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Estou a chegar
 
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O Reino de Tão Tão Distante…

Posted by Felipe Tonet on Nov 5, 2009 in Uncategorized

Após alguns meses de viagem e muitos outros de pura folga, arrumei um novo emprego. Volto para as origens, vou fazer jornal. Simples assim. Sem relatórios semanais, assessoria de imprensa, releases sobre produtos. Somente jornal. Melhor ainda, vou ganhar bem pela tarefa.

Claro que meu castelo de conto de fadas não poderia ser perfeito. Minha sala não possui ar condicionado, não concordo com algumas posições do sindicato e não trabalho com muitos outros jornalistas. Mas vou fazer jornal, isso que importa.

 

O castelo também não está muito bem localizado. Sou como Shrek e meu destino também se situa na Terra de Tão Tão Distante. Vulgo, Osasco.

Sob muitos e escaldantes graus me desloco com minha carruagem pelo vasto pântano chamado Marginal Tiete. As janelas (manuais) completamente abertas acentuam o perfume fecal do ambiente. Sozinho durante todo o percurso, faço o papel de Shrek e de Burro ao mesmo tempo:

 - Já chegou!?

 - Não!

- Está chegando!?

- Não!

- Já chegou!?

- Cala a boca, burro!

Uma placa para Osasco e outra para a Régis Bittencourt, estrada de enormes encantos (e buracos) que em algum momento desemboca em Curitiba, reino de princesas A idéia é tentadora, mas lembro que, como todo mortal consumista, preciso de dinheiro, sigo sentido Tão Tão Distante.

- Já chegou!?

- Não.

- Está chegando!? – Está! -

 Já chegou!? – Chegou, Burro.

- Ótimo, estamos somente 45 minutos atrasados.

- Outra vez, droga. Devia ter ido visitar a terra da princesa…

 
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Quem canta seus sentimentos espanta!

Posted by Felipe Tonet on Set 30, 2009 in Uncategorized

Pinto foi o meu primeiro motorista durante o tempo que passei trabalhando em Angola. Cabelo raspado como quase todos no país, alto e magro, muito magro. De tão negra, sua pele parecia petróleo, de tão branco, seu sorriso reluzia.

Passamos longas horas no caótico trânsito de Luanda, que me faziam ter saudade de São Paulo na hora do rush. Pinto sempre foi muito educado e simpático, pacientemente me explicava os detalhes e costumes locais, decifrava as letras das músicas de kizomba sempre recheadas de gírias e dialetos africanos.

Certo dia, percebi que o motorista falava sobre praticamente todas as canções, menos uma. Além disso, ele fazia questão de trocar de rádio sempre que ela começava a tocar. Pinto era casado, imaginei que pudesse ser algum caso antigo e delicadamente entrei no assunto.

Disse que aqui no Brasil algumas músicas me lembravam uma ex-namorada e por isso não gostava de ouvi-las. Dei alguns exemplos, e mesmo assim nada. Pinto não se manifestava.

A música em questão falava sobre uma esposa que enganava o marido, saia para beber e se divertir pelo bailes da noite. Pobre marido, concluía o cantor, pagava as contas e só queria uma esposa digna.

As letras angolanas lembram muito os sertanejos de Zezé de Camargo e Luciano e o tecnobrega do Calypso. Por sinal, eles adoram ambos. O sofrimento de um amor que se foi narrado de forma crua, quase cruel.

Perceptivelmente a música incomodava o Pinto. Aos casais, preencher momentos com músicas românticas é fato corriqueiro Terminado o amor certas músicas e lembranças tornam-se incômodas.

Não é privilégio do Pinto, da Angola, dessa ou daquela geração. O amor deixa marcas e essas marcas insistem em doer, mesmo depois de cicatrizadas. Lá estava eu, do outro lado do mundo, tentando entender o que se passava na cabeça do motorista. Quem sabe entender o que se passa em todas as cabeças.

Sejam bons ou ruins, associamos músicas com momentos, pessoas, sentimentos. Quem nunca quis cantar um verso berrado apontando o dedo para o nariz de outra pessoa. Expor toda a sua dor e o outro que aguente.

Seja do mestre Caetano, “Perua! Piranha! Minha energia é que mantém você suspensa no ar/ Prá rua! Se manda! Sai do meu sangue sanguessuga que só sabe sugar…”.

Do hit-maker Lulu, “Não vou dizer que foi ruim/ Também não foi tão bom assim/ Não imagine que te quero mal/ Apenas não te quero mais/ Não te quero mais/ Não mais!/ Não te quero mais/ Não mais!/ Nunca mais!”.

