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Angolana meio amarela

Felipe Tonet | Angola, Felipe Tonet, cotidiano, traços culturais | Sexta-feira, 30 Maio 2008

O cabelo não era nem liso, nem encaracolado. Praticamente deslizava até a linha da cintura. Era preto, de brilho intenso, combinava com a pele cor de mel, dourada. Olhos puxados, de um castanho quase verde, contrastavam com a boca carnuda e sensual.

Em 45 dias de Angola, só tinha me deparado com a miscigenação entre angolanos e portugueses. Os colonizadores, apesar de fechados entre seus conterrâneos, acabaram por se misturar à população local. Miscigenação com povos orientais, tão comum no Brasil, aqui ainda engatinha. A angolana amarelada aguçou minha curiosidade.

Entre 1975 e 1992 Angola foi um país comunista, cubanos e soviéticos combateram a guerrilha apoiada pela África do Sul e EUA. A presença comunista se verifica em ruas como Comandante Che Guevara ou Salvador Allende, e também nos aventais brancos utilizados pelas crianças nas escolas, ao modelo de Cuba.

Enquanto isso, a vejo usando um vestido azul, com grande decote V nas costas, largo até a cintura e extremamente apertado nas coxas, onde terminava.

Em 2002, com o fim da guerra civil, e com Angola já capitalista, muitos outros imigrantes chegaram. Brasileiros, franceses, americanos, e principalmente chineses.

As empreiteiras chinesas trazem toda a mão de obra e o material que será utilizado. Do engenheiro ao faxineiro, todos são chineses. Andam pela cidade nas caçambas dos caminhões, sempre com cara de assustados.

As pernas torneadas e o quadril largo deixavam claro a ascendência africana. Uma sandália, também azul completava o visual. Um casual-chique, diria eu, que não entendo nada de moda.

Decidi por uma aproximação, por questões de cunho “antropológico”, mas desisti quando vi ao seu lado um rapaz negro, de 1,80 metro e com o braço maior que minha coxa. Nada miscigenado. Perdi o interesse.

Felipe Tonet é brasileiro, jornalista, trabalha em Angola e escreve todas às sextas-feiras no Descobri a Pólvora!

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Português bonito, português de Guiné-Bissau

Louraidan Larsen | Guiné-Bissau, cotidiano, política | Quinta-feira, 29 Maio 2008

Encontrar uma diplomata guineense em um ônibus londrino pode ser uma tarefa difícil, mas às vezes acontece 

Estava voltando pra casa ontem, sentado no ponto, esperando o ônibus 18. Ao meu lado havia um menino, uma moça e um moço. Todos negros e falando um português, um portugues bonito… nao eram brasileiros, e nem eram portugueses. Pensei que podiam ser de Angola, mas o sotaque era diferente. Perguntei pra moça: de onde vc é? E descobri que eles eram de Guiné-Bissau.

Quando eu disse que eu era do Brasil, ela abriu um sorriso: já morei em Brasilia, estudei na UNB entre 1984 e 1989. conheci varios lugares no Brasil -  ela continuou - como Ouro Preto, Rio de Janeiro, Belo Horizonte…

Formada em relacoes internacionais, Carmem é diplomata em Londres. Acho lindo diplomatas, ja ate pensei em estudar, mas, na verdade, minha personalidade nao tem muito a ver com diplomacia… adoro uma briga.

Disse pra ela que o brasil que ela conheceu tá bem diferente do Brasil de hoje. Na epoca, ela conheceu o Sarney em Brasilia. Aqui em londres, há dois anos, ela foi a uma palestra do Lula. Tempos mudaram, realmente.

Eu ja estive em Brasília, já fui em várias manifestacoes, eu disse. Ela riu, e completou: sim, há mutas manifestações por lá. Isso continua o mesmo. Rimos.

Louraidan Larsen é brasileiro, jornalista e já esteve perdido em Londres. Atualmente ele assina o blog Tim Tim por tim tim.

Un monde a decouvrir (um mundo a descobrir)

Jorge Rosmaninho | Africanidades, Guiné-Bissau, linguística, política | Quarta-feira, 28 Maio 2008

Admito a lusofonia enquanto espaço cultural, espontâneo, que tem em comum uma mesma língua, falada, escutada, lida, em suma, utilizada. Admito a lusofonia enquanto espaço de referentes comuns, como, por exemplo, o desporto. Não concordo, no entanto, com a recorrente utilização de uma instituição popular (a língua) com fins políticos e estratégicos. Em África isso é recorrente por parte das antigas potências colonizadoras.

