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Estou a chegar
 
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A bruxa da bacia vermelha

Posted by admin on Ago 11, 2010 in Uncategorized

Acordei um pouco amassado, outra noite mal dormida, cervejas em plena terça-feira. Sonolento fui até o banheiro, peguei a escova, passei pasta, e subitamente interrompi um ato após uma risada infantil.

Olhei para o lado e vi o Caio, meu afilhado de 4 anos, pelado dentro de uma bacia vermelha. Uma miragem, pensei. Respirei fundo e perguntei: Você não deveria estar na escola? Não tive aula hoje. O que está fazendo dentro da bacia que minha mãe usa para deixar roupa de molho? É minha piscina, estou tomando banho com os piratas.

Olhei para suas mãos e imaginei que os pinceis amarelos fossem os tais piratas. E esse cavalinho de pelúcia? A Julia vai te matar quando ver ele molhado. A Júlia está na Itália, até ela voltar seca.

Cara de pau inteligente. Levei a escova até os dentes e passei a escová-los. Novamente o silêncio foi interrompido pela voz infantil. Me conta uma história de pirata? Não! Por que não? Porque eu vou trabalhar e estou atrasado. Mas se já está atrasado, não faz diferença.

Impressionante como sou sempre enrolado por ele, ou como facilmente fico encantado com sua inteligência. Peguei os piratas e perguntei onde estava o navio. Esse aqui, respondeu.

Um carrinho sem rodas. Peguei os pinceis, o carrinho, o cavalinho e comecei a história…

Esse aqui é o príncipe-pirata, ele é apaixonado, mas nunca consegue ficar junto com a princesa, pois os mares são cheios de inimigos. Antes de elaborar a próxima frase, fui interrompido: Ele tem perna de pau? Não tem cara de pau. Como assim? Esquece. Ele tem um macaco? Ele tem uma espada? Ele tem… Tem, tem, tudo isso aí.

Continuando. O grande príncipe-pirata navega pelos mares de água gelada com sua tripulação em busca de seu grande amor, mas sempre encontra perigos e inimigos.

Mas que água fria, Caio, você vai ficar doente. Está todo engruminhado, chega de história. Não, eu quero continuar. Eu quero mais história, não vou sair.

Ele foi até o canto do mundo, em mares de água gelada e lutou contra piratas malvados e mauricinhos cabeçudos de touca e emuxinhos magrelos. Que? Emuxihnhos? É, piratas franguinhos, você sabe.

Então, no canto do mundo, ele chegou até a casa de uma bruxa chamada Amanda Zeli. Mandazeli, que nome estranho. É Mandazeli, isso mesmo. A bruxa falou um monte de verdades para o Pirata, deixou ele confuso e perdido, chutou a bunda dele e mandou ele ir embora.

- E aí? Bom, ai acabou a história. Já? Não entendi nada. História para adulto, Caio, deixa pra lá. O que você está fazendo? Xixi na Mandazeli, ela não é bruxa? Você está mijando no cavalinho da Júlia, ela vai te matar. E urina cheira mal até ela voltar da Itália, eu vou trabalhar…

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As crianças e a Joaninha

Posted by admin on Ago 2, 2010 in Uncategorized

Sempre tive o sonho de ter uma família grande, uns 5 ou 6 filhos, crianças gritando, guerra de travesseiros, futebol no quintal. Claro, como qualquer sonho, quando você acorda, tudo volta ao seu devido lugar.

Na volta para casa fui surpreendido pela notícia de que minha tia iria realizar uma operação. Pelo que entendi, o único que não sabia disso era eu e, por isso, minha pequena prima de 4 anos passaria o final de semana em casa.

Para ela não se sentir sozinha, também foi convidado para passar uns dias lá em casa meu afilhado, uma peste de 4 anos que me deixa cansado só de pensar.

Julia, minha irmã mais nova, está na Itália por mais alguns dias, Marília, a do meio, foi viajar com o namorado. Ótimo, sobrei eu, o mais próximo de uma criança, para cuidar dos guris.