Ou de tantos outros, mais e menos famosos, mais e menos relevantes.

Cantando, doemos e curamos a dor. Eternizamos momentos e idealizamos pessoas. Cantamos a vida que não é perfeita, mas segundo Gonzaguinha ‘é bonita e é bonita’.

Do outro lado do oceano percebi que em matéria de amor o mundo é um vilarejo e reagimos todos exatamente da mesma maneira. Convidei Pinto para tomar uma cerveja, na Angola, assim como no Brasil, é assim que resolvem-se esses problemas.

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Meu amigo beija-flor

Posted by Felipe Tonet on Set 22, 2009 in Uncategorized

Paulo Francis narrava frenética e apaixonadamente os dias que antecederam – em sua visão impar – o golpe militar de 64. Páginas e páginas se passaram antes de conseguir desgrudar os olhos do livro e entender que o barulho que ouvia ao meu redor era de um pássaro. Um susto.

 Com o espanto quase cai da rede e o visitante hesitou. Parou e por instantes me olhou nos olhos. Voltou sua atenção para o vaso ao lado. Flores.

 - Rosangela olha que pomba estranha entrou aqui na sacada.

   No auge de seu conhecimento ornitológico Rosangela, minha babá, respondeu que a ave não era pomba, era um beija-flor e deveria ter fugido de alguma gaiola pela redondeza.

 Perante sua cara de superioridade, afirmei que sou da cidade grande. Aqui, se tiver asa é pomba, urubu ou avião e que ela também não conseguiria distinguir Strokes de Killers. Deu de ombros e foi embora.

 Intrigado com o tal beija-flor, levantei vagarosamente para observá-lo mais de perto. Afastou-se do vaso, pulou a sacada e sumiu. Levantei e olhei para o horizonte, nem sinal do passarinho.

 Quem sabe ele não volta, pensei. Vou fazer-lhe um agrado. Liguei o computador e fui pesquisar no Oráculo o que come um beija-flor. Uma googlada depois e já me sentia intimo da espécie. Néctar de flores, pequenos insetos e água com açúcar.

 Para mim separei chá de camomila e bolacha de água e sal. Para ele água com açúcar. Deixei entre os vasos e voltei aos ditos de Paulo Francis.

 Não demorou e meu novo amigo apareceu. Bebericou a água, roçou seu nariz comprido e fino nas flores e por fim pousou em minha xícara. Entreolhamos-nos novamente. Abri um sorriso e ele permaneceu imóvel. Não queria que ele fosse embora novamente.

 Após alguns segundos ele bebericou o chá e por ali ficou por um bom tempo. Continuei lendo e ele cantando. Cantando também levantou voo e dessa vez me deixou ver seu destino. A casa imediatamente ao lado do prédio, uma arvore que só consigo ver os últimos galhos.

 Apareceu no outro dia, no outro também. Ficamos amigos, quase íntimos. Todos os dias agora espero impacientemente sua volta.

 Fizemos até um acordo. Eu faço chá de camomila para dois e ele leva recados meus para a vizinha do 72.

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O Código da vitória é ser feliz roubando a semente em um minuto

Posted by Felipe Tonet on Set 2, 2009 in Uncategorized

Fui apresentado para o lado negro da literatura pela minha professora de administração, que beirando os 200 anos era enrugada feito um maracujá. Ela exigiu da turma a leitura do livro “O gerente minuto”.

 Uma história toda enfeitadinha de um jovem estudante que buscava conhecimento com o tal gerente. Esse lhe apresentou seus conceitos vitoriosos de gerenciar. Baboseiras como: Objetivos-Minuto, Elogios-Minuto, Repreensões-Minuto.

 Fácil assim, imaginei. Faculdade para que? O homem resolveu o problema, vou ler as 87 páginas e correr para o abraço.

 No mesmo ano a autoajuda havia virado febre. No natal fui presenteado com 3 exemplares de outro Best Seller do segmento, “Quem mexeu no meu queijo?”. Apesar de ser um sucesso de vendas e de todos comentarem sua importância no meio empresarial, não consegui ultrapassar a 23 página. Era a cópia do tal do gerente, mas com metáforas de ratinhos.

 A praga saiu do meio empresarial e com um tiro certeiro acertou a imensa parcela da população urbana, que sufocada em meio ao caótico cotidiano, se considera permanentemente infeliz.

