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Português de despistamento

Michell Niero | Brasil, Cidade, Michell Niero, cotidiano, linguística | Segunda-feira, 30 Junho 2008

Foi diante de 50 ou 60 passageiros de um trem metropolitano (boa parte de pé) que dois homens de idade, com grandes vincos no rosto, resolveram puxar uma conversa:

- Olha, tão dizendo que teu pai tá te esperando na Lapa, é melhor você ficar ligado
- Rapaz, isto aqui tem nota viu. Eu mostro se ele quiser desembrulhar o pacote

O diálogo acima retratado envolve dois vendedores ambulantes de São Paulo que, por estarem trabalhando na clandestinidade, precisam cifrar a conversa para despistar a fiscalização (pai).

‘’Enquanto existirem grupos e classes, existirão também gírias e calão’’. Ariel Tacla, autor do Dicionário dos Marginais, justifica assim o motivo de sua obra, publicada no longínquo ano de 1981. Engenheiro e filólogo, ele aproveitou a aproximação que teve junto ao Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro, do qual foi diretor, para reunir em livro uma amostra do rico jargão criado pelos detentos:

Desengoma a culatra esquerda daquele otário, que eu vou mandar ele de passage Tradução: Desabotoe o bolso traseiro da calça daquele sujeito,que eu vou lhe roubar a carteira, de passagem

Solta essa grinfa, que dona Laura tá nas boca de carango. Tradução: Solta essa mulher que a polícia tá rondando de automóvel.

Ariel acredita que a gíria é uma espécie de caricatura do português ‘’padrão’’, criado e mantido pela elite. A fúria do preso se concentra na criação de novas palavras, expressões e significados sobre aquilo que a ele é imposto como a norma padrão da língua.

São nesses redutos, nos agrupamentos sociais à margem dos centros econômicos das grandes cidades lusófonas que a língua portuguesa respira, renasce e se expande. Mas o choque cultural com os homens de terno e gravata é inevitável. E aí que temos uma guerra, ou então uma treta: rola à vontade o preconceito cultural sobre a língua do pobre. Ele é subestimado, inferiorizado e taxado de burro e ignorante, pois ‘’menas coisas’’ está errado. ‘’É um assassinato à língua portuguesa’’, dizem eles.

Mesmo assim, os estudos lingüísticos mostram que a cultura popular sempre ganha, mas sempre precedida, é claro, de uma briga de foice. Pelo menos no Brasil, ‘’menos’’ será trocado por ‘’menas’’ (mesmo que o Word insista em grifar em vermelho) daqui há algum tempo. Mesmo com as chacotas na novela, das piadas nos humorísticos da TV e no sorriso irônico daquele colega da firma. A língua é patrimônio do povo, mesmo com todas as interferências políticas e econômicas que recaem sobre ela.

O escritor Guimarães Rosa, por exemplo, ao publicar sua mais famosa obra, ‘’Grande Sertão, Veredas’’, foi duramente combatido por alguns críticos reacionários por deturpar a língua portuguesa com termos do português utilizado nos rincões brasileiros. No entanto, o que temos hoje são estes mesmos críticos (com nomes diferentes , é verdade) colocando o escritor no mais alto altar da literatura em língua portuguesa. Nada mais tradicional no Brasil do que tratar, com tradicionalismo, a nossa flor do Lácio, inculta e bela.

Mexer no calo que já se acostumou com o sapato pode doer muito. Mas chega uma hora que é inevitável: ele terá de tirar o sapato e cheirar o xulé. Aí então ele vai ter de aprender que o odor ruim sentido pelo nariz dele pode ser um adocicado perfume francês para o resto povo. Rendido aos fatos, ele vai ter de aprender a fórmula do xulé , engarrafar o cheiro em finos frascos e mudar a noção de fedor de toda a sociedade.

A língua portuguesa passa todos os dias por este mesmo processo. Às vezes o problema não é o cheiro e sim o nariz.

Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

Os postes

João Pinheiro | Artes plásticas, Brasil, Cidade, João Pinheiro, cotidiano | Domingo, 29 Junho 2008

“O homem vive e morre no que vê, mas vê apenas aquilo que sonha”.

Paul Valéry

Sentado no banco da praça observo os postes mudos que são como sentinelas sobre nossas cabeças. Já desenhei muitos postes nesses anos todos e sei que nenhum poste é igual ao outro, eles parecem ter alma.

João Pinheiro é brasileiro, cartunista, ilustrador e escreve todos os domingos - com textos e imagens - no blog Descobri a Pólvora! Conheça mais do trabalho brilhante do João no portifólio dele e nos blogs Os Subterrãneos e Cabeçorra e Corvolino.

O leitor pode conferi-lo também na exposição ”Ilustra Brasil”, no Senac da Lapa, que reúne 96 ilustradores de grande importância no Brasil. Para mais informações clique aqui.

Viva a zanfona!

Emerson Santiago | Emerson Santiago, Galiza, História, Música, linguística | Quinta-feira, 26 Junho 2008

Saiba máis sobre este instrumento musical de máis 1000 anos de idade

TÔ NEN AÍ (hoje em galego)

Meu obxetivo será tratar de lusofonia sem abordar asuntos relacionados a Brasil ou Portugal. Será que consigo?

A ideia orixinal por detrás deste artigo surxiu de unha curiosidade miña. Sou fascinado polo trobadorismo galego-portugués; na escola era o período literario que máis me cativou. Porém, em lugar algún, até mesmo aquí na internet é dificil encontrar a resposta a unha pregunta moito simples e por demáis óbvia: sendo os trobadores músicos, (eu tamém sou músico, toco viola caipira e guitarra elétrica) que instrumentos musiciais estes utilizaban?.

Pois bem, despois de moita pesquisa, comprendi cos trobadores utilizaban xeralmente catro a cinco instrumentos, saber: a viola (algo parecido con a viola braguesa, hoxe ainda existente en Portugal), o rabel (rabeca), a gaita (gaita-de-foles), o laúde (alaúde) e a zanfona.

Como todos os outros instrumentos estan relacionados a culturas diversas ou co Portugal (miña missão aquí é falar de qualquer outras culturas lusófonas, excepto Brasil o Portugal, certo?), e devida a extrema orixinalidade do instrumento e seu relativo descoñecimento, achei que merecia un artigo contando sua historia.

A zanfona surgiu lá polo século X onde hoxe é a actual Galiza. Un dos primeiros formatos era a de unha grande guitarra, coñecida como organistrum. Era tocada por duas pessoas, unha tanxia a manivela e a outra operaba as chaves no braço do instrumento. Era deveras complexo, e acreditase que as melodias tocadas eran sempre lentas (a catedral de Santiago de Compostela (Portico da Gloria) traz a figura de dois músicos tocando un organistrum).

Logo surgiu o formato definitivo, destinado a um músico apenas, e moitos dos trobadores medievais utilizaban a zanfona. Tanto é assim co instrumento viaxou con esses músicos intinerantes a diversos países da Europa, onde foi incorporado a música tradicional local. Na França recebeu o nome de ”vielle à roue” (violino de roda); no Reino Unido, recebeu o nome de ”hurdy-gurdy” (onomatopea, alegadamente referente o son estridente do instrumento, que non agradaba os naturais ingleses); na Hungria é tamém parte da música tradicional, co nome de ”tekerolant”.

O seu funcionamento é deveras simples apesar da aparencia complexa. Un disco de madeira tanxido pola manivela do instrumento percorre as cordas igual co arco do violino, e as notas son producidas por chaves que presionan as mesmas cordas apoiadas no braço.