Criança gosta de desenho, imaginei. Vamos ver Shrek? Perguntei. Adoraram a ideia, em um grito só ambos concordaram. Peguei o edredom com hieróglifos japoneses, um saco de pipoca de microondas, muita coca-cola e apertei o play.

Eles resistiram bravamente aos 15 primeiros minutos. Nos 10 seguintes ficaram inquietos e passados mais 5 não aguentavam mais. Está acabando? Claro que não, começou agora. Mas já está acabando? Não. Vocês não queriam assistir? Já assistimos…

Desisti de tentar convencê-los. Vamos fazer o que, então? Pintar sugeriu a Laurinha. Não, nada de tinta, estou com trauma, outra opção. Vamos jogar futebol, disse Caio. Não, são 21 horas, logo vocês precisam dormir. Não quero dormir. Por que dormir? Porque hoje é sexta e eu quero sair. Vão dormir sim.

Caio pegou alguns lápis e decidiu desenhar. Ótimo, desenhar pode. Peguei mais folhas e passamos os 3 a desenhar.

- Essa é a mamãe, esse é o papai e essa sou eu, disse Laurinha. O que você está desenhando?

- Bom, esse sou eu, esse é um skate e esse cabeçudo é o Japão. Respondi.

- Por que você não desenha seu filho? Porque não tenho, afirmei.

Infelicidade entrar no assunto. Esqueci de como criança gosta de perguntar.

- Por que você não tem um filho? Porque vocês não dormem, e por isso não posso sair e arrumar uma namorada para ter filhos.

- E a sua namorada Joaninha? (nome de mentirinha para não citar O nome que todo mundo sabe qual é!) Ela não é mais minha namorada. Por que? Porque ela não quer mais. Por que? Porque ela não gosta mais de mim. Por que? Porque raios eu estou dando satisfação da minha vida sentimental para duas crianças de 4 anos?! Bora dormir, todo mundo.

- Eu gosto da Joaninha. Eu sei Caio. Eu também gosto. Eu sei Laurinha. Vamos dormir.

Improvisei 2 colchões no chão do quarto e deitamos os três. Eu quero leite, disse Caio, eu também, completou Laurinha. Levantei, peguei 2 copos de leite com achocolatado e voltei. Eu gosto quente. E não falou isso antes por qual motivo? Você não perguntou.

Voltei para a cozinha e esquentei os 2 copos no microondas. Eu gosto frio. Respirei fundo, fui até a cozinha, fiz um terceiro copo. Um quente para o Caio, um frio para a Laura e o que sobrou para mim.

Apaguei a luz e deitamos. Preciso ir ao banheiro. Eu também. Vocês acabaram de ir. Mas tomamos leite, quero outra vez. Acendi a luz e fomos ao banheiro.

- Caio, para de mijar no pé, acerta a privada. E sai do banheiro para ela fazer xixi. Não, não pode ficar olhando a menina fazer xixi. Eu sei que ela tem pitica, eu sei que sua mãe tem pitica. Sim, a Joaninha tem Pitica. Eu sei que você gosta dela. Lavamos as mãos, apaguei a luz e deitamos.

A ideia era fingir que estava dormindo até eles dormirem, mas acordei somente com o Caio mordendo meu braço às 10 horas da manhã. Vamos brincar? Não, me deixa dormir. Mas já é amanhã. Não, são 10 horas da madrugada. Me deixa dormir. Mas a gente quer brincar.

- Faz assim, liga na casa da Joaninha e pede para ela brincar com vocês, eu vou dormir. Virei de lado e cobri a cabeça com o travesseiro.

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Sobre pincéis e Van Gogh

Posted by admin on Jul 21, 2010 in Uncategorized

Após muitas sextas-feiras curtas de bebedeiras e intermináveis sábados de ressaca, nada como uma noite bem dormida para aguçar a criatividade.