 São milhares de títulos propondo a facilidade com que a vitória é conquistada, somente você, o imbecil, não sabe o segredo. “Nunca desista de seus sonhos”, “O Código da Inteligência”, “Quem me roubou de mim”, “A semente da Vitória”, entre muitos outros.

 De tão clichês, várias passagens dos livros deixariam com vergonha Paulo Coelho, o mestre do assunto. “Dentro de você já existe uma linda obra de arte. Seu grande desafio é retirar o excesso de mármore e completá-la”, filosofa Roberto Shinyashiki, autor de best-sellers como “O Sucesso É Ser Feliz”.

 Do sucesso, para o sucesso no amor foi um pulinho. “Por que os homens amam as mulheres poderosas?”, “Casais inteligentes enriquecem juntos”  e para completar: “Ele simplesmente não está afim de você”, atual livro de cabeceira da minha ex-namorada.

 Apesar dos 5 anos de relacionamento, graças a essa obra prima, ela descobriu que eu nunca “estive afim dela”. (as aspas são os dedinhos balançando)

 Chega de Freud, Kant, Kafka e Bukowski. Vou começar do zero: “Mãe me empresta o Monge e o Executivo?”

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A arte do encontro

Posted by Felipe Tonet on Ago 3, 2009 in Uncategorized

Vistosa, queimada do sol e ainda mais bonita do que eu lembrava. Cabelos loiros ao vento, franja jogada de lado, calça jeans apertada, blusa branca decotada. Fazia anos que não nos víamos nem por acaso, como desta vez.

 Agachado procurando uma tal pomada para cicatrização, não tive como reparar nos medicamentos depositados em sua cestinha. Pílula anticoncepcional? Camisinhas? Medicamentos para gripe? Não sei. Morri de curiosidade.

 A mulher em questão foi minha paixão juvenil. Demorei anos para conquistá-la e quando consegui durou pouco. Nos afastamos, afastamos, afastamos e sumimos da vida um do outro.

 Levantei, cumprimentei e fiquei tão entretido na conversa que me esqueci completamente dos medicamentos na cesta. Continua solteira, namora há anos. Parou de surfar, não quer mais morar na praia. Formou-se em direito, trabalha em um escritório na Berrini.

 Foi o quarto encontro com o passado que tive em duas semanas. Recentemente encontrei no supermercado minha primeira namorada séria. Eu comprando cerveja para o fim de semana e ela fazendo as compras da casa.

 Casou-se com um evangélico, usa saia e cabelos compridos. Deus é a resposta. Ao contrário da loira, minha primeira namorada já foi mais bonita. Teria eu virado crente se o namoro vingasse? Teria ela tatuagens?

 Outra amiga que há tempos sumiu resolveu aparecer pela rede. Não nos vimos, mas por MSN percebi o quanto mudou. Era decidida, guerreira, cheia de objetivos. A primeira da turma, que todos sabiam que chegaria longe.

 Quase foi, ficou pelo meio do caminho. Contentou-se com o que já havia conquistado. Casou e agora não enxerga como pode voltar para os antigos objetivos. Jogar para o alto? De forma alguma.

 Teria eu ficado com receio de largar tudo e viajar pelo Brasil se na época ainda fôssemos grandes amigos? Não creio, mas também não duvido.

 Como dizia o poeta, A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.  E são os encontros que nos fazem pensar, crescer e mudar. Quem sabe não viro budista, muçulmano ou cristão. Começo a gostar de vôlei, tênis ou música sertaneja.

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No sono dos outros é refresco

Posted by Felipe Tonet on Jul 24, 2009 in Uncategorized

Uma das primeiras crônicas que escrevi na vida foi sobre a presença de um galo cantando pela vizinhança. Após anos, outro vizinho – ou o mesmo – apareceu com um novo e barulhento animal de estimação.

 Apesar de antiga, extremamente atual. Segue o texto.

 Logo na primeira noite em meu novo apartamento, percebi que alguém na vizinhança possuia um galo. Sim, aqueles habitantes de sítios e fazendas que costumam cantar ao raiar da manhã.

A questão é que o infeliz deve ter algum problema hormonal, ou estar programado no horário de verão. Pontualmente, às quatro horas, ele dá o ar de sua graça, me acordando e deixando claro as poucas horas de sono que ainda me restam.

Mais incomodo que meu amigo de penas, porém, é a “franquia” do Reino de Deus localizada a poucos metros da minha residência. O culto, sempre muito animado, se estende até altas horas da madrugada e chega ao clímax quando, aos berros, o pastor invoca a presença divina. Devido ao assombroso barulho vindo da igreja, suponho que Cristo é surdo ou mora longe para cacete.