O instrumento desfrutou de certo prestigio en toda Europa até o fin do Renacemento. Despois, entrou en declinio, sendo asociado a mendigos e traballadores rurais. Na Galiza aconteceu o mesmo, principalmente despois da unificaçon coa España, até desaparecer por completo. O único instrumento de corda da música tradicional galega seria apenas unha memória durante séculos, até que no entrado do século XX Perfecto Feijoo resucitou o instrumento, tornandoo popular novamente em terras galegas. Aliás, é de Perfecto Feijoo (con o grupo coral Aires da Terra, de sua criação) a primeira gravaçon en disco de música galega, en 1904, tocando a mesma zanfona.

Vexa tamém:

Sitio con detalles de construción da zanfona

http://vielleroue.free.fr/

Video de construción dunha zanfona (con son da mesma tocando ao fundo):

Emerson Santiago é brasileiro, advogado, professor de inglês e é um apaixonado pelas culturas lusófonas. Ele escreve todas às quintas-feiras no do blog Descobri a Pólvora!

Praça do Geraldo

Jorge Rosmaninho | Cidade, Jorge Rosmaninho, Portugal, cotidiano | Quarta-feira, 25 Junho 2008

A Praça é, para eles, o centro do mundo. Chegam com as sombras compridas da manhã. Sonolentos e sorrateiros. Um de cada vez, como bailarinos ensaiados. Serenos. De mansinho para não acordar de forma brusca nem o granito nem a cal que despertam aos estalidos com os primeiros raios de sol.

Sentados nos bancos ou de pé, encostados aos arcos, os velhos da Praça discutem o mundo. O dos outros e o deles também. Bush é bandido. Os africanos morrem de fome, de sede e afogados. Coitados… O presidente da câmara fez mais uma asneira. E o da junta casou outra vez. O Benfica perdeu. E o Lusitano empatou.

De cara baixa olham as pedras. Cospem os anos e a velhice para a calçada. Limpam os lábios mirrados a um lenço escangalhado. E tentam desafiar – em velhos – a morte, como em novos desafiaram miséria e touros. Vão pegando de caras as tábuas de pinho envernizado, que nunca se viveu o suficiente para morrer em paz. E resistem ao fim, procurando força nas pernas e nos decotes das turistas que passam enfeitadas de calor e charme.

A navalha ceifeira no bolso defende a honra e corta o alimento. O martelo não faz falta. Paira por perto, no cartaz defronte. O partido já não é o que era e eles – afinal – também não. A desilusão tem um slogan: “Maganos dos comunistas!”

Quando o sol escala o céu, a sombra diminui a seus pés. O êxtase esvai-se, tal como as “belas” turistas que fogem ao calor. A extinção da espécie chega com o fim da manhã, quando por fim morrem os últimos pedaços de sombra e todos os velhos abalam. Os dois que restam hão-de exclamar um para o outro, apoquentados:

- O último a partir não tem quem o tape.

Jorge Rosmaninho é alentejano, jornalista e percorre a África em busca de imagens e histórias. Além de colaborar para a Revista O Patifúndio, ele mantém o blog Africanidades

Automóveis de ilusão

Michell Niero | Brasil, Cidade, Michell Niero, cotidiano, traços culturais | Segunda-feira, 23 Junho 2008

Não é à toa que o motorista de São Paulo enfrenta congestionamentos com cada vez mais frequência. São mais de 6 milhões de veículos em circulação na cidade, número constatado em fevereiro deste ano. Não é pra menos também que só na metrópole paulistana existe jornalismo especializado em trânsito, por exemplo, e até uma rádio dedicada a falar somente disso, durante 24 horas por dia.

Dedicar  2, 3 horas por dia para ficar parado no meio da marginal Tietê tornou-se próprio da cultura do paulistano de classe média. Muitos por aqui aproveitam para ler livros, revistas, retocar a maquiagem (para as mulheres), escrever, fofocar no celular navegar na internet e até realizar movimentações de ações na bolsa de valores pelo telefone. Um verdadeiro playground feito de lata, borracha e de muita ilusão.

Estudos da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) apontam que, na década de 70, haviam 14 mil quilômetros de ruas pavimentadas para 965 mil veículos. Trinta e oito anos depois, há 15,3 mil quilômetros para a frota de 6 milhões. Na prática, não há espaço para todo mundo.

