O preço da liberdade
A história do Rei Amador, ícone da luta de emancipação de São Tomé e Príncipe
TO NEM AÍ, por Emerson Santiago
Tratar de lusofonia sem abordar assuntos relacionados a Brasil ou Portugal. Será que consigo?
No dia 4 de Janeiro de 2005 pela primeira vez celebrou-se em São Tomé e Príncipe, com um feriado nacional, uma figura já conhecida por todos aqueles que tiveram a oportunidade de segurar uma cédula de dobra (a moeda são-tomense) nas mãos. O feriado era dedicado ao Rei Amador, líder de uma revolta de escravos do arquipélago em 1595. O dia 4 de Janeiro marca a data de seu justiçamento pelas autoridades colonias portuguesas.
Amador foi talvez o pioneiro em todo o império português (e porque não no mundo todo?) em organizar uma revolta de escravos oriundos do tráfico negreiro promovido pelos europeus. A origem da tal revolta deve-se às condições extenuantes de trabalho demandada pelos europeus.
Pois bem, durante um ano inteiro, Amador conseguiu espalhar o caos pelas ilhas (das quais na época também faziam parte numa só esfera administrativa Ano Bom e Bioko, ambas pertencentes agora à Guiné Equatorial). Declarou-se rei do arquipelágo e ocupou efetivamente mais de metade do território.
Finalmente, no início do ano de 1596, na data já citada, foi traído por familiares e colaboradores diretos e entregue às autoridades, que o prenderam e enforcaram, dando assim origem a um mito que sobreviveu por séculos naquele país.
Quer dizer, não oficialmente, pois até o fim do domínio português naquelas ilhas, Amador era considerado um verdadeiro proscrito. Aliás, como aconteceu em várias outras paragens do império português, como por exemplo em Moçambique com Gugunhana, rei de Gaza, ou Dom Boaventura, chefe tribal timorense que se recusava a reconhecer o domínio português em sua ilha. Só com a independência de São Tomé a figura de Amador foi reabilitada e a história deste pioneiro líder negro pôde ser vista de um enfoque diferente daquele dado pelos colonizadores europeus.
Há ainda hoje uma polêmica sobre Amador e os seus seguidores, principalmnte sobre a sua alegada origem Angolar (o Angolar é o habitante da parte sul da ilha de São Tomé; mesmo sobre a própria origem dos Angolares recai um véu de mistério, pois alguns afirmam serem simplesmente escravos vindos de Angola, outros que eram escravos sobreviventes do naufrágio de um galeão e por aí vai). Aparentemente, tal origem Angolar teria sido criada por autores portugueses na década de 60. Por outro lado, algumas fontes reiteram a origem Angolar de Amador, e vão além, afirmando que o reino Angolar continuou depois de Amador, meio que clandestinamente, e que António de Almada Negreiros, pai do famoso José Almada Negreiros teria divulgado por volta de 1895 a foto de um dos sucessores de Amador, o rei Simão Andreza.
Há até mesmo quem diga que Amador é uma lenda, um líder fictício de uma revolta que ocorreu de fato. Mas, existindo ou não, é verdade que todas as nações necessitam de algum modo de tais figuras emblemáticas. Assim como no Brasil existe a figura de Zumbi dos Palmares, São Tomé teve, pelo menos cem anos antes, o seu Zumbi, um verdadeiro rei africano, tendo existido ou sendo meramente fruto da mais inventiva ficção. O preço que Amador estava disposto a pagar pela sua liberdade e de seus comandados é maior do que aquele que consta de todas as notas de dobra são-tomense emitidas até hoje com o seu perfil.
Leitura
Fernando de Macedo, Teatro do Imaginário Angolar de S.Tomé e Píncipe, Coimbra: Cena Lusófona 2000
adendo: aimagem de Amador nas notas bancárias é uma criação artística pós-colonial atribuída ao pintor Pinásio Pina, pois não existe nenhuma pintura ou gravura deste escravo do século XVI.
Emerson Santiago é brasileiro, advogado, professor de inglês e lusófono declarado. Ele escreve todas às quintas-feiras no do blog Descobri a Pólvora!










