ARTE» BRASIL

A cultura do “catadão”

por Michell Niero
michellniero@opatifundio.com
22 de December de 2008
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Enquanto a sociedade do consumo celebra mais um ano de sucesso, sobram nas gôndolas natalinas o fracasso do que foi um dia a tentativa imoral de confundir o gosto musical do brasileiro

catadao1 A cultura do catadão

O primeiro sentido é o visual. À frente, uma montanha de CDs com um convidativo letreiro em vermelho berrante, anunciando a oferta de poucos reais. Depois vem o cheiro de plástico novo, proposital e que traz à cabeça dura do ser humano a necessidade de comprar. O último sentido é o tato, o contato da mão com o produto, falta pouco para acalmar o desejo mórbido pelo consumo. No fim, já com a ansiedade nas alturas, o sujeito nem repara muito na capa. Joga o cd no carrinho e vai para o caixa com a certeza de que ganhou o dia.

A época de natal traz ao horizonte dos supermercados os famosos “catadões”. Verdadeiros amontoados de CDs encalhados no estoque oferecidos a preços módicos. O que pouca gente sabe é que, por detrás disso, já houve uma indústria especializada em enganar o consumidor.

Antes do ocaso provocado pela pirataria e pela popularização do mp3, gravadoras picaretas colocavam no mercado as chamadas “produções fantasmas” assinadas por bandas e artistas com nomes parecidos de gente famosa (UB44, The Beetles, Shaquille, Shanaia T). Na capa, tudo lindo, a foto e o nome do artista na parte frontal e a lista das músicas no verso. O preço convidativo enquadra o produto naquela lista de presentes perfeitos para um natal em recessão do fim dos anos 90. Mas, ao fazer um exame mais detalhado sobre produto, encontramos em letras miúdas uma observação dizendo que a compilação dos Beatles na verdade é um tributo gravado pela banda “Forever Young” (mais exemplos nas fotos acima) .

Gravadoras como Paradoxx, Oliver e Kives (que existe até hoje) fizeram a fama durante a era do CD utilizando este artifício. Para alimentar o negócio, músicos eram contratados para suprir esta demanda – muitos deles famosos mas que hoje se mantêm sobre a aura do sucesso.

Suposto acústico de Marc Bolan e T-REX lançado pela Kives era vendido em grandes redes supermercado no fim da década de 1990. Marc Bolan, morto em 1977, certamente não viveu para ouvir seus sucessos em versão desplugada

Suposto acústico de Marc Bolan e T-REX lançado pela Kives era vendido em grandes redes supermercado no fim da década de 1990. Marc Bolan, morto em 1977, certamente não viveu para ouvir seus sucessos em versão desplugada

Outro canal utilizado por estas gravadoras foram as rádios, que durante a década de 90 viu florir o sucesso de suas versões impressas nas bancas de jornal. A rádio Jovem Pan, por exemplo, transformou uma coletânea de artistas fake em disco de ouro (vendagem de 100 mil cópias na época) no auge de artistas como Spice Girls, Shakira e Garth Brooks (que viraram Space Girls, Shaquille e Guy Brooks, respectivamente e sem erro de grafia). Pelo menos mais dois exemplos parecidos conseguiram chegar ao patamar dourado de vendagem utilizando este mesmo esquema.

De acordo com uma matéria assinada pelo jornalista Celso Masson e publicada na revista Veja no início dos anos 2000, estes sub-produtos da indústria cultural conseguiram espaço no mercado fonográfico graças a manobras de algumas gravadoras de fundo de quintal, que funcionam principalmente na Itália, Inglaterra, Alemanha e Espanha e que ficaram responsáveis por despejar estas “criações” nos mercados latino e asiático.

Mas é preciso ir mais longe para chegar as raízes da picaretagem na indústria fonográfica brasileira. Já no fim da década de 50, gravadoras como a RGE (Rádio Gravações Especializadas) aproveitavam a falta informação do público consumidor para soltar no mercado conjuntos brasileiros como se fossem de fora. A prática ganhou pernas e se transformou em lucro fácil no auge do programa Jovem Guarda, quando se tornou um hábito lançar versões em português dos Beatles antes que o original desse as caras por aqui. A idéia era passar a sensação de que “os Beatles gravaram aquela do Renato e seus Blue Caps”. Até conseguir esclarecer, a tragédia e o sucesso comercial estavam feitos.

Durante os anos 70, a mesma RGE lançou coletâneas suspeitas sob o nome de Sounds Like Carpenters, Elvis Presley Style e Susan Quacker (genérico da Suzi Quatro). Quem conta tudo isso é Airton Mugnani Jr., um dos maiores pesquisadores de música brasileira.

Com o aparecimento do MP3, a máquina de ganhar dinheiro da indústria fonográfica foi desmontada, mas mesmo assim os velhos tributos continuam à disposição nos catadões, cada vez mais baratos. Por certo, as grandes redes varejistas, que um dia foram cúmplices deste negócio sujo, morreram com este mico na mão.

Há quem diga também que utilizar arquivos de música fere os direitos autorais e patrimoniais, mas como vimos a ética sempre andou meio escondida nas entranhas de quem um dia decidia o que deveria rodar nas rádios, nas vitrolas e nos tocadores de CD. Diante desse quadro, fazer uso do que se convencionou a chamar de pirataria não seria o mesmo que agir em legítima defesa diante de uma ameaça?