 Vou pintar um quadro, pensei. Meu primeiro quadro. Levantei peguei a chave do carro e fui comprar os materiais necessários para a nova empreitada.

 Um quadro, ótima idéia. Pablo Picasso, um dos maiores artistas do século XX começou a pintar ainda criança, e mais novo do que eu começou a pintar “Les Demoiselles d’ Avignon”, uma obra prima e considerada precursora do movimento conhecido como Cubismo. Se uma criança pode, eu também posso.

 Para espanto geral, entrei em casa com 4 telas, uma delas de 1,50 metro por 90 centímetros. Além de tintas, pincéis, sprays, jornais, entre outras bugigangas.

 Espantada minha mãe  perguntou desde quando eu sabia pintar, ou ao menos desenhar. Não importa a capacidade técnica e sim a criatividade, desdenhei. Não vê o Vik Muniz? Ganha rios de dinheiro fazendo obras de arte com salsicha, mostarda e azeitonas.

 Contrariada, a senhora minha mãe desistiu de argumentar, e voltou para o quarto com uma frase que ecoou em meus ouvidos: “O que você sujar, vai limpar depois”.

 Ótimo, limpar é moleza, apoiei a maior tela no braço do sofá e passei a admirá-la, esperando uma ideia genial. Com os olhos entre abertos imaginei paisagens tridimensionais, pessoas em desarmonia com a natureza, uma guerra sem armas. Praticamente uma mistura de Sono de Salvador Dalí com Avatar de James Cameron.

 Caiu por terra minha teoria. Sem habilidade para sequer desenhar o logotipo da Vivo, como poderia transformar em arte tão bizarra imagem? Nossa Fê, que legal essas telas, posso pintar também? Perguntou minha irmã ao ver todo o aparato espalhado pelo chão.

 Claro que não. Quero fazer uma obra de arte, não aquarela de criança. Um tanto magoada, deu de ombros e foi embora quase ao mesmo tempo em que lembrei-me de Andy Warhol.

 Precursor da Pop Art, Warhol passou batom em um retrato de Mao Tse-Tung e disse ser arte. Oras, isso também faço! Peguei diversos exemplares da Folha de S. Paulo, separei fotos, título e textos, e fiz colagens aleatórias.

 Empolgado, não percebi a proximidade da lata de ervilhas improvisada como recipiente para cola branca, e derrubei. A cola se espalhou lenta e viscosamente pelo mármore até encontrar o tapete vermelho próximo a porta de entrada.

 Peguei diversas cores quentes e estrategicamente escondi ou destaquei letras, palavras, frases e rostos. Estranho, porém meu. Ainda faltava algo, contemporâneo, atual.

 Lembrei de osgemeos, o que temos de melhor na arte de rua atual. Escolhi uma foto tirada por mim anos atrás, e transformei em um extenso. Com o spray preto pintei o músico sobre tudo já exposto na tela. Finalizado.

 Estranho, caótico, confuso, eu. Não era Da Vinci, Degas ou Matisse, mas era algo. Mais que isso, era meu. Feliz com o resultado, e sem notar os restos de tinta e cola nas mãos, esfreguei repetidamente os olhos bochechas e cabelos.

 Não sei se passaram momentos ou minutos, mas olhei fixamente para o quadro até ser tirado do transe por um grito e um palavrão.

 - Puta que pariu, tem cola pela casa inteira!

Era meu pai, que entrava em casa com 4 rolos de papel higiênico, um sabão em pó e algumas lâminas de barbear. Sob seu sapato, formavam-se estalactites de cola branca. O tapete deixava de ser vermelho, para transformar-se em rosa encharcado. Alguns copos plásticos com tinta também perderam o equilíbrio e espalharam tinta pelo chão.

 Ao olhar para meu rosto colorido e cabelos grudados em tufos, meu pai disparou: Cacete, toda essa bagunça para fazer essa porcaria com jornal?

 Indignado, respondi contundente. “Van Gogh deveria levar o pai para o ateliê. Certeza. Foi por isso que cortou as orelhas!”. Levantei e fui tomar banho.

