VALOR(ES) LITERÁRIO(S): OS CLÁSSICOS E AS LEITURAS

Todo mundo já ouviu falar em livros clássicos. O adjetivo, aliás, geralmente aparece acompanhando o nome de algum autor ou obra: “Machado é um clássico” ou “A Odisséia é um clássico”. A partir destas afirmações, forma-se um tipo de “pressão social”: ter lido determinados livros considerados como clássicos é uma obrigação; não lê-los, então, é quase um crime.

É no meio acadêmico que as opiniões e julgamentos literários mais influentes se formam, pois é lá que se estuda e pesquisa Literatura de forma sistematizada, mais especificamente no curso de Letras. Na escola, nas rodas de conversa entre leitores e em diversas outras situações, expressões como “texto literário”, “valor literário” e “qualidade estética” são recorrentes quando se fala em valor de livros ou na distinção que é feita entre os grandes livros que fazem a Grande Literatura (com L maiúsculo, superior) e a outra literatura, a dos autores da moda, dos best-sellers e de outras vertentes da produção literária que costumam ser vistas como “à parte”, neste caso, exemplificadas em termos como “literatura para mulheres”, “literatura para crianças”, entre outros. Sobre estas últimas distinções cabe destacar que, tradicionalmente, elas se sustentam mais em padrões sociais do que em elementos linguísticos comprováveis numa análise do discurso, independente do público-alvo a que se destina a produção.

Neste apontar de diferenças, é preciso considerar que, além de especificidades estéticas e linguísticas, também é a partir de sua influência e da receptividade encontrada no meio político e social no qual se insere que o valor de uma obra literária é estabelecido. Os clássicos, neste meio, podem ser considerados como um tipo de herança, pois constituem parte da história de determinada época e é impossível contestar seu valor histórico e cultural, passando pelos mundiais como Homero, Dostoiévski, Flaubert, Hemingway, até os nossos Machado e Pessoa, expoentes da produção literária em Língua Portuguesa do Brasil e de Portugal, da prosa e da poesia, respectivamente.

Antes de qualquer coisa, o próprio fato de saber que determinado texto é literário ou ainda, que se trata de um clássico, vai fazer toda a diferença na hora da leitura, pois tendo esta consciência, o leitor irá acionar modos diferentes de busca de interpretação, partindo de outras leituras, das suas experiências pessoais e até das opiniões de outros sobre determinado tema/autor/livro, juízos assimilados que passam a fazer parte do nosso repertório de conhecimento de mundo.

Muito se discute a questão do valor dos clássicos e quem o faz, geralmente, apresenta posicionamentos e argumentos estanques que se assemelham a uma tentativa de convencimento geral – para a leitura ou não dos clássicos. Tal postura se faz por demais perigosa justamente por esse caráter de prescrição que tira do leitor a liberdade de escolher suas leituras e fazer suas próprias avaliações, gesto que caracterizaria um leitor competente.

Considerando a necessidade de se fornecer informações que contribuam com as leituras dos livros tidos como clássicos e entendendo a importância destas obras na formação pessoal/profissional dos leitores, é imprescindível que aconteça, em sala de aula, a discussão de aspectos como valor estilístico e importância histórica e cultural de livros e autores assim considerados. Além disso, um bom educador deve sempre oferecer ao aluno indicações e sugestões que o auxiliem numa leitura compreensiva, incentivando no mesmo o despertar de uma consciência crítica que o habilite para a leitura e a interpretação de textos das mais variadas esferas de produção do conhecimento humano.


Leituras indicadas:

POR QUE LER OS CLÁSSICOS? - Italo Calvino
CULTURA LETRADA: LITERATURA E LEITURA – Márcia Abreu

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Aline Patricia da Silva (@Aline_Patricia)
Possui graduação em Letras – Língua Portuguesa pela UFRN, atualmente é estudante de pós-graduação em Teoria e Estudos sobre a Linguagem na mesma instituição.

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