O Chão do Padre
Malaca e Cingapura, às vezes tão distante, outras, nem tanto..

Restoran de Lisbon, em Malaca: lingua 'kristang' tem grande influência do português e está entre os idiomas ameçados de extinção segundo a UNESCO
Talvez eu devesse ter tratado deste assunto anteriormente, pois a matéria é bastante rica. De qualquer modo, hoje enfim resolvi falar um pouco sobre Malaca, Cingapura (Singapura, em português lusitano) e suas relações com as demais regiões de língua portuguesa. Mais uma vez, muitos não entenderão de que modo esse estado malaio (Malaca) e um país como Cingapura se encaixam no assunto desta revista. A presença dos dois aqui é facilmente
explicável e naturalmente deduzível.
Malaca, se caso alguém já se debruçou sobre a história dos Descobrimentos Portugueses no século XVI, sabe que era um importante entreposto comercial português e fortaleza das mais importantes do império luso na Ásia. Era a porta de entrada para o extremo Oriente (China, Japão, Coreia etc). Seu controle, portanto, dava uma imensa vantagem nas relações comerciais globais que surgiam à época. Cingapura só seria fundada no início do século XIX (mais precisamente, 1819), quando Sir Stamford Raffles, militar britânico nascido na Jamaica pegou um pântano de meia dúzia de casebres na Península Malaia e deu início ao que se tornaria um dos mais importantes centros de comércio e finanças do mundo.
Aqui há dois pontos realmente incríveis. Para encurtar a história, os portugueses deixaram Malaca em 1641. Em Cingapura, nunca botaram os pés (a não ser que você conte uma meia dúzia de padres nas igrejas locais como uma forma de dominação). Como é que dois lugares assim, completamente distantes de esferas de influência tanto de Brasil como de Portugal, Angola, Moçambique, etc. foram guardar formas de expressão e cultura tipicamente lusas?
Comecemos pelo título do artigo. O “Chão do Padre” (Padri Sa Chang, ou Chang di Padre, em português de Malaca) é o centro da comunidade lusófona em Malaca. É o bairro português de Malaca, assim como existe o bairro japonês em São Paulo, Brasil. Foi idealização por um padre francês que temia pela diluição da comunidade cristã-lusófona de Malaca, e conseguiu junto ao governo local que seu rebanho fosse alocado em uma área própria, onde pudesse manter suas tradições e religião. Hoje em dia, tais descendentes de portugueses e malaios possuem o estatuto de “bumiputra” uma termo que denomina que eles são (ao lado de outros
grupos étnicos na Malásia) uma espécie de minoria étnica, parte do patrimônio humano da Malásia.

Cingapura (ou Singapura), mesmo nunca tendo sido colônia portuguesa, recebeu influência lusófona via Malaca
Quanto à música, o leitor português já deve ter ouvido alguma vez falar na “desgarrada”. O brasileiro, por sua vez, já deve ter ouvido falar no “repente” ou “embolada de pandeiro”, certo? Ambos cantos improvisados de desafio (isso sem contar outras manifestações não menos importantes no Brasil, como o cururu, por exemplo; só me valho do exemplo do repente nordestino por acreditar que hoje este é mais facilmente reconhecível).
Muito bem, em Malaca, e em CIngapura, havia até pouco tempo atrás o “mata kantiga”, um desafio também, só que entre homens e mulheres. Ora trocavam versos amorosos, outra hora, era puro desafio, com um tentando humilhar o outro da forma mais graciosa possível. A última grande cultora do gênero, Rosil de Costa, morreu em Malaca em 1986. Mas, não há nada a temer. O gênero ganhou força fora de Malaca e Cingapura.
Hoje em dia, um gênero de música malaia muito apreciado, o “dondang sayang” é uma cópia fiel da mata kantiga malaquenha, só que cantada em malaio. Não precisávamos nem contar com o mata-kantiga: há ainda o “joget”, o “branyo”, a “sarampa”, estilos que mesclam influências moçambicanas, portuguesas e malaias. Isso sem falar no “ronggeng”, que se desenvolveu em Java, na época colônia portuguesa, e foi encontrar asilo em Malaca.
Há a culinária, vários pratos portugueses estão lá, como o sarrabulho, os pastéis de nata, e ainda a cozinha ”nyonya-baba”, que mistura influências chinesas, malaias e lusitanas. Celebra se carnaval nas ruas de Malaca, e entre os descendentes euro-asiáticos de Cingapura. As festas de São João (San Juang) assim como em Portugal ou Brasil são tradições. O cristianismo é a religião predominante entre os mestiços de portugueses e malaios, tanto que se referem a eles mesmos como à sua cultura, língua e tradições como “kristang” (cristão). Há adivinhas, folclore, peças de teatro, trovas populares e poemas, tudo bastante similar ao que se encontra no Brasil e em Portugal.
