Posted by Felipe Tonet on Jul 24, 2009 in
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Uma das primeiras crônicas que escrevi na vida foi sobre a presença de um galo cantando pela vizinhança. Após anos, outro vizinho – ou o mesmo – apareceu com um novo e barulhento animal de estimação.
Apesar de antiga, extremamente atual. Segue o texto.
Logo na primeira noite em meu novo apartamento, percebi que alguém na vizinhança possuia um galo. Sim, aqueles habitantes de sítios e fazendas que costumam cantar ao raiar da manhã.
A questão é que o infeliz deve ter algum problema hormonal, ou estar programado no horário de verão. Pontualmente, às quatro horas, ele dá o ar de sua graça, me acordando e deixando claro as poucas horas de sono que ainda me restam.
Mais incomodo que meu amigo de penas, porém, é a “franquia” do Reino de Deus localizada a poucos metros da minha residência. O culto, sempre muito animado, se estende até altas horas da madrugada e chega ao clímax quando, aos berros, o pastor invoca a presença divina. Devido ao assombroso barulho vindo da igreja, suponho que Cristo é surdo ou mora longe para cacete.
Apesar de toda a agitação, o messias ainda não apareceu, e antes que o pastor resolvesse usar um megafone a defesa civil resolveu intervir (ou algum órgão compatível) e interditou o local, para alívio da vizinhança.
Mas é aos sábados que surge a maior inimiga das noites bem dormidas. A feira. Ela termina exatamente na esquina do meu prédio, impossibilitando que, mesmo às sextas, eu tenha uma noite tranquila. Invadem a madrugada, montam suas barracas e fazem barulho, muito barulho.
Ao primeiro sinal de luz, empesteiam o ambiente ao som de cana moendo e um irresistível cheiro de pastel.
Tapo os ouvidos, conto carneirinhos, finjo que nada está acontecendo e permaneço na cama até o meio dia. Só venço a preguiça quando a fome está para me vencer. Imediatamente lembro que ao menos hoje o almoço está garantido:
- Moça me vê dois pastéis de queijo.
- Acabou o pastel!
É hoje que eu frito aquele galo!
Tags: crônicas, feira, galo, vizinhança
Posted by Felipe Tonet on Jul 22, 2009 in
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Levanto substancialmente desnorteado, amassado, com a sensação de ter dormido mais do que devia. A urgência no caminho até o banheiro corrobora a sensação.
São Paulo é uma cidade cinza. No auge do inverso é praticamente impossível saber o período do dia olhando para o Céu. Podem ser 10h ou 17h, não faço a menor idéia.
A obscura voz da ressaca me avisa, devo material. Vida de freelancer, se não terminar não recebe. Lembro também que devo procurar o ex-chefe, quem sabe ele não tem outros freelas para eu, como de costume, atrasar o prazo.
Quem nunca ouviu célebre “São Paulo não dorme”. Dorme. Mal, mas dorme. Com o chacoalhar dos caminhões vazios, o zunido dos cabos elétricos e o assobio dos seguranças particulares. Dorme. Durmo.
Sem decidir se coço a nuca ou o traseiro, me dirijo até a sala, ligo a TV. Pelo vigésimo dia encontraram algo inédito sobre Michael, creio que encontrarão por anos. Amanhã o dia será nublado, como se alguém imaginasse o contrário. No rádio de algum vizinho a linda loira canta Listen To Your Heart. Como era bonita a cantora do Roxette.
Como um bêbado, São Paulo desperta. De sopetão, de sobressalto. Em questão de minutos milhares de carros tomam os seus lugares, todos os lugares. Uma multidão segue para o sul. Sempre para o sul.
Pego o leite e o Nescau – Sinto-me um menino, mas adoro Nescau. O jornal informa que estamos com problemas na Cracolâdia, Sarney novamente encontra-se enrascado, Simão não perdoa ninguém. Segundo o microondas, passam das 14h. Minha cabeça dói.
A megalópole é tão grande que causa claustrofobia. Suas avenidas, ruas, praças, becos. A sensação de ser inexpressivo é corriqueira. Por essas vias, ninguém faz a menor diferença.
O final do expediente não é tão repentino. Seu reflexo pode ser sentido no trânsito por volta das 16h, e nos bares, botecos e restaurantes poucos minutos depois.
Pela primeira vez no dia a cidade vive. Como diria Arnaldo, o pulso ainda pulsa. Gritos na rua, conversas na esquina, cerveja no bar. A noite cai, algumas pessoas também. Com o subir da lua, São Paulo dorme. Mal, mas dorme.
No silêncio leio, mexo, penso, escrevo, bebo, remexo. Antes dos últimos caminhões, durmo. Daqui a pouco começa tudo outra vez.
Tags: bêbado, carros, cidade, São Paulo
Posted by Felipe Tonet on Jul 7, 2009 in
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Conheci Pedro Henrique (nome de mentirinha) na pré-escola, e aos 6 anos ele já tramava para acabar com a minha reputação. Tudo que eu tentava fazer, ele fazia melhor.