Os engarrafamentos são transtornos que unem, pelo menos, três capitais do mundo lusófono: alem de São Paulo, Luanda (Angola) e Maputo (Moçambique) sofrem do mesmo mal. Em Luanda, especialmente, a esbórnia e até maior: além da quantidade absurda de carros, falta sinalizações e o suborno entre guardas de trânsito é mais frouxo do que aqui.

Existe uma questão cultural no Brasil que agrava esta situação. Influenciado pelo American Way of Life, está plantado na cultura dos brasileiros (homens, principalmente) o hábito de comprar um carro para adquirir liberdade, respeito, status e mulheres. É um fetiche que passa de pai pra filho, fenômeno que vem sendo observado com frequência a partir dos incentivos à indústria automobilística durante o governo de Juscelino Kubitschek, nos anos 50. Foi a partir daí que todo brasileiro, antes de ter emprego, educação, saúde, passou a sonhar em ter um Fusca, ‘’o carro do povo’’ dos alemães.

Desde então, ficamos acostumados a brincar de carrinho, jogar videogame (de carrinhos), a assistir desenhos cujos temas envolvem automóveis e a tornar toda e qualquer brincadeira no colégio em um pega-pega. Do mesmo jeito que o pobre faz bola de meia para jogar futebol, este mesmo faz carrinhos de rolemã com a madeira da caixa de banana vendida pelo pai na feira. Independente da posição social, sempre dá-se um jeito para que este ritual de iniciação entre o homem e o carro no Brasil ocorra logo na infância.

Aquela criança que organizava imensos estacionamentos de carrinhos em miniatura no meio da sala, ele, que adorava ajudar o pai a lavar o Chevette 87 nos fins de semana, este mesmo rapaz que aos 12 ou 13 anos queimava fichas no fliperama de corrida mais próximo, chega aos 16 querendo guiar um carro. Muitas vezes ele consegue.

Essa necessidade brasileira por carros fez criar uma indústria paralela (que todos conhecem, mas que ninguém denuncia) de compra e venda de carteira de motoristas. Outra indústria, a do suborno ao ‘’coxinha’’ (nome dado ao policial aqui em SP) prospera a cada esquina.

O resultado de tudo isso estão nos números: inspirado pelo filme estadunidense, ‘’Velozes e Furiosos’’, o mercado de tuning (carros personalizados) cresceu cerca de 30% nos últimos três anos. Outro mercado crescente, o de ‘’pegas’’, cresce na mesma proporção, fazendo com que a cada nova rua aberta a primeira preocupação dos órgãos de trânsito seja a colocação de lombadas e radares com câmera para conter os rachadores.

Na troca de papéis provocada pela pós-modernidade, ter um carro ‘tunado’’ no Brasil pode valer mais que a personalidade e a aparência do rapaz frente as mulheres, uma balada pode ser realizada tranquilamente num posto de gasolina e nada impede a realização de uma corrida de automóveis numa avenida longa, plana e sem fiscalização em São Paulo. Comprar um carro antes de pensar nos estudos ou em adquirir uma casa própria é também um hábito bastante freqüente por aqui.

Numa sociedade em que a competição faz parte do jogo , nada mais normal que a cultura da nova geração nos ofereça um cardápio cultural bastante incômodo e de difícil encaixe social. Temos, sim, que nos acostumar com uma nova geração de rachadores, trocando posições na longa avenida para manter uma posição perante as menininhas da cidade.

Enquanto isso, na bolsa de valores de São Paulo, outros ‘’pegas’’ ocorrem com o mesmo perigo e intensidade. A deixa proporcionada pela lentidão no trânsito faz com que aquele homem no carro, gravata vermelha e sapato de cromo alemão, movimente pelo celular seu carrossel, cujas posições até podem se alterar. É o único momento que o neoliberalismo pede pra trocar de marchas.

Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

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