Para Portugal a Guiné-Bissau é o melhor exemplo do que acabo de falar. Constantemente “ameaçado” (segundo Portugal, o auto-denominado “dono” da lusofonia”) pela francofonia, a “Guiné Portuguesa” é território a proteger. Em meia dúzia de décadas de presença (efectiva) lusa no território, nunca os bissau-guineenses tiveram oportunidade de aprender o português. No pós-independência a mesma coisa. Só agora a aposta no ensino da língua surge como linha forte da cooperação do Estado português junto do Estado guineense. Uma aposta tardia e por receio. Receio que a francofonia ganhasse terreno no “nosso” (deles) território (assim se compreende porque puxa Portugal para o seu lado bissau-guineenses de formação e pensamento marcadamente francófonos).

Defender a língua portuguesa na Guiné-Bissau tem tanta validade como defender qualquer outra. No entanto, os defensores da lusofonia apresentam, desde logo, a estatística, dizendo que a língua portuguesa tem entre 180 e 200 milhões de falantes no mundo (os habitantes dos 8 países da CPLP mais os de Macau, Goa, Damão e Diu) e que isso, só por si, oferece garantias aos luso-falantes. Não há mentira mais pura. Se um nhanja do Niassa, Moçambique, ou um balanta do Oio, Guiné-Bissau, aprende as primeiras palavras de português aos 10 anos e apenas as utiliza nos muros da escola (quando regressa a casa fala nhanja, balanta ou crioulo) pode este indivíduo ser contabilizado como lusófono? Então também hoje, e aqui, me assumo francófono, pois todos os dias lido com o francês. E anglófono, porque de quando em quando falo inglês. E até germanófilo, pois dou uns pontapés na dificílima gramática alemã… (da mesma forma que os bissau-guineenses, em geral (pois há quem o fale melhor que eu), dão uns pontapés no português).

Creio que defenderia melhor os interesses da Guiné-Bissau um sistema de ensino (e um sistema político) que valorizasse o crioulo, como factor, por exemplo, de atenuação das clivagens étnicas. E, depois, algo de novo, que fizesse os guineenses ver mais além, algo que pusesse fim ao passado, que terminasse com o status quo instalado.

Não defendo a crioulização da Guiné-Bissau. O crioulo fecha os bissau-guineenses sobre si, impedindo-os de se abrir ao mundo (as fronteira do crioulo estendem-se a Ziguinchor e Cabo Verde, pas plus). Defendo, antes, uma ruptura com o passado. Já que o pouco que foi/está feito não funcionou, que se tente algo de novo. A francofonia afigura-se-me como o único espaço capaz de ajudar os guineenses a olhar mais além. Por razões muito pragmáticas. Quando passam a fronteira é “bonjour” que dizem. E do lado de lá, c’est tout un monde à découvrir… Ir ao Brasil, a Angola ou, até mesmo, a Portugal, é mais distante, demora mais tempo, custa mais dinheiro e não oferece tantas garantias.

PS: Não porei os pés tão cedo em Bissau senão queimam-me vivo. Não os amáveis e respeitadores bissau-guineenses, mas os fundamentalistas da lusofonia.

Jorge Rosmaninho é jornalista e percorre a África em busca de imagens e histórias. Além de colaborar para a Revista O Patifúndio, ele mantém o blog Africanidades .

Papa óstia e Street Fighter

Michell Niero | Brasil, traços culturais | Segunda-feira, 26 Maio 2008

Em tese, um bom jornalista, além de produzir  textos, de flertar (e bem) por diferentes linguagens textuais, deve ter também a habilidade em analisar discursos. Uma ferramenta que não é importante a ele somente para ler as entrelinhas dos palanques  mas para entender, também, o que está nas esquinas e nas conversas de elevador.

O jornalista e pesquisador Luiz Beltrão, em sua mais famosa obra ”Folkcomunicação”, identifica dois traços culturais fundamentais no brasileiro: o misticismo  e a agressividade. Então é por isso que o filho do seu Josias, da Casa Verde, bairro da cidade de São Paulo, vai à missa só depois de gastar umas fichas no Street Fighter, já carcomido pelo tempo, do boteco da esquina? É possível, mas me faltam armas para afirmar.

