Angolana meio amarela
O cabelo não era nem liso, nem encaracolado. Praticamente deslizava até a linha da cintura. Era preto, de brilho intenso, combinava com a pele cor de mel, dourada. Olhos puxados, de um castanho quase verde, contrastavam com a boca carnuda e sensual.
Em 45 dias de Angola, só tinha me deparado com a miscigenação entre angolanos e portugueses. Os colonizadores, apesar de fechados entre seus conterrâneos, acabaram por se misturar à população local. Miscigenação com povos orientais, tão comum no Brasil, aqui ainda engatinha. A angolana amarelada aguçou minha curiosidade.
Entre 1975 e 1992 Angola foi um país comunista, cubanos e soviéticos combateram a guerrilha apoiada pela África do Sul e EUA. A presença comunista se verifica em ruas como Comandante Che Guevara ou Salvador Allende, e também nos aventais brancos utilizados pelas crianças nas escolas, ao modelo de Cuba.
Enquanto isso, a vejo usando um vestido azul, com grande decote V nas costas, largo até a cintura e extremamente apertado nas coxas, onde terminava.
Em 2002, com o fim da guerra civil, e com Angola já capitalista, muitos outros imigrantes chegaram. Brasileiros, franceses, americanos, e principalmente chineses.
As empreiteiras chinesas trazem toda a mão de obra e o material que será utilizado. Do engenheiro ao faxineiro, todos são chineses. Andam pela cidade nas caçambas dos caminhões, sempre com cara de assustados.
As pernas torneadas e o quadril largo deixavam claro a ascendência africana. Uma sandália, também azul completava o visual. Um casual-chique, diria eu, que não entendo nada de moda.
Decidi por uma aproximação, por questões de cunho “antropológico”, mas desisti quando vi ao seu lado um rapaz negro, de 1,80 metro e com o braço maior que minha coxa. Nada miscigenado. Perdi o interesse.
Felipe Tonet é brasileiro, jornalista, trabalha em Angola e escreve todas às sextas-feiras no Descobri a Pólvora!
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tarefa difícil, mas às vezes acontece
Admito a lusofonia enquanto espaço cultural, espontâneo, que tem em comum uma mesma língua, falada, escutada, lida, em suma, utilizada. Admito a lusofonia enquanto espaço de referentes comuns, como, por exemplo, o desporto. Não concordo, no entanto, com a recorrente utilização de uma instituição popular (a língua) com fins políticos e estratégicos. Em África isso é recorrente por parte das antigas potências colonizadoras.
diferentes linguagens textuais, deve ter também a habilidade em analisar discursos. Uma ferramenta que não é importante a ele somente para ler as entrelinhas dos palanques mas para entender, também, o que está nas esquinas e nas conversas de elevador.
Angola é um país repleto de brasileiros, estimam cerca de 37 mil. A maioria das grandes construtoras que temos estão aqui, Odebrecht, Queiroz Galvão, Camargo Correia, entre outras.