Zoar: verbo intransigente
BRASIL - A primeira oportunidade de zoar (ou de tirar onda) aparece na escola, junto à turma de amigos mais legais. É o momento de @ garot@ sentir na pele, pela primeira vez, o prazer de pertencer a um grupo de pessoas fora do ambiente familiar. O problema ocorre quando este jovem migra para a idade adulta e se deixa seduzir pelo prazer do deboche em troca de pertencimento.
Zoar parece ser atitude normal em adolescentes lotados de energia e de necessidade de auto-afirmação. Fazer as coisas “de zoeira” parece ser também um mecanismo de autodefesa de uma mocidade que, em prol de um status, desautoriza a autonomia da própria personalidade.
É provável que a palavra zoar tenha origem onomatopaica, relacionada ao som incômodo dos zumbidos de insetos. O marimbondo, por exemplo, usa o melhor dos seus zumbidos para atrair a fêmea na época do acasalamento. Em contrapartida, queima a paciência de quem convive (ou já conviveu) com caixas de marimbondo penduradas no telhado. Fazer zoeira incomoda, mas dá barato para quem a faz.
A história recente do Brasil guarda inúmeros casos em que a ‘’zoeira’’ operou contra o interesse público. Em 1993, por exemplo, o Brasil inteiro se surpreendeu após a contagem dos votos das eleições presidenciais. Com mais de 4,5 milhões de votos, o candidato Enéas Carneiro, mais famoso pela longa barba, pelos óculos grandes de aros grossos e pelo bordão ‘’meu nome é Enéas’’ que por planos de governo, conquistou a façanha de ser o terceiro mais votado numa eleição que reuniu políticos do naipe de Lula, FHC, Orestes Quércia, Esperidião Amin e Leonel Brizola.
Com o argumento de que “foi por brincadeira, a gente pensava que era um mendigo”, um grupo de adolescentes de classe média de Brasília ateou fogo no índio Galdino de Jesus, que dormia próximo a um ponto de ônibus. Os moleques hoje vivem soltos; eles, filhos de juízes e de desembargadores pertencentes aos 7% da população que detém mais da metade do PIB nacional.
Outro alerta gritante é o bullying nas escolas, que nada mais é que a zoeira especializada em ir até as últimas conseqüências para irritar outros alunos. Pelo menos dois casos de bullying escolar já terminaram em morte no Brasil. Um deles aconteceu em janeiro de 2003, quando o adolescente Edmar Freitas, então com 18 anos, comprou um revólver calibre 38 e disparou contra 50 pessoas durante o horário de recreio. Em 2004, um adolescente de 17 anos, de Remanso, na Bahia, também atirou contra um colega depois de ser ridicularizado na escola.
O prazer juvenil da farra e do achincalhe pode ser muito prazeroso para os brasileiros, mas passa a ser tema sério quando a simples a licença para brincar afeta o bem estar do outro. Tomar atitudes impensadas, sejam elas por impulso ou pela pressão das circunstâncias, pode ser uma arma letal contra o interesse público (afinal, estamos em ano de eleição) e, sobretudo, contra a vida.
Em tempo: estou publicando meu artigo semanal, excepcionalmente, na terça-feira por um bom motivo. Estamos em vias de terminar o nosso novo layout para, enfim, nos tornarmos a revista eletrônica O Patifúndio! E quem mais ganha com isso e você leitor, que fez do blog Descobri a Pólvora! um sucesso de crítica nestes quatro meses. Boas novidades virão nos próximos dias.
Michell Niero é brasileiro e idealizador da Revista O Patifúndio. Ele escreve todas às segundas-feiras no blog Descobri a Pólvora!
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BRASIL - O gentil brasileiro tem sempre uma mensagem de fé guardada como hóstia, abaixo da língua. Ele diz que se “Deus quiser” tudo vai dar certo. Gentil e otimista, este brasileiro não perde a chance de profetizar um mundo melhor, de se apegar a exemplos de sucesso isolados - como o do ex-camelô Silvio Santos, por exemplo. Ele acredita em milagres, é bem humorado e faz promessas. “Deixa a vida me levar” é o que se escuta no rádio dele. “Se Deus quis, que sou eu para discordar?”, ele também questiona. Gosta de ditados populares, velhas máximas, loteria; o repertório de assuntos em rodas de amigo limita-se a futebol, novelas, mulheres (homens), carro, vizinhos, família e igreja. Quando acontece algum assassinato na vila, o brasileiro comenta e sente medo.
Criado há pouco mais de um ano, o projeto O Patifúndio passou a ganhar asas com o blogue Descobri a Pólvora!, nascido para ser um “exemplar para degustação” de um intento maior. E aqui estamos, após quatro meses de atividades, celebrando este momento especial: a nossa primeira premiação.
BRASIL - A chegada do garoto com o violão não gerou surpresa a nenhum dos passageiros do trem metropolitano. Seria essa mesma atitude com um amputado, um pedinte, com uma criança vendendo bala ou então com um engraxate mirim, personagens já tão comuns na linha que corta a zona oeste paulistana.
BRASIL - A relação do brasileiro com o azar começa cedo, logo na infância. Parte da culpa vem dos pais, a outra se divide entre a cultura, as padarias e os botecos espelhados pelas vilas do País. Jogar independe de classe social, pois há mercado para todos os bolsos, idades, gostos e credos. Do primeiro baralho (aquele jogo do mico), passando pelos bingos nas igrejas e rifas no trabalho, até o mais sofisticado poker em Cassinos pouco vigiados, a cultura da “fezinha” por aqui é brasa forte, seja de forma clandestina ou lícita.
O engraçado é que essa história de jogar na milhar do burro nasceu de uma maneira até inocente. O Jogo do Bicho foi criado para ajudar um zoológico e saiu da cabeça fértil de um bacana da alta roda carioca. João Batista Viana Drummond, o barão de Drummond, listou os 25 animais existentes no seu jardim zoológico e lançou o jogo, estipulando quatro números para cada bicho, que formam as dezenas de 00 a 99. O critério é usado até hoje.