A Semiótica (ciência que pretende desvendar a maneira que a gente dá siginificado as coisas) divide em quatro os tipos de discurso: o intimidador, o sedutor, o desafiador e o tentador. Os nomes dizem tudo e não é muito difícil relacioná-los a um programa de tevê ou a uma mensagem publicitária,por exemplo. Mas vamos nos ater neste momento  à religião (misticismo) e ao Street Fighter (agressividade).

Se nos jogos de luta temos o desafio de se ganhar do outro, a intimidação física, na religião encontramos a provocação dos pastores evangélicos ao pedir dízimo e a intimidação ao dar ao capeta a unipresença das Casas Bahia e do banco Bradesco. Cuidado com ele - diz o pastor - venha para o nosso rebanho, pois senão…

A sedução é menos explícita e, por isso, tem maior potencial de periculosidade. Está na maneira entusiasmada do padre ler a bíblia, por exemplo, e no tete a tete dos boxeadores ao ouvirem do juiz as regras da luta. E o pai nosso já diz tudo, ”não nos deixeis cair em tentação!”.

São todas formas de manipulação, presentes por aqui, no Brasil, desde o primeiro espelhinho oferecido pelo português. Desde a primeira facada indígena dada no invasor branco, seja ele engenheiro ou não. Manipulação não quer dizer conquista, vale dizer.

Ainda não inventaram um  discurso capaz de impõr, sem negociação, determinadas ações e comportamentos. Reza-se quem quer, parte pra porrada quem quer,  apesar dos big brothers cada vez mais tentadores e sedutores.

Na verdade, a verdadeira intenção deste artigo foi de mostrar que a palavra diz muito sobre a personalidade da sociedade. Eu cuido das minhas e ganho novas a cada dia. E pretendo ganhar sempre e exercitar o verbo culturalizar com cada vez mais frequência e intensidade. E isso é fato, mas pode ser facto também, graças à língua portuguesa, minha segunda mãe.

Comprando minha vaga no Inferno

Felipe Tonet | Angola, Felipe Tonet, política, traços culturais | Sexta-feira, 23 Maio 2008

Angola é um país repleto de brasileiros, estimam cerca de 37 mil. A maioria das grandes construtoras que temos estão aqui, Odebrecht, Queiroz Galvão, Camargo Correia, entre outras.

Encontrei conterrâneos baianos, cariocas, mineiros, paranaenses e pernambucanos. Muitos pernambucanos, creio que, juntamente com os baianos, são maioria.

Cada um com um motivo, uma história, uma expectativa. Conheci um engenheiro pernambucano que desistiu de uma vaga num concurso público. Desistiu da namorada, de 6 mil reais que ganhava do estado em um emprego concursado, e veio para Angola.

Outro pernambucano, porém, arquiteto, trabalhou 1 ano e meio na ONU, no PNUD, conheceu diversos países, hoje trabalha em uma empresa brasileira de engenharia, não visita o Brasil desde que saiu, passa suas férias pelo mundo. A África está no meio de tudo, é muito mais barato partir daqui.

Entre as muitas histórias que ouvi, a de um simpático baiano foi a que mais me chamou a atenção. Publicitário, está em Angola fazendo campanha política para o MPLA, partido do governo. Em setembro, serão realizadas eleições legislativas, a primeira desde o fim da guerra civil, que durou de 1975 até 2002.

A ONG Transparecia Internacional realiza anualmente um ranking que mede a percepção de corrupção em 180 países do mundo. A escala vai de 10 (países menos corruptos) até 0 (países mais corruptos).

Em 2007, como nos outros anos, as primeiras posições, com menor índice de corrupção, são ocupadas por países como Finlândia, Nova Zelândia e Dinamarca. O Brasil ocupa a posição de número 72 no ranking.

Angola, e o MPLA que está no poder desde 75, ocupam a posição de número 142, é o país lusófono mais mal posicionado. O que leva meu conterrâneo baiano a afirmar que está “comprando sua vaga no inferno”.

Estou aqui organizando um congresso, teoricamente independente da politicagem local, porém, meu salário é pago pela mesma fonte. Creio estar comprando minha vaga também.

** Créditos para a Flávia, que apesar de não ser jornalista, é muito boa em encontrar fontes.

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