Apesar de toda a agitação, o messias ainda não apareceu, e antes que o pastor resolvesse usar um megafone a defesa civil resolveu intervir (ou algum órgão compatível) e interditou o local, para alívio da vizinhança.

Mas é aos sábados que surge a maior inimiga das noites bem dormidas. A feira. Ela termina exatamente na esquina do meu prédio, impossibilitando que, mesmo às sextas, eu tenha uma noite tranquila. Invadem a madrugada, montam suas barracas e fazem barulho, muito barulho.

Ao primeiro sinal de luz, empesteiam o ambiente ao som de cana moendo e um irresistível cheiro de pastel.

Tapo os ouvidos, conto carneirinhos, finjo que nada está acontecendo e permaneço na cama até o meio dia. Só venço a preguiça quando a fome está para me vencer. Imediatamente lembro que ao menos hoje o almoço está garantido:

- Moça me vê dois pastéis de queijo.

- Acabou o pastel!

É hoje que eu frito aquele galo!

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O dia todo dia

Posted by Felipe Tonet on Jul 22, 2009 in Uncategorized

Levanto substancialmente desnorteado, amassado, com a sensação de ter dormido mais do que devia. A urgência no caminho até o banheiro corrobora a sensação.

 São Paulo é uma cidade cinza. No auge do inverso é praticamente impossível saber o período do dia olhando para o Céu. Podem ser 10h ou 17h, não faço a menor idéia.

 A obscura voz da ressaca me avisa, devo material. Vida de freelancer, se não terminar não recebe. Lembro também que devo procurar o ex-chefe, quem sabe ele não tem outros freelas para eu, como de costume, atrasar o prazo.

 Quem nunca ouviu célebre “São Paulo não dorme”. Dorme. Mal, mas dorme. Com o chacoalhar dos caminhões vazios, o zunido dos cabos elétricos e o assobio dos seguranças particulares. Dorme. Durmo.

 Sem decidir se coço a nuca ou o traseiro, me dirijo até a sala, ligo a TV. Pelo vigésimo dia encontraram algo inédito sobre Michael, creio que encontrarão por anos. Amanhã o dia será nublado, como se alguém imaginasse o contrário. No rádio de algum vizinho a linda loira canta Listen To Your Heart. Como era bonita a cantora do Roxette.

 Como um bêbado, São Paulo desperta. De sopetão, de sobressalto. Em questão de minutos milhares de carros tomam os seus lugares, todos os lugares. Uma multidão segue para o sul. Sempre para o sul.

 Pego o leite e o Nescau – Sinto-me um menino, mas adoro Nescau. O jornal informa que estamos com problemas na Cracolâdia, Sarney novamente encontra-se enrascado, Simão não perdoa ninguém. Segundo o microondas, passam das 14h. Minha cabeça dói.

 A megalópole é tão grande que causa claustrofobia. Suas avenidas, ruas, praças, becos. A sensação de ser inexpressivo é corriqueira. Por essas vias, ninguém faz a menor diferença.

 O final do expediente não é tão repentino. Seu reflexo pode ser sentido no trânsito por volta das 16h, e nos bares, botecos e restaurantes poucos minutos depois.

 Pela primeira vez no dia a cidade vive. Como diria Arnaldo, o pulso ainda pulsa. Gritos na rua, conversas na esquina, cerveja no bar. A noite cai, algumas pessoas também. Com o subir da lua, São Paulo dorme. Mal, mas dorme.

 No silêncio leio, mexo, penso, escrevo, bebo, remexo. Antes dos últimos caminhões, durmo. Daqui a pouco começa tudo outra vez.

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Meu Arquiinimigo

Posted by Felipe Tonet on Jul 7, 2009 in Uncategorized

Conheci Pedro Henrique (nome de mentirinha) na pré-escola, e aos 6 anos ele já  tramava para acabar com a minha reputação. Tudo que eu tentava fazer, ele fazia melhor.

 Para começar, era quase duas vezes maior que eu, mesmo tendo nascido 5 meses depois. Era mais bonito, tinha os olhos mais claros e jogava futebol melhor. Conseguia encaixar as piadas sempre na hora certa e fazia questão de nunca rir das minhas, o que o resto da classe acompanhava.

