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Antônio Batista, 83, filho de africano e catador de papelão

por
osvaldoppjunior@gmail.com
23 de November de 2008

Na semana após o Dia da Consciência Negra, celebrado em alguns estados brasileiros, a história deste lobo das ruas que traz consigo um legado bem menos divertido que um feriado prolongado

Antônio Batista, 83, filho de africano e catador de papelão

antonio1 Antônio Batista, 83, filho de africano e catador de papelão

Antônio em sua labuta diária - foto de Alessandra Carvalho/Midiamax

Pouco mais de dois séculos da morte de Zumbi dos Palmares, nascia um “pequeno lobo”, filho de um africano com uma brasileira de Minas Gerais. O lobo cresceu, casou-se algumas vezes, teve duas dezenas de filhos, e, agora, anda, diuturnamente, à caça de papelões pelas ruas de Campo Grande. “Meu nome é Antônio Batista Lobo”, silabou, enquanto conferia a correção da anotação no papel. Antônio traduz, em seu corpo e em sua história, os percalços mostrados pelas estatísticas quanto à situação do negro no Brasil.

Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, foi assassinado em 20 de novembro de 1695. Depois de 380 anos, em janeiro de 2003, a data se tornou, por força legal (Lei 10.639) e como resultado de esforços dos negros, o Dia da Consciência Negra. Na época da criação dessa lei, Antônio Lobo tinha 77 anos e podia ser visto fazendo o que faz hoje: passando pelas lojas do centro, recolhendo papelões e os amontoando dentro de um velho salão na rua Calógeras.

Na porta de “sua casa”, ele narra alguns acontecimentos de sua vida. “Meu pai veio criança da África em um navio”, traz à tona. O pai e a mãe de Lobo se conheceram em Minas Gerais e tiveram 19 filhos – pelas contas de Antônio, ele seria o nono da prole. A criação foi rigorosa. Lobo se recorda que, com oito anos, já ajudava na roça. Também aprendeu sobre honestidade. Após as compras no mercado, ele e os irmãos traziam as moedas do troco enroladas nas camisas para não perdê-las. “A gente amarrava as nicas na camisa. Se faltasse alguma, a disciplina era na hora” (sic), lembra e ri.

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Sozinho no monte de papelões

Sozinho no monte de papelões

antonio2 Antônio Batista, 83, filho de africano e catador de papelão

Aos olhos de Antônio, os papelões são papéis-moedas - Alessandra Carvalho/Midiamax

A família era de Teófilo Otoni, no interior de Minas Gerais. Há 20 anos, Antônio trocou essa cidade por Campo Grande. Após alguns trabalhos, passou a catar papelões, garrafas pets, latas e tudo que pudesse ser transformado em renda. Ele afirma que não ganha mal. Tem uma aposentadoria, que é completada pelas vendas do material reciclável. O papelão – carro-chefe – vale R$ 0,18 o quilo. “Meu carrinho é grande. Dá pra pôr até cem quilos”, orgulha-se. São R$ 18 puxados pelos braços octogenários.

Aos olhos de Antônio, os papelões são papéis-moedas. Para juntar o “dinheiro”, ele anda quase todo o dia e parte da noite. A cada duas ou três horas, retorna para o depósito improvisado e amontoa o material. Por vezes, deixa o carrinho de lado e sustenta o peso nos braços e ombros.

Se a contabilidade fosse simples e sem empecilhos, Antônio poderia, com o tempo que se dispõe para o trabalho, lotar quatro carros e fazer cerca de R$ 70 por dia. Mas nem sempre há papelões e nem sempre há compradores. Lobo coça a cabeça, encabulado, e revela que seus compradores estão há mais de mês sem recolher o material. O salão já está lotado, com cerca de 2 mil quilos de papelões segundo estima o catador – um tesouro com valor aproximado de R$ 350.

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Amontoado de familiares

Amontoado de familiares

antonio5 Antônio Batista, 83, filho de africano e catador de papelão

Tem 26 filhos, pela contagem de seus dedos - Alessandra Carvalho/Midiamax

Antônio mora e não mora no local. Ele conta que tem uma casa, mas que precisa dormir no salão para cuidar do papel. Confessa que fica mais tempo no “lugar de trabalho” que em sua casa. Seus companheiros são algumas latas, garrafas pets, muitos papelões, que também viram colchões… e Deus. “Aqui mora eu e Deus” (sic).