E é claro, não poderia deixar de faltar espaço para a descrição do grande tesouro que ainda resiste por aquelas paragens que é o crioulo “papiá kristang”, ou falar cristão. É uma evolução do português do século XVI cultivado naquela região, misturando alguma semântica e sintaxe da língua malaia. Isso não quer dizer, porém, que seja uma língua de todo incompreensível. Ela possui a sua dinâmica, separada do modo que está, das outras áreas lusófonas, mas, mesmo assim, mantendo uma lógica que a aproxima da língua portuguesa. Todo o novo termo que se necessita verter para o kristang é feito seguindo praticamente uma lógica lusófona. Por exemplo, a fotografia foi inventada muito depois dos portugueses terem deixado Malaca, mas, ao invés de simplesmente adicionarem palavras em inglês ao seu idioma (algo que nós brasileiros ou portugueses fazemos costumeiramente), eles procuraram adaptar aquela novidade à sua linguagem. Então, o “take a picture” (tirar fotografia), vira, em kristang, “tirá pintura”…
Mas e Cingapura? O assunto remete ao meu antigo anterior…NÃO PRECISA SER EX COLÔNIA DE PORTUGAL PARA SE CONSIDERAR LUSÓFONO. Aqui, Portugal nunca esteve presente…o que houve foi um influxo enorme de gente de Malaca destinada a povoar a então nascente colônia britânica de Cingapura. O kristang transplantou-se e adaptou-se perfeitamente em solo cingaporeano. Lá, não há só descendentes de portugueses, mas também de ingleses, holandeses…por isso, em Cingapura se fala em “Eurasiano” para se definir toda essa gente, inclusive os emigrados de Malaca. Mas mesmo esses descendentes de outros europeus acabaram por cultivar o português de Malaca, suas músicas, nomes e tradições.
A bem da verdade, foram quase que “absorvidos” pela cultura kristang. Além dos eurasianos, muitos chineses que mantêm contato com essa comunidade sabem se expressar em kristang. Hoje em dia há associações kristang e euro-asiáticas por toda Cingapura e Malásia, muitas com rancho folclórico bem ao estilo português, cantando e dançando “O Malhão”, “Ao Nosso Algarve”, o “Vira di Bairru Portugues”, e coisas do gênero. Há um ano e pouco, um desses descendentes, o cingaporeano John Klass, cantor e radialista lançou uma versão remixada e repaginada da música símbolo dos kristang, “Jinkli Nona” (Dona Cingalesa). Imagine um natural do nordeste do Brasil relançando em estilo “Macarena” a canção “Mulher Rendeira”…é claro, foi um sucesso estrondoso naquelas paragens.
Infelizmente, tudo não é festa. O uso do kristang quase que findou durante o século XX. A língua consta de um relatório da UNESCO sobre línguas em ameaça de extinção e ainda corre sério risco de desaparecer. Interessantemente, os próprios kristang e eurasianos estão ficando cada vez mais interessados em defender a língua, e promovem cursos, além do uso mais frequente de seu patuá. Estima-se que, em 1997 mais gente falava kristang em Malaca e Cingapura do que em 1987.
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: é brasileiro, advogado, intérprete e tradutor de mandarim (chinês) e é um apaixonado pelas culturas lusófonas. A coluna TÔ NEM AÍ é publicada todas as semanas na Revista O Patifúndio! |
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Texto muito bom!
Desconhecia todos esses pormenores da influência lusa em Singapura. Já copiei para mostrar aos meus adolescentes.
Parabéns!
Luísa
Sou suspeito pra falar do Emerson. Ele pra mim é meu professor de lusofonia, disciplina que creio nunca haverá em sala de aula. E o que eu mais quero é compartilhar esse conhecimento para e mais pessoas. Entender a lusofonia e conhecer as nossas raízes, responder a alguns porquês e ter uma noção mais clara do que é viver num país lusófono e colonizado.
Obrigado por compartilhar
Um abraço
Muito bom!
Aprendi muito aqui.
Malaca, até hoje era sinônimo pejorativo de malandro.
Valem a pena lembrar também que o cururu é muito difundido em Mato Grosso. Eu cresci ouvindo esse ritmo por lá.
desde que descobri este website so tive alegrias…no Brasil pouco se valoriza a língua Portuguesa, estou conhecendo um pouco mais das raízes de nossa cultura…e os povos que a falam, viva a língua Portuguesa…valeu…fuiiiiiiiiii
Confesso que eu já possuia algum conhecimento sobre a comunidade “kristang” de Málaca. O sr. Émerson com seus preciosos detalhes, enriqueceu ainda mais meus conhecimentos.
Acho que está mais do que na hora de batalharmos para que seja criada uma disciplina chamada lusofonia nas escolas do Brasil.