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Zoar: verbo intransigente

Michell Niero | Brasil, Michell Niero, política, traços culturais | Terça-feira, 05 Agosto 2008

BRASIL - A primeira oportunidade de zoar (ou de tirar onda) aparece na escola, junto à turma de amigos mais legais. É o momento de @ garot@ sentir na pele, pela primeira vez, o prazer de pertencer a um grupo de pessoas fora do ambiente familiar. O problema ocorre quando este jovem migra para a idade adulta e se deixa seduzir pelo prazer do deboche em troca de pertencimento.

Zoar parece ser atitude normal em adolescentes lotados de energia e de necessidade de auto-afirmação. Fazer as coisas “de zoeira” parece ser também um mecanismo de autodefesa de uma mocidade que, em prol de um status, desautoriza a autonomia da própria personalidade.

É provável que a palavra zoar tenha origem onomatopaica, relacionada ao som incômodo dos zumbidos de insetos. O marimbondo, por exemplo, usa o melhor dos seus zumbidos para atrair a fêmea na época do acasalamento. Em contrapartida, queima a paciência de quem convive (ou já conviveu) com caixas de marimbondo penduradas no telhado. Fazer zoeira incomoda, mas dá barato para quem a faz.

A história recente do Brasil guarda inúmeros casos em que a ‘’zoeira’’ operou contra o interesse público. Em 1993, por exemplo, o Brasil inteiro se surpreendeu após a contagem dos votos das eleições presidenciais. Com mais de 4,5 milhões de votos, o candidato Enéas Carneiro, mais famoso pela longa barba, pelos óculos grandes de aros grossos e pelo bordão ‘’meu nome é Enéas’’ que por planos de governo, conquistou a façanha de ser o terceiro mais votado numa eleição que reuniu políticos do naipe de Lula, FHC, Orestes Quércia, Esperidião Amin e Leonel Brizola.

Com o argumento de que “foi por brincadeira, a gente pensava que era um mendigo”, um grupo de adolescentes de classe média de Brasília ateou fogo no índio Galdino de Jesus, que dormia próximo a um ponto de ônibus. Os moleques hoje vivem soltos; eles, filhos de juízes e de desembargadores pertencentes aos 7% da população que detém mais da metade do PIB nacional.

Outro alerta gritante é o bullying nas escolas, que nada mais é que a zoeira especializada em ir até as últimas conseqüências para irritar outros alunos. Pelo menos dois casos de bullying escolar já terminaram em morte no Brasil. Um deles aconteceu em janeiro de 2003, quando o adolescente Edmar Freitas, então com 18 anos, comprou um revólver calibre 38 e disparou contra 50 pessoas durante o horário de recreio. Em 2004, um adolescente de 17 anos, de Remanso, na Bahia, também atirou contra um colega depois de ser ridicularizado na escola.

O prazer juvenil da farra e do achincalhe pode ser muito prazeroso para os brasileiros, mas passa a ser tema sério quando a simples a licença para brincar afeta o bem estar do outro. Tomar atitudes impensadas, sejam elas por impulso ou pela pressão das circunstâncias, pode ser uma arma letal contra o interesse público (afinal, estamos em ano de eleição) e, sobretudo, contra a vida.

Em tempo: estou publicando meu artigo semanal, excepcionalmente, na terça-feira por um bom motivo. Estamos em vias de terminar o nosso novo layout para, enfim, nos tornarmos a revista eletrônica O Patifúndio! E quem mais ganha com isso e você leitor, que fez do blog Descobri a Pólvora! um sucesso de crítica nestes quatro meses. Boas novidades virão nos próximos dias.

Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

Novo por aqui?

Assine a gente e acompanhe as nossas atualizações.Obrigado pela visita!

Entre Jaimão e Gentileza

Michell Niero | Brasil, Cidade, Michell Niero, Personagens, cotidiano, traços culturais | Segunda-feira, 28 Julho 2008

BRASIL - O gentil brasileiro tem sempre uma mensagem de fé guardada como hóstia, abaixo da língua. Ele diz que se “Deus quiser” tudo vai dar certo. Gentil e otimista, este brasileiro não perde a chance de profetizar um mundo melhor, de se apegar a exemplos de sucesso isolados - como o do ex-camelô Silvio Santos, por exemplo. Ele acredita em milagres, é bem humorado e faz promessas. “Deixa a vida me levar” é o que se escuta no rádio dele. “Se Deus quis, que sou eu para discordar?”, ele também questiona. Gosta de ditados populares, velhas máximas, loteria; o repertório de assuntos em rodas de amigo limita-se a futebol, novelas, mulheres (homens), carro, vizinhos, família e igreja. Quando acontece algum assassinato na vila, o brasileiro comenta e sente medo.