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A filha da revolução

Posted by admin on Jul 6, 2010 in Uncategorized

Grande defensora do socialismo cubano, Aleida Guevara, filha de Che Guevara fala sobre assuntos polêmicos.

Por Felipe Tonet*

A pele clara e o ar europeu contrastam com sua forte posição política. Uma mulher aparentemente calma, de cabelos despenteados e olhos bem escuros. Essa é ALEIDA Guevara, médica pediatra cubana e filha mais velha do famoso guerrilheiro Ernesto Che Guevara.

Apaixonada por Cuba e pelo regime socialista, ALEIDA provocou uma enorme comoção durante o painel que participou na 3ª Ação Internacional – Marcha Mundial das Mulheres.

 

Veja abaixo a entrevista exclusiva.

 

Presos políticos

O problema da mídia mundial, inclusive no Brasil, é que repetem como papagaio o que é dito. Ninguém checa a informação. Ninguém vai até Cuba perguntar. Repetem somente o que é divulgado pelas grandes agências de comunicação americanas e européias.

Este senhor que morreu, Zapata, é um deliquente comum. Foi preso por roubo. Isso não é
política. É um deliquente comum.

Ele decidiu não comer, ficou inconsciente, os médicos tentaram reanimá-lo, mas era tarde.

Porém, não se pode violentar uma pessoa que decide não comer. Foi uma decisão dele e não tivemos possibilidade de fazer nada. Este outro senhor, que agora está fazendo greve de fome, era pago por agências americanas como co-responsável por uma televisão que transmite diretamente dos Estados Unidos para Cuba, em espanhol.

Além disso, foi preso outras vezes por agressão com um bastão e também por atacar uma mulher.

Agora, depois de ver recusado seu pedido de ter internet em casa, decidiu fazer greve de fome. Ele insiste também na libertação de mais de 20 presos em Cuba, outros delinquentes.

São pessoas que não valorizam a própria vida, param de comer. Se não respeitam a própria vida, eu sinto muito, mas não posso fazer nada. O governo de Cuba não pode fazer nada, temos que seguir a lei.

Bloqueio econômico

O bloqueio é muito cruel, é muito duro com o povo cubano. Os Estados Unidos não quererem
negociar com Cuba, isso nós entendemos, é um direito deles. Mas bloquear outros povos de comerciar com um país pobre, isso não. Eles não têm esse direito.

Um navio que atraca em um porto cubano, só pode atracar nos Estados Unidos depois de seis meses. Então, para alguma empresa comercializar com Cuba, ela cobra 3 ou 4 vezes mais.

Imagina um mercado de 11,5 milhões de pessoas contra um de mais de 400 milhões de pessoas. Cuba sempre perde. Esse é o bloqueio. É duro, muito duro para o povo cubano.
Esse dinheiro que investimos para superar o bloqueio, imagina tudo que poderíamos fazer com esse dinheiro. Tudo que poderíamos construir.

Venezuela

O comércio com a Venezuela está melhorando a vida do povo Cubano. Nós fazemos uma troca justa. Mandamos médicos quando eles precisam, mandamos professores, e eles nos vendem petróleo por um preço de mercado, um preço justo. Para pagarmos lentamente,
pouco a pouco. É uma troca positiva para os povos, assim vamos crescemos juntos, como países irmãos.

Brasil

Se Cuba, um país pequeno e pobre em recursos naturais consegue melhorar a vida de seus habitantes, o Brasil, um país com muitas riquezas naturais, um país que tem a Amazônia, também consegue.

Os recursos naturais do Brasil precisam ser do povo brasileiro. Precisa beneficiar o povo brasileiro e não as indústrias multinacionais.

Como pode em Cuba não existir mendigos e no Brasil ter tantos? Isso não é compreensível.

Cuba

Não se consegue sustentar um povo bloqueado, agredido militarmente, fisicamente e quimicamente pela maior potência econômica e militar do planeta por causa de um único homem. Cuba não é só Fidel.

