Meu amigo beija-flor
Paulo Francis narrava frenética e apaixonadamente os dias que antecederam – em sua visão impar – o golpe militar de 64. Páginas e páginas se passaram antes de conseguir desgrudar os olhos do livro e entender que o barulho que ouvia ao meu redor era de um pássaro. Um susto.
Com o espanto quase cai da rede e o visitante hesitou. Parou e por instantes me olhou nos olhos. Voltou sua atenção para o vaso ao lado. Flores.
- Rosangela olha que pomba estranha entrou aqui na sacada.
No auge de seu conhecimento ornitológico Rosangela, minha babá, respondeu que a ave não era pomba, era um beija-flor e deveria ter fugido de alguma gaiola pela redondeza.
Perante sua cara de superioridade, afirmei que sou da cidade grande. Aqui, se tiver asa é pomba, urubu ou avião e que ela também não conseguiria distinguir Strokes de Killers. Deu de ombros e foi embora.
Intrigado com o tal beija-flor, levantei vagarosamente para observá-lo mais de perto. Afastou-se do vaso, pulou a sacada e sumiu. Levantei e olhei para o horizonte, nem sinal do passarinho.
Quem sabe ele não volta, pensei. Vou fazer-lhe um agrado. Liguei o computador e fui pesquisar no Oráculo o que come um beija-flor. Uma googlada depois e já me sentia intimo da espécie. Néctar de flores, pequenos insetos e água com açúcar.
Para mim separei chá de camomila e bolacha de água e sal. Para ele água com açúcar. Deixei entre os vasos e voltei aos ditos de Paulo Francis.
Não demorou e meu novo amigo apareceu. Bebericou a água, roçou seu nariz comprido e fino nas flores e por fim pousou em minha xícara. Entreolhamos-nos novamente. Abri um sorriso e ele permaneceu imóvel. Não queria que ele fosse embora novamente.
Após alguns segundos ele bebericou o chá e por ali ficou por um bom tempo. Continuei lendo e ele cantando. Cantando também levantou voo e dessa vez me deixou ver seu destino. A casa imediatamente ao lado do prédio, uma arvore que só consigo ver os últimos galhos.
Apareceu no outro dia, no outro também. Ficamos amigos, quase íntimos. Todos os dias agora espero impacientemente sua volta.
Fizemos até um acordo. Eu faço chá de camomila para dois e ele leva recados meus para a vizinha do 72.