie de portunhol selvagem, símbolo da crescente chegada de imigrantes bolivianos aos subterrâneos paulistanos.
Rua Augusta, Lisboa, Portugal
por Manuel Marques
Ficou o Arco para trás é aproveitar que o Pessoa, o Marquês e outros tais famosos e gulosos ofuscantes da nossa vulgaridade . É aproveitar de sandes com presunto na mão, algum inglês a cantar, as meninas a experimentarem os colares com missangas de tangas.
Se olhar bem fica apenas a memória de logo a seguir ao Arco, o poeta da tanga de tango e morango, entrando pela rua adentro se encostar à espera da chegada do Deus menino que o salvasse da perdição, da falta de crença
Olha antes em frente para as esplanadas carregadas, canecas de cerveja a transbordar, os marinheiros famosos, pastosos e gulosos e as meninas aos berros pela loja da moda e que roda a cabeça sem pressa sem dó deles.
Mas num qualquer canto na opulenta constelação de fama e de escama um sem abrigo pede esmola cai morto e absorto fica a estátua humana apenas à procura do tostão e então…
Apenas um bife na montra das gambas da cerveja gelada e mais à frente apenas chocolate, templo de perdição e espera, espera, vou-te comprar um daqueles bem doces antes que o Rossio chegue e os carros se intrometam no teu caminho!
O arco da Augusta
Se olhar para a direita talvez veja o Pessoa. Ah mas não o teria visto aquando do nascimento da república, não se entristeça não…
Olhe lá para a direita, mesmo sem binóculos, absinto e alguém com tinto, Caeiro ou um pedreiro, o Martinho servia o café, mesmo ficando de pé, mesmo à porta, a ver passar a terra do Marquês de Pombal vinda de barco, do Terreiro do Paço na maré baixa, ainda nem ponte havia nem o Cais servia para o que serve.
Mas olhe lá para a frente, estique o pescoço preguiçoso, contemple o raio do Arco, a suja memória do Viriato traído. Ah e lá estava o raio do Marquês, talvez de fisga em punho, para quem lhe mexesse na terra em coche turbo, modelo topo de gama.
Mas que importa isso, na expansão dos mares, dos para sempre vilipendiados em nome do oculto Senhor.
Importa olhar para o triunfo de um Arco e se olhando para a esquerda ainda não se visse o rei a sangrar de morte, ou para a direita e o Pessoa imortalizando em frente, para lá do Arco outro mundo nascia…»
Tags: arte subterrânea, arte urbana, constrastes culturais, cultura de massa, Lisboa, patrimônio histórico, Rua Augusta, são paulo, TRAÇOS CULTURAIS, vida urbanaPOLÍTICA DE COMENTÁRIOS
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Faz tempo que não vou à rua Augusta, mas é realmente um outro mundo.
Deixei comentário no blog
A Rua Augusta é um marco da cidade de São Paulo. Tem história, personagens únicos, carisma. A versão portuguesa eu não conhecia, mas a achei simpática e interessante.
Olá!
Eu não conhecia nada a respeito da Rua Augusta de Portugal, mas a de São Paulo eu conheço muito bem, apesar de fazer bastante tempo que passei por lá. A Rua Augusta de São Paulo é um dos símbolos da cidade de São Paulo, onde habita diversas espécies de pessoas que respresentam muitas tribos da cidade.
Abraços
Francisco Castro
A Rua Augusta em Lisboa é um ícone da vida lisboeta.
Quem não conhece?… Quem não quer conhecer?…
A Rua Augusta é um marco da cidade de São Paulo. Tem história, personagens únicos, carisma. A versão portuguesa eu não conhecia, mas a achei simpática e interessante.
Olá!
Eu não conhecia nada a respeito da Rua Augusta de Portugal, mas a de São Paulo eu conheço muito bem, apesar de fazer bastante tempo que passei por lá. A Rua Augusta de São Paulo é um dos símbolos da cidade de São Paulo, onde habita diversas espécies de pessoas que respresentam muitas tribos da cidade.
Abraços
Francisco Castro
Sua revista é muito boa!
E ainda vou conhece a Augusta!
Tenho essa curiosidade!
Abraço!
A augusta é uma cidade de São Paulo em miniatura … Tem de tudo, de todos os tipos e agente sempre descobre algo surpreendente e inesperado …
Já frequentei.
Olá, esta é a minha primeira visita a seu blog e com certeza na sera a última. Adorei seu texto sobre a ru Augusta, ela faz parte do meu roteiro qdo vou a sampa.
Um abraço