O ministro da propaganda nazista, Joseph Goebels, sempre deixou claro nos seus escritos que para mobilizar 1 milhão de alemães não foi preciso mudar as crenças e os valores deles. “A melhor comunicação é aquela que reforça os valores vigentes de uma sociedade”. E foi o que ele fez.

As características do gentil brasileiro estão reunidas em muitos dos líderes carismáticos, surgidos em meio a um povo miserável e sofrido. Surgem para amplificar a voz de quem vive à margem do progresso e da globalização, são fortes e encorajam um grande contingente de pessoas a repetir atitudes e rituais. Foram eles Antonio Conselheiro, Frei Damião, Padre Cícero. Todos eles têm em comum a militância em regiões isoladas, paupérrimas e longínquas dos grandes centros urbanos. Reafirmaram o cristianismo em terras de jagunços, justiceiros e coronéis. Morreram heróis para se tornarem santos na literatura de cordel e na reza forte desse povo sofrido.

Em meio à urbe carioca, um desses líderes, o Profeta Gentileza (foto), tornou-se figura presente no folclore urbano trazendo lições do cristianismo ortodoxo em muros, viadutos, pilastras, mensagens essas que podem, até hoje, serem vistas por entre os becos da cidade.

Diz a história que ele se chamava José Datrino. Era um empresário que ao saber do incêndio de um Circo, ouviu “vozes astrais“, ditando sua nova missão. Sua primeira ação foi plantar um jardim sobre o terreno que abrigava Circo incendiado. Renunciou à vida de homem normal e se tornou um dos giramundos mais conhecidos do Rio de Janeiro. A todos que abordava, deixava mensagens em prol do amor, da bondade, do respeito pelo próximo e pela natureza. A quem lhe chamava de louco, ele rebatia. “Sou maluco para te amar e louco para te salvar“.

Depois de sua morte, tornou-se ícone, estampando camisetas de playboys cariocas, em Copacabana e Ipanema, ganhou uma música da cantora Marisa Monte e em breve será homenageado por Glória Perez, novelista da Rede Globo, na próxima novela das 8.

Pegando a Via Dutra, estrada que liga o Rio a São Paulo, chegaremos a Osasco, cidade da região metropolitana paulista. Lá se encontra um brasileiro menos gentil. Mora também nas ruas, mas não tem vontade de ser mais um messias. Ele é conhecido com Jaimão pelo povo. Dizem que ele pertence a uma família rica. Aos que perguntam sobre sua família, ele rebate. “Minha família morreu”.

Convivi parte da minha infância sabendo das estripulias dele. Sua rotina consiste em pintar guias, paredes, calçadas e postes com restos de tinta encontrados pelas ruas; xingar e agredir pessoas também consta no seu catálogo de hábitos. Não aceita esmolas, não pede comida, ao menos nunca o vi nestas situações. Atualmente, ele ostenta um cabelo amarelo, provavelmente fruto de alguma maldade provocada por estudantes da escola em que estudei.

Após subir, desço o degrau que separa a primeira da terceira pessoa. Jaimão já foi agredido, denunciado, por vezes foi preso, repreendido por policiais por conta das pedradas em casas, carros e pedestres. Os moradores contam que ele tem por volta de 65 anos de idade. Ninguém sabe se, de fato, ele se chama Jaime. Sempre foi motivo de piada, de maldades estudantis, nunca procuraram entender a raiva que rege os atos dele. Ele não é religioso e nem defende a moral cristã, muito pelo contrário. Gosta, sim, é de xingar mulheres de vadia e homens de filhos da puta.

Ele continua descabelado enquanto que Gentileza prepara-se para reencarnar em uma novela na Globo. O mendigo osasquense continua com o sapato torto, cinto apertando a calça para ela não cair. Do outro lado da Dutra, um jovem ativista da elite carioca veste a camisa do profeta da paz, do amor e da bondade. Jaimão anda pela Vila Yara mastigando alguma coisa, dentadura ou falta de dentes. Fica à frente da padaria ou da loja de doces ou então da vendinha onde se vende salgadinhos por quilo, sempre à espera do alimento diário. Não será santificado quando morrer, pois nas mãos há uma tinta sem vontade de formar palavras, frases, desenhos, orações.

Um brasileiro sem jeitinho, o anti-herói, um macunaíma. Um exemplo de fracasso ou de resistência? O fato é que, assim como muitos por aqui, Jaimão é também um brasileiro que não tem muito a dizer.

Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

EXTRA - nossa primeira premiação!

Michell Niero | Michell Niero, Premiações | Quinta-feira, 24 Julho 2008

Criado há pouco mais de um ano, o projeto O Patifúndio passou a ganhar asas com o blogue Descobri a Pólvora!, nascido para ser um “exemplar para degustação” de um intento maior. E aqui estamos, após quatro meses de atividades, celebrando este momento especial: a nossa primeira premiação.

A Sandra Cantti, do blog Coisas de Mulher, nos presenteou com este mimo visto mais ao lado. Para ela, este “blog dá um banho!”

Como idealizador deste projeto, quero compartilhar meus agradecimentos a todo o time de colaboradores espalhado por este mundo lusófono. Estes, sim, fizeram do Descobri a Pólvora! um sucesso de crítica e audiência neste pouco tempo de blogosfera.

Como é tradicional, faço a hora e indico o selo a dois blogues parceiros que aprendi visitar diariamente nestes quatro meses. O primeiro é o Sem Fronteiras, do meu colega de jornalismo, Lucas Fernandes. O outro, não menos importante, é o IPSIS LITTERIS, do meu colega Grijó.

Nosso muito obrigado!

O cantor da via férrea

Michell Niero | Brasil, Cidade, Michell Niero, Personagens, cotidiano | Terça-feira, 22 Julho 2008

BRASIL - A chegada do garoto com o violão não gerou surpresa a nenhum dos passageiros do trem metropolitano. Seria essa mesma atitude com um amputado, um pedinte, com uma criança vendendo bala ou então com um engraxate mirim, personagens já tão comuns na linha que corta a zona oeste paulistana.

O garoto, então, procurou equilibrar o corpo no meio do vagão, afastou bem as pernas para manter a postura rígida. Não era de gentilezas, pois sem pedir licença tratou de soltar um Mi maior fanho do violão já machucado pelas quedas. Era uma canção sertaneja, seqüência de acordes bastante comum, quatro versos e então estaríamos num refrão repetitivo e pegajoso. A impostação na voz para imitar os ídolos famosos e a sonoplastia da via férrea se embaralhavam. O balanço do trem prejudicava o andamento da música.

No exato oposto do jovem violonista, entra um homem, negro e cego, batendo no chão com um cajado pobre. Era na verdade um cabo de vassoura mais do que improvisado, mas suficiente para servir de guia. À primeira vista, parecia uma dupla bem entrosada – brasileiro gosta de música e costuma ter dó de gente aleijada, pensei - mas não. Logo na primeira parada as batidas no chão cessaram e o cego, observando mais que todos ali, decidiu ir embora. A culpa era do menino, que desviou a atenção dos clientes dele. Pela experiência que tinha no ramo, sabia que sua passagem pelos corredores abarrotados de gente não lhe renderia muitos trocados dessa vez.

O garoto sabia que os quinze minutos que teria entre as Estações Presidente Altino e Barra Funda teriam de ser divididos, fraternalmente, num repertório bastante popular para sensibilizar a audiência. Pôs-se a tocar uma canção sobre traição, emendou com uma romântica, intercalou também com um sertanejo de orientação evangélica, doutrina religiosa que ganha cada vez mais adeptos por aqui. Uma senhora pensa alto. “Esse menino vai fazer sucesso”.

O garoto, entre uma parada e outra, procurava trafegar pelos corredores e direcionar o número musical a todos os contos do trem (foi ai que eu consegui tirar a foto, após várias tentativas). Na Lapa ele dá uma pausa, puxa da bolsa do violão um chapéu de panamá:

- Primeiramente, queria agradecer a todos vocês. Eu sou cantor, tâmo ai na batalha pra mostrar nosso trabalho e queria pedir pra vocês uma ajuda. Pra quem não puder ajudar, mesmo assim, deus lhe pague.

Antes disso, tive certeza de que o cego era cego mesmo após levar dele uma cotovelada bem dada na orelha. Tirei da bolsa dois reais e dei pro garoto.

Depois da passagem da sacolinha, ele, entusiasmado com o dinheiro que recebeu, mandou ver numa canção animada, dessas de bailão popular. Chegamos na Barra Funda, ele agradeceu como quem se despede do Raul Gil:

- Obrigado gente, foi muito bom ter vocês aqui, deus abençoe e até a próxima.

Nenhum aplauso foi ouvido, ele também não foi para o camarim e nem se lembrou de dizer o nome para a platéia. Acompanhei ele até onde a vista alcançou. Foi com o violão nas costas para o fim da plataforma e se sentou para preparar um novo show. E eu, agora “abençoado”, subi as escadas rolantes para trabalhar.

Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

O trouxa na roleta

Michell Niero | Brasil, Michell Niero, Música, cotidiano, traços culturais | Segunda-feira, 14 Julho 2008

para ler ouvindo - Tião Carreiro e Pardinho- A coisa tá feia

BRASIL - A relação do brasileiro com o azar começa cedo, logo na infância. Parte da culpa vem dos pais, a outra se divide entre a cultura, as padarias e os botecos espelhados pelas vilas do País. Jogar independe de classe social, pois há mercado para todos os bolsos, idades, gostos e credos. Do primeiro baralho (aquele jogo do mico), passando pelos bingos nas igrejas e rifas no trabalho, até o mais sofisticado poker em Cassinos pouco vigiados, a cultura da “fezinha” por aqui é brasa forte, seja de forma clandestina ou lícita.

Por aqui, quem foi o rei do baralho vira logo o trouxa na roleta. A música escolhida para a leitura deste artigo é “a coisa tá feia”, dos geniais Tião Carreiro e Pardinho. É mais ou menos isto que eles dizem em certo momento da música. A sabedoria popular permite perceber que desafiar o azar no Brasil é conseqüência de um país onde apostar as fichas na sedução do jogo aparece muitas vezes como a única chance de se deslocar socialmente.

A parede grande e dura do fracasso, quase sempre, é o destino de quem não tem “um puto no bolso”. A sedução do jogo entorpece, principalmente quando envolve a chance de ganhar do outro. E também ganhar algo do outro, geralmente o dinheiro. Mudemos de cenário.

Em uma das minhas muitas viagens de trem, presenciei um grupo de rapazes de meia idade (foto acima) apostando alguns trocados numa partida de truco. Os gritos enlouquecidos a cada rodada, misturados com as ofertas dos pedintes e vendedores, além da sinfonia rouca e maquinal dos trilhos, tudo passava imune ao volume máximo dos meus fones. Na mão de alguns deles, cigarros acesos e latas de cerveja, e eu ali, alérgico e estressado, tendo de conviver com um bando de tios excitados colando o três de paus, um na testa do outro.

Mas voltando à sobriedade jornalística da terceira pessoa, o pior é que essa cultura carrega outros acessórios indesejáveis, como percebemos. Além da bebida e do cigarro, existem também as drogas ilícitas. Não por acaso, temos por aqui o Jogo do Bicho como um dos jogos de azar mais populares e menos sujeitos a fiscalização.

O engraçado é que essa história de jogar na milhar do burro nasceu de uma maneira até inocente. O Jogo do Bicho foi criado para ajudar um zoológico e saiu da cabeça fértil de um bacana da alta roda carioca. João Batista Viana Drummond, o barão de Drummond, listou os 25 animais existentes no seu jardim zoológico e lançou o jogo, estipulando quatro números para cada bicho, que formam as dezenas de 00 a 99. O critério é usado até hoje.

As apostas ‘’beneficientes’’ envolvendo a aristocracia carioca logo chamaram a atenção da lei. Mas demorou um tempo, exatos 49 anos, para que o Jogo do Bicho se tornasse, enfim, ilícito, situação que ocorreu por meio do Decreto Lei 3688 de 1941, que passou a punir com detenção de 4 meses a um ano quem promovesse jogos de azar no Brasil.

A proibição, no entanto, não inibiu a prática, que continuou se afastando cada vez mais dos arredores de Ipanema para viver confinada na periferia, domícilio em que encontrou um público fiel. Os chefes do jogo, os chamados bicheiros, começaram a tornar-se cada vez mais poderosos, aproveitando o apelo popular de escolas de samba,por exemplo, e também o apoio, direto e indireto, de padrinhos políticos. Traficantes, políticos, dirigentes de futebol, todo mundo que quis tirar uma casquinha da fé do povo tirou.

Há muito jogo no Brasil e pouquíssimos vencedores. Seja na Tele Sena, no bilhar; seja no videobingo ou na loteria esportiva ou então nas raspadinhas, cada aposta mexe com otimismo cego, tão pulsante na cultura dos brasileiros.

Um vício elegante e caricato para os ricos, que faz do hábito de dispensar notas apenas um motivo para sacar outras da carteira. Uma ruína para os pobres, sujeitos a participar da indústria do ridículo para melhorar de vida. Escrevo isso no momento que Silvio Santos, na TV, pergunta para a platéia ‘’quem quer dinheiro?’’.

As caravanas femininas, em oníssono, gritam pelo aviãozinho de dinheiro.

Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!

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