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Turma do Gueto ou quem devolve o meu Ipod?

por
elisio@opatifundio.com
27 de February de 2009

rsz wal 300x203 Turma do Gueto ou quem devolve o meu Ipod?Se já leu o título do artigo, então deve ter achado estranho estar a cobrar o meu ipod aqui na revista, mas este é o lugar mais certo para eu fazer isto neste momento, simplesmente porque estávamos a discutir há pouco o “problema” da influência brasileira na lusofonia.

Agora complicou ainda mais: o que o Brasil e as suas influências têm a ver com o meu ipod? Nesta história você vai ver que tudo se encaixa como um quebra-cabeças (um miúdo russo de três anos conseguiu resolver um quebra-cabeças em menos de três minutos, alguém pode confirmar isso?).

A história de hoje aconteceu exatamente quando eu acabava de chegar no Maputo, para mais um ano de faculdade, no início de 2008. Confesso que até aquele tempo eu não conhecia um ladrão! Claro que já tinha visto ladrões de longe, no Chimoio. Os ladrões de lá são diferentes dos ladrões de Maputo, pois eles têm motivos para roubar (se é que algum dia existiu um motivo para tirar as coisas dos outros). Se digo que eles têm motivos para roubar, é porque ladrões do Chimoio são uns “pés-descalços”, como se diz por ai, e se roubam é por causa da fome e mais nada. Falando em ladrões do Chimoio, na casa de um vizinho meu, sempre que pegam um ladrão a tentar invadir, dão-lhe um banho de água congelada. E por ai o que fazem aos “gatunos”?

Então eu vim para Maputo com esta idéia na mente: Se eu visse um “pé-descalço” a controlar os meus passos, então tinha de estar alerta, pois era um ladrão. Mas também já me tinham ensinado uma coisa: Nas cidades grandes ninguém é amigo de ninguém (então o “Ninguém” tem muitos amigos!), e se você estiver a sofrer um assalto em plena luz do dia, nem adianta pedir ajuda que ninguém vai te ajudar, o máximo que pode acontecer é o povo ajudar os ladrões a te assaltar! Então, eu já estava preparado para viver na cidade grande chamada Maputo.

No dia 12 de Fevereiro de 2008, fui pedir emprestado um Ipod, que eu mesmo havia oferecido a pessoa que me emprestou para, por coincidência, escutar o novo som do “mano Azagaia”. Tive de ir baixar o som numa lan house, pois em casa não tinha nem net nem nenhum outro dispositivo que emitisse qualquer barulho e que pudesse chamar música. Mas isto não era um problema porque acabava de chegar de viagem e estava “cheio de mola”. Mal acabava de baixar o novo som, um amigo veio me visitar e tive de o acompanhar até a zona da baixa para ele apanhar o seu “chapa 100” para casa. Ai é que começou o problema.

Ao voltar da baixa, passando de uma rua pouco movimentada, haviam uns cinco jovens vindo na minha direcção. Meu cérebro ativou logo o sistema automático de determinação de ladrões: Os jovens estavam bem vestidos, com roupas muito mais caras que as minhas, alguns até tinham também ipods, relógios caros e tudo o que os jovens gostam, ou então não gostam, mas usam somente porque Lil Wayne e 50 Cent também tem! Então, como eu tinha na mente que ladrões eram uns pés descalços, não tive medo deles, e continuei escutando o meu novo som, numa completa folgadeza.

Eles chegaram ali perto, pediram para ver meu ipod e eu entreguei, pois ladrão anda sujo e aqueles não estavam.

ipod nano 3rd 300x274 Turma do Gueto ou quem devolve o meu Ipod?

Ei puto, isto aqui é a 'turma do gueto', disseram os ladrões de Ipod em Maputo

Fazendo um parênteses, você conhece a série “Turma do Guetto”, da Record ou Miramar (rede Record moçambicana)? Pois então ela também faz parte da história, e logo saberás como.A série passa aqui em Moçambique, na Miramar, e como eu disse num artigo anterior, nós queremos copiar o estilo de vida dos brasileiros, nem que seja dos traficantes da série. Então, depois de ver o meu ipod e me mostrar o deles, veio a parte mais quente da história. Todos metem as mãos do bolso e o que tiram? facas:

-Ei puto, isto aqui é a “turma do guetto”, e você tem de nós entregar 200 paus ou não te devolvemos o teu ipod

Disse o boss do grupo. Eu era um pouco esperto para saber que eu havia comprado aquele ipod a 1000 paus, então porquê os ladrões iriam me devolver por causa de 200 paus?

-Não tenho 200 paus aqui, mas tem uma ATM aqui perto, podemos ir para lá e tirar os 200 paus do banco. Era eu nesse tempo. A idéia era ir até a uma ATM, onde encontraria seguranças armados para me ajudar, mas eles não concordaram com a idéia, e tive de deixar os tipos “bazarem” com o meu tão querido ipod, que aliás, como disse no início, já havia oferecido alguém, que ia me cobrar um novo depois.

Várias vezes tenho visto a Google sofrer processos no tribunal, porque um individuo sem nada para fazer falou mal de uma pessoa no Orkut, ou fez upload de um vídeo protegido no Youtube. E agora eu penso: Não seria o caso de eu processar a Record por eu ter sofrido um assalto baseado na série que eles passam? Este é mais um caso da influência brasileira em Moçambique.

 Turma do Gueto ou quem devolve o meu Ipod?