Em Cuba, precisamos de muita vontade política da grande maioria do nosso povo. Precisamos ter consciência social e saber tudo que ganhamos por meio do socialismo.

Uma senhora um dia me perguntou: Doutora, se você colocasse em uma balança a
revolução e seus filhos, qual escolheria?

Eu disse certamente a revolução. Sabe por quê? Porque eu amo os meus filhos e quero
que eles vivam suas vidas com a mesma dignidade que eu. E isso só se consegue com o socialismo.

Esperança

Não sou uma pessoa de grande poder, mas, nos pequenos atos, tento ser útil aonde quer que me encontre.

Eu não tenho capacidade de reivindicar que o exército turco desocupe o território do Chipre. Mas eu, cubana e filha de Che Guevara, não visito a Turquia enquanto seu exército estiver no Chipre.

Assim, com pequenas coisas, mínimas coisas, faço o que acredito que preciso fazer como
ser humano, e isso me dá uma satisfação enorme, me faz sentir uma legítima filha do povo cubano.

 

* Originalmente publicada em: http://www.quimicosunificados.com.br/noticia_interna.php?id=1305&id_secao=2&busca=aleida

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O Reino de Tão Tão Distante…

Posted by Felipe Tonet on Nov 5, 2009 in Uncategorized

Após alguns meses de viagem e muitos outros de pura folga, arrumei um novo emprego. Volto para as origens, vou fazer jornal. Simples assim. Sem relatórios semanais, assessoria de imprensa, releases sobre produtos. Somente jornal. Melhor ainda, vou ganhar bem pela tarefa.

Claro que meu castelo de conto de fadas não poderia ser perfeito. Minha sala não possui ar condicionado, não concordo com algumas posições do sindicato e não trabalho com muitos outros jornalistas. Mas vou fazer jornal, isso que importa.

 

O castelo também não está muito bem localizado. Sou como Shrek e meu destino também se situa na Terra de Tão Tão Distante. Vulgo, Osasco.

Sob muitos e escaldantes graus me desloco com minha carruagem pelo vasto pântano chamado Marginal Tiete. As janelas (manuais) completamente abertas acentuam o perfume fecal do ambiente. Sozinho durante todo o percurso, faço o papel de Shrek e de Burro ao mesmo tempo:

 - Já chegou!?

 - Não!

- Está chegando!?

- Não!

- Já chegou!?

- Cala a boca, burro!

Uma placa para Osasco e outra para a Régis Bittencourt, estrada de enormes encantos (e buracos) que em algum momento desemboca em Curitiba, reino de princesas A idéia é tentadora, mas lembro que, como todo mortal consumista, preciso de dinheiro, sigo sentido Tão Tão Distante.

- Já chegou!?

- Não.

- Está chegando!? – Está! -

 Já chegou!? – Chegou, Burro.

- Ótimo, estamos somente 45 minutos atrasados.

- Outra vez, droga. Devia ter ido visitar a terra da princesa…

 
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Quem canta seus sentimentos espanta!

Posted by Felipe Tonet on Set 30, 2009 in Uncategorized

Pinto foi o meu primeiro motorista durante o tempo que passei trabalhando em Angola. Cabelo raspado como quase todos no país, alto e magro, muito magro. De tão negra, sua pele parecia petróleo, de tão branco, seu sorriso reluzia.

Passamos longas horas no caótico trânsito de Luanda, que me faziam ter saudade de São Paulo na hora do rush. Pinto sempre foi muito educado e simpático, pacientemente me explicava os detalhes e costumes locais, decifrava as letras das músicas de kizomba sempre recheadas de gírias e dialetos africanos.

Certo dia, percebi que o motorista falava sobre praticamente todas as canções, menos uma. Além disso, ele fazia questão de trocar de rádio sempre que ela começava a tocar. Pinto era casado, imaginei que pudesse ser algum caso antigo e delicadamente entrei no assunto.