O descendente direto de africano relata, com satisfação, histórias de sua vida – demonstra gostar de ser ouvido. Certifica-se, com contagens pelos dedos, a quantidade de filhos. “Tenho 26”, conclui. O gigantesco número veio de cinco casamentos. Só do primeiro, fez-se viúvo. O fim dos demais casamentos foi a separação. Quanto aos netos, os dedos se tornaram inúteis. Ele ri e admite: “Não sei quanto que é não. São muitos”.

Em meio a suas histórias, Antônio releva seus apelidos: “O pessoal me chama de lobo danado ou de lobão”. A identificação com o sobrenome seria apenas uma coincidência. A explicação seria outra. “Eles me chamam assim, porque eu sou muito curioso. Não tem nada que eu não descubra”, diz.

A vida árdua seria, em parte, opção. Com tom levemente triste, ele diz que não se deixaria ser sustentado pelos filhos. “Eles já quiseram isso, mas eu não quis. E se eles não puderem mais me ajudar? Aí eu não ia ter mais força pra trabalhar. Eu não paro. Eu gosto de trabalhar”.

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Duas vezes menor

Duas vezes menor

antonio4 Antônio Batista, 83, filho de africano e catador de papelão

Muitos lobos: eqüidade salarial entre brancos e negros só se efetivaria em 2029, diz Ipea - Alessandra Carvalho/Midiamax

Antônio Lobo é um recorte de um universo, cujos problemas são transformados em números. Entre eles, o que diz respeito à renda. A saga, iniciada com a escravidão, segue com as disparidades de rendimento do então “trabalho livre”. Estudo realizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a partir de dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2007, mostra que o rendimento dos brancos é mais de duas vezes superior ao dos negros.

A razão de rendas entre brancos e negros oscilou em 2,4 (ou seja, os brancos recebiam 2,4 vezes a mais que os negros) de 1986 a 1998. A partir de 2000, a razão de rendas passou a cair, mas em um ritmo lento. Em 2007, chegou a 2,06.

Conforme os pesquisadores do Ipea, nesse compasso, a eqüidade salarial entre brancos e negros só se efetivaria em 2029 – ano em que Antônio Lobo completa o seu 104º aniversário, se suas forças não o abandonarem.

 Antônio Batista, 83, filho de africano e catador de papelão

Osvaldo Júnior

é jornalista, tem 35 anos e dois filhos lindos (10 e 5 anos). Por dez anos, foi professor de Filosofia para crianças e adolescentes. Resolveu cursar jornalismo quando tinha 25 anos. Ama essa profissão. No início deste ano, Osvaldo encerrou o mestrado em Comunicação, pesquisando a rotina de trabalho de jornalistas de diários impressos

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10 comentários

  1. Raii says:

    Legal…lembro que quando foi oficializado o feriado achei super importante ( não por ficar de folga), pois sabia que isso era um bom pequeno reconhecimento!!!

  2. G. says:

    q massa! eu tenho uma colega da Guiné na faculdade!

    parabens! otimo blog

    http://saladacomfarofa.blogspot.com

  3. Fogo says:

    Excelente blog.

  4. Raii says:

    Uia…..feriado nacionalllllllll

  5. Gizelli says:

    Primeiro: Parabéns pela escrita.

    Depois, parabéns pelo conteúdo do blog! É um absurdo que o dia da Consciência Negra não tenha chegado à Brasília. Aqui não celebramos essa data.

  6. Que história de vida legal. Quantas pessoas imaginaram que um catador de papéis poderia render uma matéria tão boa. Esse tipo de trabalho deve ser exaltado, afinal personagens como Antônio Lobo estão a solta por ai nas ruas. Quem sabe outros catadores ou trabalhadores humildes não tenham uma história até mais interessante? Parabéns ao O Patifúndio. Abraços.

  7. Rodrigo says:

    É… falta um pouco de reconhecimento, aqui na minha cidade nem feriado foi!

  8. Verossimel says:

    é aqui nao foi feriado tb!!!

  9. Fogo says:

    Precisa de por mais artigos!

    abraço

  10. Balinha says:

    Nossa, seu blog é enorme.
    Parabéns pelo artigo, muito bom.

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