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ANGOLA» LÍNGUA

Calão, uma língua viva

por
vulamagina@hotmail.com
14 de December de 2008

Nascido da fala do povo e popularizado pela kuduro, um linguajar cheio de neologismos constrói uma identidade própria à língua portuguesa angolana

calao 300x203 Calão, uma língua vivaTá tá-se! Ta Bala! ***

Quem é de Angola ou se por ventura passou por aqui, com certeza já ouviu estas palavras.

Angola, um país africano profundamente marcado pela sua cultura e tradições possui um mosaico cultural rico e diversificado. Só para exemplificar, embora seja de “um só povo uma só nação”, se falam em Angola várias línguas dentre elas, sete são consideradas nacionais (Kimbundo, Umbundo, Nganguela, Kokwe, Kwanhama, Kikongo e Fiote) e dezenas de outras regionais (Songo, Mbangala, Nhaneca Umbi etc, só para citar algumas).

À pluralidade de línguas faladas em Angola junta-se outra bem mais interessante e fácil de se aprender. – O Calão ou “bilingui”. Na verdade são palavras da gíria utilizadas maioritariamente pela juventude deste jovem país de trinta e três anos de independência.

Há quem diga que o calão surgiu na tentativas dos negros na época colonial utilizarem palavras em línguas nacionais juntamente ao português para fazer com que os brancos colonizadores não percebessem na totalidade o que eles falavam uma vez que as pessoas que conviviam com os colonizadores eram obrigados a se expressar em português.

Hoje, o calão é uma maneira de falar português mas com influência das línguas nacionais e das estrangeiras no caso do Inglês e do francês.

Os leitores podem logo dizer: -“ Todos os países têm isso! Sim. Mas o calão de Angola tem uma particularidade, está sempre a obter palavras novas na medida que novas coisas vão parecendo, em outras palavras o calão adapta-se ao momento social de Angola. Para exemplificar vou falar de algumas palavras utilizadas frequentemente pelos jovens e não só, nos dias de hoje:

- Kilapi: o mesmo que débito, empréstimo.
- Cauele: Frio
- Papoite e Mamoite (Também Velho e Velha): Pai e Mãe
- Chalé: Quarto.

Agora vale utilizar algumas frases onde podemos empregar estas palavras:

- Bazei no Chalé daquele madié fazer um balumuca pra ver se o gajo me paga o kilapi.

Tradução: “Fui a casa daquele homem para lhe pressionar para que ele me pague a dívida.”

- Esta mboa é bué rija, mesmo com este cauele num quer me dar um abraço.

Tradução: “Esta mulher é muito difícil, apesar do frio não quer me dar um abraço”.

- Vou tramancar os pisos deste puto, depois é só aguentar o barulho do meu papoite ou da mamoite dele.

Tradução: “Vou me apoderar dos calçados deste rapaz depois eu me entendo com o meu pai ou com a mãe dele”

Tal como dissemos, o calão de Angola adapta-se em cada momento social do país, o que nos permite dizer que alguns termos podem ser utilizados durante algum tempo que pode ser longo ou muito curto.

Vale também dizer que o estilo musical Kuduro é neste momento um dos maiores veículos da expansão ou divulgação da novas palavras desta língua que tem demonstrado estar sempre viva.

Bazei! ***

** O mesmo que está bem (Português pt) ou legal (português br.)
*** O mesmo que “Fui”

 Calão, uma língua viva

Custódio Fernando

é angolano, natural de Malanje. É jornalista, radialista e escritor

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13 comentários

  1. Bazei é muito utilizado pala malta nova.
    São muito interessantes as expressões utilizadas, realmente não dá para perceber pivia (nada).
    Boa tarde

  2. Valeu Lucas. Vocês deram uma sumida e creio que deva ter sido por causa da faculdade, eu entendo isso, é uma loucura. Sempre quando posso, dou uma passada no Sem Fronteiras. Sempre encontro por lá comentários coerentes e sensatos.

    A língua, sem sombras de dúvida, sempre terá poder político. É assim na ONU, onde o Brasil continua lutando para incluir o português como uma das línguas oficiais, no Timor Leste quando foi instituido o português como língua oficial mesmo tendo apenas 1 ou 2% de falantes do idioma e assim vai.

    O caso do calão é emblemático pois junto a ele existe uma força cultural, que é o kuduro. Aqui no Brasil há também o seus "calões", mas somos um país de preconceituosos linguísticos. A fala das ruas dificilmente foge dos deboches da classe média.

    Valeu, um abraço.

  3. É isso que dá forças pra gente continuar. Ter bons parceiros como o blog da comunicação e aprender contantemente com meus irmãos de idioma espalhados pelo mundo. Um abraço.

  4. Custódio Fernando,

    Quando descobri a Revista Patifúndio – uma história que iniciou-se na época ainda de “Descobri a Pólvora”, fiquei encantado com a proposta: um diálogo entre falantes da língua portuguesa, espalhados pelos mais diversos lugares do mundo e identificados cada qual com as peculiares de sua cultura, que transformaram e conferiram mobilidade a nossa língua, uma das mais belas do mundo.

    Ora, o Calão, sensação no Brasil através da expressão musical Kuduro, têm particulares que ligam-se diretamente a história deste país chamado Angola. Uma nação que desde a colonização utilizava-se da língua para vencer os entraves impostos ao seu povo, como fora contado acima. Os anos de guerra civil e divisão partidária também desenvolveram essa capacidade “mutante” da língua.

    Parabéns pelo texto, merecidamente, o destaque da semana.
    Abraços.

  5. Mo ui, bateu bwe, avilo, nao me lembe, esse mambo e’ curtido, bwe falado, cunanga, Chavalo, nhoca (dinheiro), cassule, me da’ sangue, Kamba….esse ui tem muita lata. Chachero. Bilingueiro.

  6. audio push says:

    oiiiiiiiiii bazei

  7. Gyna says:

    ehheheheh…..Eu sou MMoçambicana…e tou adorandu esse Blog…eh muito Giro….assimm fiko a aprendendu u vosso Calao…!!!!

    adorei…

    bazeiiii……..

  8. Miguel don m says:

    O melhor calão do MUNDO ESTA EM ANGOLA.

  9. Jacy says:

    Só ‘Moçambicano’ Machuabo-Quelimane. Ñ aguento com Calão angolano.

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