Disse que aqui no Brasil algumas músicas me lembravam uma ex-namorada e por isso não gostava de ouvi-las. Dei alguns exemplos, e mesmo assim nada. Pinto não se manifestava.

A música em questão falava sobre uma esposa que enganava o marido, saia para beber e se divertir pelo bailes da noite. Pobre marido, concluía o cantor, pagava as contas e só queria uma esposa digna.

As letras angolanas lembram muito os sertanejos de Zezé de Camargo e Luciano e o tecnobrega do Calypso. Por sinal, eles adoram ambos. O sofrimento de um amor que se foi narrado de forma crua, quase cruel.

Perceptivelmente a música incomodava o Pinto. Aos casais, preencher momentos com músicas românticas é fato corriqueiro Terminado o amor certas músicas e lembranças tornam-se incômodas.

Não é privilégio do Pinto, da Angola, dessa ou daquela geração. O amor deixa marcas e essas marcas insistem em doer, mesmo depois de cicatrizadas. Lá estava eu, do outro lado do mundo, tentando entender o que se passava na cabeça do motorista. Quem sabe entender o que se passa em todas as cabeças.

Sejam bons ou ruins, associamos músicas com momentos, pessoas, sentimentos. Quem nunca quis cantar um verso berrado apontando o dedo para o nariz de outra pessoa. Expor toda a sua dor e o outro que aguente.

Seja do mestre Caetano, “Perua! Piranha! Minha energia é que mantém você suspensa no ar/ Prá rua! Se manda! Sai do meu sangue sanguessuga que só sabe sugar…”.

Do hit-maker Lulu, “Não vou dizer que foi ruim/ Também não foi tão bom assim/ Não imagine que te quero mal/ Apenas não te quero mais/ Não te quero mais/ Não mais!/ Não te quero mais/ Não mais!/ Nunca mais!”.

Ou de tantos outros, mais e menos famosos, mais e menos relevantes.

Cantando, doemos e curamos a dor. Eternizamos momentos e idealizamos pessoas. Cantamos a vida que não é perfeita, mas segundo Gonzaguinha ‘é bonita e é bonita’.

Do outro lado do oceano percebi que em matéria de amor o mundo é um vilarejo e reagimos todos exatamente da mesma maneira. Convidei Pinto para tomar uma cerveja, na Angola, assim como no Brasil, é assim que resolvem-se esses problemas.

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Meu amigo beija-flor

Posted by Felipe Tonet on Set 22, 2009 in Uncategorized

Paulo Francis narrava frenética e apaixonadamente os dias que antecederam – em sua visão impar – o golpe militar de 64. Páginas e páginas se passaram antes de conseguir desgrudar os olhos do livro e entender que o barulho que ouvia ao meu redor era de um pássaro. Um susto.

 Com o espanto quase cai da rede e o visitante hesitou. Parou e por instantes me olhou nos olhos. Voltou sua atenção para o vaso ao lado. Flores.

 - Rosangela olha que pomba estranha entrou aqui na sacada.

   No auge de seu conhecimento ornitológico Rosangela, minha babá, respondeu que a ave não era pomba, era um beija-flor e deveria ter fugido de alguma gaiola pela redondeza.

 Perante sua cara de superioridade, afirmei que sou da cidade grande. Aqui, se tiver asa é pomba, urubu ou avião e que ela também não conseguiria distinguir Strokes de Killers. Deu de ombros e foi embora.

 Intrigado com o tal beija-flor, levantei vagarosamente para observá-lo mais de perto. Afastou-se do vaso, pulou a sacada e sumiu. Levantei e olhei para o horizonte, nem sinal do passarinho.

 Quem sabe ele não volta, pensei. Vou fazer-lhe um agrado. Liguei o computador e fui pesquisar no Oráculo o que come um beija-flor. Uma googlada depois e já me sentia intimo da espécie. Néctar de flores, pequenos insetos e água com açúcar.