Elisio Leonardo

é moçambicano, estudante de informática da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, e é autor do site MZ Noticias.

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15 comentários

  1. Bom artigo Elisio. Realmente é lamentável que estes jovens quere ser como os atores da TV. Simplesmente metem na cabeça que são a "turma do gueto". O problema é que a TV é perversa. Ela manipula as cabeças mais fracas e as domina facilmente. Esta na hora da população virar as costas para novelas e seguir a risca um slogan da MTV: "Desligue a TV e vá ler um livro".

  2. É Elisio a Tv é uma escola do crime, e como só se copia o mal, ai estamos, em Maputo como em Portugal.

  3. Engraçado é que essa história veio numa conversa por msn que eu tive com o Elisio. Aí ele contou a história dessa gangue, que em Maputo se auto-intitula de "turma do gueto". Fiquei a pensar sobre os limites da influência da TV brasileira naquelas terras. Se eles observam aqueles signos da minissérie, se apropriam e os utilizam para fins excusos, no mínimo deveríamos propor um debate sobre isso e foi o que fizemos durante todo o mês de fevereiro.

    Valeu.

  4. Para sociedades problemáticas como as do Brasil e do Moçambique, certamente a TV influência muito. A televisão por aqui joga o jogo que nós queremos ver. A identificação, mesmo não sendo obrigatória, ocorre com a maioria da população. Distorções de entendimento como a da "turma do gueto" fazem parte também de estados em que, propositalmente, não se investe em bem estar, em alternativas à televisão e que não há estimúlo ao senso crítico da população.

    Um abraço

  5. Bom artigo Elisio. Realmente é lamentável que estes jovens quere ser como os atores da TV. Simplesmente metem na cabeça que são a “turma do gueto”. O problema é que a TV é perversa. Ela manipula as cabeças mais fracas e as domina facilmente. Esta na hora da população virar as costas para novelas e seguir a risca um slogan da MTV: “Desligue a TV e vá ler um livro”.

  6. Pedir Maiscedo says:

    É, meu caro: agora, o jeito é reclamar com o Bispo… No caso, o Bispo Edir Macedo, dono da Record!

  7. Manúh* says:

    concordo com o cara do comenatrio acima…
    agora é reclamar esse povo não tem nd na mente só pode

    beejo

  8. Arthur says:

    Nada a ver com o Brasil. Se os moçambicanos tem cabeça fraca problemas deles. Aqui no Brasil ninguém sai imitando novelinha.

  9. Boingo says:

    Lendo este relato, me lembrei de um artigo sobre a guerra em Serra Leoa, onde os jovens soldados de 09, 10 anos adotam nomes como ‘Coronel Rambo’, ‘Tenente Excalibur’, ‘Capitão Bradock’ e por ai afora.
    Primeiro que é revoltante ser assltado, depois, mais revoltante ainda é ser assltado por uma trupe de marmanjos que copia algo da tv, como se fosse bonito. Faço sinceros votos de que o amigo Elisio em breve compre outro I pod. muito mais moderno e melhor que o que os putos lhe furtaram. Outra coisa que o relato lembrou-me foi a menção de ele não se intimidar pelo fato dos gatunos estarem bem vestidos, ao melhor estilo do provérbio “Quem vê cara não vê coração’ ou ‘As aparências enganam’. Digo isso, porque aqui no Brasil muitos assaltantes de banco, que usam armamento pesado e são muito bem organizados, tem tido o hábito de entrarem de terno e gravata nos bancos, para não levantarem suspeitas.
    Só para encerrar, quero citar o comentário acima, do Artur, que disse que aqui no brasil ninguém imita novela. caro Artur, em que brasil você vive? porque no Brasil que eu vivo, basta sair algo novo nas novelas da Globo para o povo imitar no dia seguinte. Depois da novela O Clone por exemplo, várias meninas foram batizadas como Jade e muitas mulheres passaram a usar acessórios arabes no vestiário. Se você não tem nada de bom para alar (Ao dizer que os moçambicanos tem cabeça fraca) reflita na sabedoria do silêncio, pois ninguém do outro lado do Atlântico é obrigado a ler suas baboseiras.

  10. O_SKILL says:

    Yeah o artigo é muito bom, mas tenho uma observação pessoal. O facto da guengue se chamar Turma do Gueto isso não reeleva automaticamente a possibilidade duma influiência directa das actitudes dos personagens da Turma do Guetto porque certamente esta sem ou com a Turma do gueto seria uma quadrilha talvez até com um outro nome sonante ou não…O facto é qu eles “os Guadjissas” gostaram do nome para os dignificarem como do Gheto. Primeiro apereceu a quadrilha depois o nome certamente e não a o nome depois a quadrilha…Isso na minha opnião…Influência é uma coisa natural isso temos que aceitar algo que devemos contestar é atitude destes cidadãos independentemente do nome que oscentam…Pazz…

  11. justino says:

    ola pessoal eu so fa da turma do gueto eu nao perco nem sequer um minuto pra ver atelenovela acho que e educativo ele mostara arealidade em que vivemos e nos ajuda a escolhermos o caminho que devemos andar.

  12. mylena says:

    adorei comprei o meu e estou muito feliz com ele

  13. Dercio says:

    e interessante gostei da historia… os tais assaltantes chaman de “rambadores aque em maputo” mas quital se escrevesses algo sobre o tribalismo em moz? diz k somos xingondos….

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