Para começar, era quase duas vezes maior que eu, mesmo tendo nascido 5 meses depois. Era mais bonito, tinha os olhos mais claros e jogava futebol melhor. Conseguia encaixar as piadas sempre na hora certa e fazia questão de nunca rir das minhas, o que o resto da classe acompanhava.
Certa vez, o combinado era levar comida para a escola, fazia parte de alguma festividade infantil que não lembro mais. Na descida da perua meu inimigo esbarrou em mim e derrubei todas as coxinhas compradas por minha mãe para a ilustre ocasião. Fui a única criança que não colaborou com a boquinha.
Por anos e anos Pedro Henrique foi meu arquiinimigo (escreve assim mesmo, tudo junto). Eu era o Batman e ele meu Coringa; eu era o Homem-Aranha, ele era o Duende Verde; eu era o Peter Pan, ele era o Capitão gancho.
O Vilão era astuto. Eu era o Super-Homem e ele meu Lex Luthor, conhecia minhas fraquezas, sabia usar a Criptonita. Próximo de completar 10 anos eu estava completamente apaixonado por uma linda morena dos olhos verdes. Andréia. Pedro Henrique percebeu e resolveu se apaixonar também.
Escrevi uma carta abrindo meu coração, colei diversos corações, usei todos os 36 lápis de cor da caixa da Faber-Castell. Pedro Henrique escreveu uma carta maior, com mais corações e mais cores. A partir daquele dia começaram a andar de mãos dadas pelo colégio.
Ao fim do primário meu rival mudou de colégio e nunca mais nos vimos. Recentemente fui levar o carro para fazer a revisão dos 10 mil quilômetros, e para minha surpresa reconheci o atendente.
Era ele. Pedro Henrique. Não é mais tão maior que eu, creio até que somos do mesmo tamanho. Bochechas salientes, cabelo loiro despenteado, camisa e gravata do uniforme. Não parecia tão malvado.
Pedro Henrique também me reconheceu, lembramos os tempos de escola, a infância, o colégio. Disse-me que recentemente terminou um noivado, é pai de uma menina. O tempo passa. Como passa. Nos despedimos, esperei o carro e fui embora.
Crescemos. Envelhecemos. Será que melhorei muito em todos esses anos? Não creio. E nem ele. A única certeza é que ambos fizemos bom negócio. A Andréia encontrei em um bar perto de casa. Óculos fundo de garrafa, espinhas no rosto e do tamanho de um leitão.
Posted by Felipe Tonet on Jul 3, 2009 in
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No começo do ano usei como pretexto o Fórum Social Mundial (realizado em Belém do Pará) e resolvi tirar alguns meses para viajar pelo Brasil. Coloquei a mochila nas costas, juntei alguns trocados e contei com a boa vontade do meu tio que me doou milhas aéreas.
Passei por grande parte do litoral do brasileiro e algumas partes do sertão nordestino. Mais do que praias, cidades ou vilas, conheci pessoas, fiz amigos. Muitos amigos.
Essa semana duas delas vieram me visitar. A Vivi, mineira de Belo Horizonte, e a Erika, uma mexicana que há 8 anos vive expatriada. Sendo que os últimos 2 anos viajando pelas Américas.
Nos conhecemos em São Luis, no Maranhão, rumamos para o Fórum. Alguns percalços adiante e nos reencontramos em Olinda para o carnaval.
A Vivi continua exatamente igual e com o sarcasmo de sempre me alertou que a Erika agora vivia de luz. Imaginei ser um estrondoso exagero, descobri que não era tanto assim.
Não exatamente de luz, mas de comidas orgânicas. Nada de conservantes, agrotóxicos ou qualquer outro produto químico. Somente comidas naturais. Fácil, logo em São Paulo, onde nem as pombas são orgânicas, e os sanduíches do MC Donald contêm menos gordura do que muitas laranjas vendidas em supermercados.
Felizmente a Erika trouxe alimentos orgânicos para suas refeições. Todos adquiridos na comunidade em que passou algumas semanas e adotou esse novo estilo de vida. Creio que a comunidade fica no Espírito Santo ou na Bahia, algo assim.
Como os alimentos sustentam menos minha estimada amiga precisa se alimentar a cada 3 horas. Seja em casa, no carro ou no bar da rua Augusta. Algum tempo no trânsito e o carro fica empesteado com cheiro de banana, todos no boteco bebendo cerveja e o cinzeiro divide espaço com o lixinho das cascas de laranja.
Após alguns dias e o estoque natureba da Erika começou a minguar e juntos fomos à feira livre que alegra a esquina da minha casa aos sábados. Moço você tem bananas naturais? Orgânicas?
- Claro moça, aqui só vendemos frutas sem agrotóxico. No máximo jogamos óleo diesel nos pés de banana para afastar formigas.
Acho que a Erika vai precisar aprender a fazer fotossíntese…