 Para mim separei chá de camomila e bolacha de água e sal. Para ele água com açúcar. Deixei entre os vasos e voltei aos ditos de Paulo Francis.

 Não demorou e meu novo amigo apareceu. Bebericou a água, roçou seu nariz comprido e fino nas flores e por fim pousou em minha xícara. Entreolhamos-nos novamente. Abri um sorriso e ele permaneceu imóvel. Não queria que ele fosse embora novamente.

 Após alguns segundos ele bebericou o chá e por ali ficou por um bom tempo. Continuei lendo e ele cantando. Cantando também levantou voo e dessa vez me deixou ver seu destino. A casa imediatamente ao lado do prédio, uma arvore que só consigo ver os últimos galhos.

 Apareceu no outro dia, no outro também. Ficamos amigos, quase íntimos. Todos os dias agora espero impacientemente sua volta.

 Fizemos até um acordo. Eu faço chá de camomila para dois e ele leva recados meus para a vizinha do 72.

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O Código da vitória é ser feliz roubando a semente em um minuto

Posted by Felipe Tonet on Set 2, 2009 in Uncategorized

Fui apresentado para o lado negro da literatura pela minha professora de administração, que beirando os 200 anos era enrugada feito um maracujá. Ela exigiu da turma a leitura do livro “O gerente minuto”.

 Uma história toda enfeitadinha de um jovem estudante que buscava conhecimento com o tal gerente. Esse lhe apresentou seus conceitos vitoriosos de gerenciar. Baboseiras como: Objetivos-Minuto, Elogios-Minuto, Repreensões-Minuto.

 Fácil assim, imaginei. Faculdade para que? O homem resolveu o problema, vou ler as 87 páginas e correr para o abraço.

 No mesmo ano a autoajuda havia virado febre. No natal fui presenteado com 3 exemplares de outro Best Seller do segmento, “Quem mexeu no meu queijo?”. Apesar de ser um sucesso de vendas e de todos comentarem sua importância no meio empresarial, não consegui ultrapassar a 23 página. Era a cópia do tal do gerente, mas com metáforas de ratinhos.

 A praga saiu do meio empresarial e com um tiro certeiro acertou a imensa parcela da população urbana, que sufocada em meio ao caótico cotidiano, se considera permanentemente infeliz.

 São milhares de títulos propondo a facilidade com que a vitória é conquistada, somente você, o imbecil, não sabe o segredo. “Nunca desista de seus sonhos”, “O Código da Inteligência”, “Quem me roubou de mim”, “A semente da Vitória”, entre muitos outros.

 De tão clichês, várias passagens dos livros deixariam com vergonha Paulo Coelho, o mestre do assunto. “Dentro de você já existe uma linda obra de arte. Seu grande desafio é retirar o excesso de mármore e completá-la”, filosofa Roberto Shinyashiki, autor de best-sellers como “O Sucesso É Ser Feliz”.

 Do sucesso, para o sucesso no amor foi um pulinho. “Por que os homens amam as mulheres poderosas?”, “Casais inteligentes enriquecem juntos”  e para completar: “Ele simplesmente não está afim de você”, atual livro de cabeceira da minha ex-namorada.

 Apesar dos 5 anos de relacionamento, graças a essa obra prima, ela descobriu que eu nunca “estive afim dela”. (as aspas são os dedinhos balançando)

 Chega de Freud, Kant, Kafka e Bukowski. Vou começar do zero: “Mãe me empresta o Monge e o Executivo?”

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A arte do encontro

Posted by Felipe Tonet on Ago 3, 2009 in Uncategorized

Vistosa, queimada do sol e ainda mais bonita do que eu lembrava. Cabelos loiros ao vento, franja jogada de lado, calça jeans apertada, blusa branca decotada. Fazia anos que não nos víamos nem por acaso, como desta vez.

 Agachado procurando uma tal pomada para cicatrização, não tive como reparar nos medicamentos depositados em sua cestinha. Pílula anticoncepcional? Camisinhas? Medicamentos para gripe? Não sei. Morri de curiosidade.

