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Brasileiro, você conhece o Moçambique?

Michell Niero | Literatura, Moçambique | Segunda-feira, 05 Maio 2008

para ler ouvindo - Tim Maia - Rodésia

O escritor moçambicano Mia Couto (foto) demonstrou em entrevista recente ao Roda Viva, exibido às segundas pela TV Cultura, seu pessimismo a respeito do conhecimento do brasileiro sobre seu pais.

Mia Couto não estampa fachadas de escolas estaduais, não nomeia travessas asfaltadas dos Jardins (bairro rico paulistano), nunca foi recebido pelas autoridades federais na Explanada dos Ministérios, não joga frescobol com ministros nas praias de Copacabana e não vem ao Brasil para “curtir” o carnaval. Ele escreve livros, mas nunca foi um best seller, e aparece por aqui, vez ou outra, para lançar suas obras em “terras do Cristo Rei”.

Mesmo com as turbulentas guerras civis, Mia morou todos os seus 53 anos no Moçambique. Ele é branco, faz parte da elite que detêm quase todas as riquezas produzidas por seu país. Escreve, quase sempre, sobre negros. Mas nunca para negros. A culpa não é dele.

Ele mesmo trata com certo constrangimento esta questão. A literatura-exportação de Mia é importante para promover as culturas de seu país, mas insuficiente para resolver problemas básicos em seu quintal.

Assim como ocorreu no Timor Leste, o português foi imposto como língua oficial para dar uma “identidade cultural” ao Moçambique. Existem cerca de 20 grupos lingüísticos convivendo nos 799.380 km2 (um pouco menor que o estado do Mato Grosso). Todos eles são contrários à troca dos idiomas, tidos como tribais, pela última flor do Lácio deixada pela exploração portuguesa.

O manancial de idéias de Mia Couto - repertório adquirido nos tempos de militância jornalística e na sua recente dedicação à Biologia -, já foi responsável pela publicação de 19 livros. Ele vive num país onde se escreve, em média, 15 livros por ano. Ouvir falar de Brasil por lá não é muito difícil. Novelas, pagodes e a Igreja Universal são elementos culturais que povoam o cotidiano do moçambicano.

Graças a estes referenciais, muitos dos sub-letrados que povoam a jovem nação (só conseguiram independência em 1974) sabem que o Brasil fica na América do Sul, que a capital é Brasília e que o presidente chama-se Luiz Inácio Lula da Silva. Mia conta em suas entrevistas que muitos brasileiros perguntam a ele coisas como “Aonde fica o Moçambique mesmo?”.

Mas que direito tem um branco, brasileiro, que nunca saiu da América, de falar do Moçambique? Afinal, existem por lá quase 21 milhões indivíduos com histórias para contar e que sentem - verdadeiramente sentem - o frescor da brisa do Oceano Índico. Na verdade, este artigo não passa de uma provocação barata.

Esta pena precisa estar nas mãos de quem vive verdadeiramente no Moçambique. De quem respira, ou respirou, os tormentos deste país cheio de energia, novidades e semelhanças com o Brasil. Não é de se estranhar que os brasileiros não conheçam o país de Mia. Muitos aqui menosprezam o Acre, estado do extremo norte do país, imagine só o Moçambique, que fica lá na casa do chapéu. Outros preferem tornar tudo uma desciclopédia. Outros, como eu, buscam mudar esta situação. Mas sozinho é difícil. Muito.

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