 Certa vez, o combinado era levar comida para a escola, fazia parte de alguma festividade infantil que não lembro mais. Na descida da perua meu inimigo esbarrou em mim e derrubei todas as coxinhas compradas por minha mãe para a ilustre ocasião. Fui a única criança que não colaborou com a boquinha.

 Por anos e anos Pedro Henrique foi meu arquiinimigo (escreve assim mesmo, tudo junto). Eu era o Batman e ele meu Coringa; eu era o Homem-Aranha, ele era o Duende Verde; eu era o Peter Pan, ele era o Capitão gancho.

 O Vilão era astuto. Eu era o Super-Homem e ele meu Lex Luthor, conhecia minhas fraquezas, sabia usar a Criptonita. Próximo de completar 10 anos eu estava completamente apaixonado por uma linda morena dos olhos verdes. Andréia. Pedro Henrique percebeu e resolveu se apaixonar também.

 Escrevi uma carta abrindo meu coração, colei diversos corações, usei todos os 36 lápis de cor da caixa da Faber-Castell. Pedro Henrique escreveu uma carta maior, com mais corações e mais cores. A partir daquele dia começaram a andar de mãos dadas pelo colégio.

 Ao fim do primário meu rival mudou de colégio e nunca mais nos vimos. Recentemente fui levar o carro para fazer a revisão dos 10 mil quilômetros, e para minha surpresa reconheci o atendente.

 Era ele. Pedro Henrique. Não é mais tão maior que eu, creio até que somos do mesmo tamanho. Bochechas salientes, cabelo loiro despenteado, camisa e gravata do uniforme. Não parecia tão malvado.

 Pedro Henrique também me reconheceu, lembramos os tempos de escola, a infância, o colégio. Disse-me que recentemente terminou um noivado, é pai de uma menina. O tempo passa. Como passa. Nos despedimos, esperei o carro e fui embora.

 Crescemos. Envelhecemos. Será que melhorei muito em todos esses anos? Não creio. E nem ele. A única certeza é que ambos fizemos bom negócio. A Andréia encontrei em um bar perto de casa. Óculos fundo de garrafa, espinhas no rosto e do tamanho de um leitão.

 
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Amiga orgânica

Posted by Felipe Tonet on Jul 3, 2009 in Uncategorized

No começo do ano usei como pretexto o Fórum Social Mundial (realizado em Belém do Pará) e resolvi tirar alguns meses para viajar pelo Brasil. Coloquei a mochila nas costas, juntei alguns trocados e contei com a boa vontade do meu tio que me doou milhas aéreas.

Passei por grande parte do litoral do brasileiro e algumas partes do sertão nordestino. Mais do que praias, cidades ou vilas, conheci pessoas, fiz amigos. Muitos amigos.

Essa semana duas delas vieram me visitar. A Vivi, mineira de Belo Horizonte, e a Erika, uma mexicana que há 8 anos vive expatriada. Sendo que os últimos 2 anos viajando pelas Américas.

Nos conhecemos em São Luis, no Maranhão, rumamos para o Fórum. Alguns percalços adiante e nos reencontramos em Olinda para o carnaval.

A Vivi continua exatamente igual e com o sarcasmo de sempre me alertou que a Erika agora vivia de luz. Imaginei ser um estrondoso exagero, descobri que não era tanto assim.

Não exatamente de luz, mas de comidas orgânicas. Nada de conservantes, agrotóxicos ou qualquer outro produto químico. Somente comidas naturais. Fácil, logo em São Paulo, onde nem as pombas são orgânicas, e os sanduíches do MC Donald contêm menos gordura do que muitas laranjas vendidas em supermercados.

Felizmente a Erika trouxe alimentos orgânicos para suas refeições. Todos adquiridos na comunidade em que passou algumas semanas e adotou esse novo estilo de vida. Creio que a comunidade fica no Espírito Santo ou na Bahia, algo assim.

Como os alimentos sustentam menos minha estimada amiga precisa se alimentar a cada 3 horas. Seja em casa, no carro ou no bar da rua Augusta. Algum tempo no trânsito e o carro fica empesteado com cheiro de banana, todos no boteco bebendo cerveja e o cinzeiro divide espaço com o lixinho das cascas de laranja.

Após alguns dias e o estoque natureba da Erika começou a minguar e juntos fomos à feira livre que alegra a esquina da minha casa aos sábados. Moço você tem bananas naturais? Orgânicas?

- Claro moça, aqui só vendemos frutas sem agrotóxico. No máximo jogamos óleo diesel nos pés de banana para afastar formigas.

Acho que a Erika vai precisar aprender a fazer fotossíntese…

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