 A mulher em questão foi minha paixão juvenil. Demorei anos para conquistá-la e quando consegui durou pouco. Nos afastamos, afastamos, afastamos e sumimos da vida um do outro.

 Levantei, cumprimentei e fiquei tão entretido na conversa que me esqueci completamente dos medicamentos na cesta. Continua solteira, namora há anos. Parou de surfar, não quer mais morar na praia. Formou-se em direito, trabalha em um escritório na Berrini.

 Foi o quarto encontro com o passado que tive em duas semanas. Recentemente encontrei no supermercado minha primeira namorada séria. Eu comprando cerveja para o fim de semana e ela fazendo as compras da casa.

 Casou-se com um evangélico, usa saia e cabelos compridos. Deus é a resposta. Ao contrário da loira, minha primeira namorada já foi mais bonita. Teria eu virado crente se o namoro vingasse? Teria ela tatuagens?

 Outra amiga que há tempos sumiu resolveu aparecer pela rede. Não nos vimos, mas por MSN percebi o quanto mudou. Era decidida, guerreira, cheia de objetivos. A primeira da turma, que todos sabiam que chegaria longe.

 Quase foi, ficou pelo meio do caminho. Contentou-se com o que já havia conquistado. Casou e agora não enxerga como pode voltar para os antigos objetivos. Jogar para o alto? De forma alguma.

 Teria eu ficado com receio de largar tudo e viajar pelo Brasil se na época ainda fôssemos grandes amigos? Não creio, mas também não duvido.

 Como dizia o poeta, A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.  E são os encontros que nos fazem pensar, crescer e mudar. Quem sabe não viro budista, muçulmano ou cristão. Começo a gostar de vôlei, tênis ou música sertaneja.

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No sono dos outros é refresco

Posted by Felipe Tonet on Jul 24, 2009 in Uncategorized

Uma das primeiras crônicas que escrevi na vida foi sobre a presença de um galo cantando pela vizinhança. Após anos, outro vizinho – ou o mesmo – apareceu com um novo e barulhento animal de estimação.

 Apesar de antiga, extremamente atual. Segue o texto.

 Logo na primeira noite em meu novo apartamento, percebi que alguém na vizinhança possuia um galo. Sim, aqueles habitantes de sítios e fazendas que costumam cantar ao raiar da manhã.

A questão é que o infeliz deve ter algum problema hormonal, ou estar programado no horário de verão. Pontualmente, às quatro horas, ele dá o ar de sua graça, me acordando e deixando claro as poucas horas de sono que ainda me restam.

Mais incomodo que meu amigo de penas, porém, é a “franquia” do Reino de Deus localizada a poucos metros da minha residência. O culto, sempre muito animado, se estende até altas horas da madrugada e chega ao clímax quando, aos berros, o pastor invoca a presença divina. Devido ao assombroso barulho vindo da igreja, suponho que Cristo é surdo ou mora longe para cacete.

Apesar de toda a agitação, o messias ainda não apareceu, e antes que o pastor resolvesse usar um megafone a defesa civil resolveu intervir (ou algum órgão compatível) e interditou o local, para alívio da vizinhança.

Mas é aos sábados que surge a maior inimiga das noites bem dormidas. A feira. Ela termina exatamente na esquina do meu prédio, impossibilitando que, mesmo às sextas, eu tenha uma noite tranquila. Invadem a madrugada, montam suas barracas e fazem barulho, muito barulho.

Ao primeiro sinal de luz, empesteiam o ambiente ao som de cana moendo e um irresistível cheiro de pastel.

Tapo os ouvidos, conto carneirinhos, finjo que nada está acontecendo e permaneço na cama até o meio dia. Só venço a preguiça quando a fome está para me vencer. Imediatamente lembro que ao menos hoje o almoço está garantido:

- Moça me vê dois pastéis de queijo.

- Acabou o pastel!

É hoje que eu frito aquele galo!

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