Michell:
é brasileiro, jornalista, pós-graduando em Globalização e Cultura pela Fespsp. Em 2008 idealizou a Revista O Patifúndio! e a mantém até hoje, graças a sua segunda paixão, a lusofonia, e aos colaboradores, verdadeiros amigos espelhados em cada território onde a língua portuguesa é exercitada.
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24 comentários

  1. alceu says:

    Cara gostei de tua escrita, até porque sou comprador de discos e cd’s , logo ja sofri esta desventura ,este engodo .
    além disto gostei da forma que escreves curto rápido direto
    até

  2. Show de post…
    me lembro até hoje que a uns 15 anos atrás, eu e meu irmão, empolgadíssimos, compramos um CD dos “maiores temas de filmes de hollywood”, quando fomos ouvir…
    não tinhamos reparado num detalhezinho na capa – performed by the London Starlight Orchestra – o CD custou caro, e até hoje temos raiva disso!

  3. manuel barral says:

    muito bom o artigo. muito bom mesmo. já tinha lido sobre isso e dei uma lida no artigo da Piaui sobre aquela farsa inglesa.

  4. César says:

    Estávamos precisando de um artigo como este. É por isso que a música, bandas e cantores tradicionais perderam espaço e contuam perdendo aé hoje. Cabe a nós manter viva a tradição. Feliz Ano Novo e sucesso nas suas realizações.

  5. Petrodon says:

    Muito boa e oportuna a matéria, velho. Mas no capitalismo atual, onde vemos que não há ética para com o consumidor, a única arma é realmente apoiar a troca livre de arquivos.

    Estranhamente (ou propositadamente), as majors (nem tão majors mais) utilizam de força bruta (judicial) para intimidar aqueles mesmos consumidores que um dia foram impelidos a comprarem seus produtos… É como dizem por aí, tempos desesperados exigem medidas desesperadas. E a indústria está desesperada. Muito.

  6. Pablo says:

    É realmente convidativo ver os discos de seu cantor preferido a preço baixo, mas raramente é verdade …

    http://sombradaamendoeira.blogspot.com/

  7. Dan Cesare says:

    convidativo e legal…

    o blog mto bom..:)

  8. LILITH says:

    SEI LA SEI BLOG E LEGAL REALMENT PARECE REALMENTE UMA REVISTA PARABENS

  9. paula says:

    legal, isso aqui tem qualidade, gostei do blog..
    é legal ver os preços dos cds que gostamos abaixo do preço (nossa essa frase foi ótima¬¬) bjão

  10. Mme. Mean says:

    Gente, eu ainda lembro das várias vezes em que enchi o saco da minha mãe para comprar CDs e descobrir em casa que eram tributos mal feitos…

  11. Márcio says:

    Rigor nas leis de direitos autorais inibiriam esse tipo de prática. Falta vontade ou sobram interesses em continuar com esse tipo de produto.

  12. Dan Cesare says:

    mto legal…:)sempre bom respeitar direitos

  13. andre says:

    eu nao compro cds – parei nos vinis. todos nos somos manipulados e nada mais – eu produzi bandas musicais reconhecidas nos anos 90 e cansei de botar grana nas maos do programadores de som das radios para tocarem nossas musicas de maneira a fazerem virar hits – quanto mais paga mais a musica toca.

  14. andre says:

    completando: dinheiro chama mais dinheiro.

  15. Beatriz says:

    Eu nem sabia direito onde comentar rs
    mas é muito bom esse seu blog (se é que pode ser chamado assim. Ta mais com cara de site.)
    Beijos!

  16. Gustavo Zago says:

    prefiro os catadões de DVD!
    Nestes encontramos verdadeiros clássicos por pouco dinheiro!!

  17. Se procurar com alma, acha coisa boa mesmo…

  18. Cassiano says:

    Excelente reportagem.

  19. Lizzie says:

    Excelente!
    Esses trambiques na indústria fonográfica além se terem sido frequentes de acontecer, não aconteceram apenas na indústria fonográfica. Acredito que seja natural a troca dos CD’s pelos mp3, 4, 5 ou seja lá qual número for. Essa ‘técnica-de-pirataria’ não é mais que a hipnose reversa: o “jogo-sujo” que eles fizeram com o público antes disso tudo, o público hoje faz com eles.

    Abç

  20. andre says:

    tche/ nao vai ser sobre o post/to me babando para te fazer uma pergunta/
    uma uniao dos paises de lingua portuguesa unificando tudo com um governo unico e em revezamento – unir economia – a força da brasil, o potencial turistico dos africanos e de timor…uma grande naçao de lingua portuguesa???
    ?
    ?
    e ai????? faz sentido?????????

  21. Quero comentar sobre o kuduro. Gosto da dança e do som, tem um programa que está fazendo um concurso do melhor dançarino de Kuduro, adoro e não perco qd os concorrentes vão se apresentar!
    Beijinhos!!

  22. marcio says:

    hum…
    nao gosto muito de musica…rs

    seu site e bem legal heim cara!

    Se puder passa no meu blog:

    http://paginadacomedia.blogspot.com/

  23. Gostei do post.
    Nunca havia parado para refletir sobre este assunto…

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