No sono dos outros é refresco
Uma das primeiras crônicas que escrevi na vida foi sobre a presença de um galo cantando pela vizinhança. Após anos, outro vizinho – ou o mesmo – apareceu com um novo e barulhento animal de estimação.
Apesar de antiga, extremamente atual. Segue o texto.
Logo na primeira noite em meu novo apartamento, percebi que alguém na vizinhança possuia um galo. Sim, aqueles habitantes de sítios e fazendas que costumam cantar ao raiar da manhã.
A questão é que o infeliz deve ter algum problema hormonal, ou estar programado no horário de verão. Pontualmente, às quatro horas, ele dá o ar de sua graça, me acordando e deixando claro as poucas horas de sono que ainda me restam.
Mais incomodo que meu amigo de penas, porém, é a “franquia” do Reino de Deus localizada a poucos metros da minha residência. O culto, sempre muito animado, se estende até altas horas da madrugada e chega ao clímax quando, aos berros, o pastor invoca a presença divina. Devido ao assombroso barulho vindo da igreja, suponho que Cristo é surdo ou mora longe para cacete.
Apesar de toda a agitação, o messias ainda não apareceu, e antes que o pastor resolvesse usar um megafone a defesa civil resolveu intervir (ou algum órgão compatível) e interditou o local, para alívio da vizinhança.
Mas é aos sábados que surge a maior inimiga das noites bem dormidas. A feira. Ela termina exatamente na esquina do meu prédio, impossibilitando que, mesmo às sextas, eu tenha uma noite tranquila. Invadem a madrugada, montam suas barracas e fazem barulho, muito barulho.
Ao primeiro sinal de luz, empesteiam o ambiente ao som de cana moendo e um irresistível cheiro de pastel.
Tapo os ouvidos, conto carneirinhos, finjo que nada está acontecendo e permaneço na cama até o meio dia. Só venço a preguiça quando a fome está para me vencer. Imediatamente lembro que ao menos hoje o almoço está garantido:
- Moça me vê dois pastéis de queijo.
- Acabou o pastel!
É hoje que eu frito aquele galo!