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O balanço e a corda em Timor-Leste – PARTE II

Renata Hummel | Timor Leste, política | Terça-feira, 10 Junho 2008

 O blog Descobri a Pólvora! publicou, na terça passada, a primeira parte do relato produzido pela socióloga Renata Hummel sobre o período que participou como voluntária nas missões brasileiras no Timor Leste. Agora, na integra, a segunda parte 

A vida dos “malaes” [estrangeiros que trabalham no Timor] por aqui é boa demais. Enquanto o timorense comum tem renda média de cerca de 0,50 de dólar por dia, insuficiente para o próprio sustento, quanto mais de uma família, o “malae” comum ganha de US$ 1 mil a 19 mil, alguns mais do que isso. Em Díli, os timorenses em maioria ocupam cargos subalternos – com exceção da elite governamental, na maioria descendentes de portugueses – como varredores de rua, motoristas de táxi, empregados de restaurantes e mercados, vendedores de frutas, gasolina, jornais e cartões telefônicos. O trabalho infantil é muito comum e degradante: as crianças de oito a dez anos carregam nos ombros longos pedaços de paus, com frutas penduradas: vendem cachos de banana ou dez mexericas por 1 dólar, ou ainda chapéus e bandeirinhas do Timor por 0,50 de dólar.

A subnutrição está na cara de quem quiser ver. Já os malaes… Com nosso salário, é possível ter uma vida mais que confortável em Díli ou qualquer lugar do Timor, por mais que aqui a economia seja dolarizada. É possível comprar um carro ou uma moto decentes aqui por menos de 5000 dólares, por isso quase todos os estrangeiros estão motorizados, e mais ainda os que trabalham para a ONU, que recebem suas caminhonetes quase novas.

As praias timorenses são paradisíacas e apinhadas de estrangeiros. Os restaurantes e danceterias idem. E com um salário desses, é possível a qualquer estrangeiro – mesmo os professores brasileiros, com o segundo salário mais baixo entre os “internacionais” – passar uma semana em Bali, a 1h e meia de avião de Díli, e onde 1 dólar vale 9 mil rupias indonésias. E ainda nem falei sobre os “deslocados internos”, essa imensa massa de pessoas expulsas de suas casas pelo medo, e que hoje moram em barracas da ONU e vivem de doações de alimentos e roupas, e que segundo as últimas estatísticas chegam a mais de 100 mil pessoas em todo território.

Então é andar por Díli e ver os timorenses morando em barracas (situação ainda mais complicada na época das chuvas torrenciais por aqui), e os estrangeiros em hotéis luxuosos; os timorenses andando a pé ou socados dentro de mini-ônibus (que aqui chamam “mikrolets”), e os estrangeiros às vezes sozinhos em caminhonetes 4×4; as crianças subnutridas nos campos de deslocados e os “malaes” ao sol de belas praias se empanturrando de peixes e iguarias locais…

Não é que esse “balanço” de um ano de Timor-Leste ficou um tanto quanto sombrio? É que mais uma vez, e em uma das mais jovens nações do mundo, a corda anda arrebentando do lado mais fraco. E o povo que resistiu mais de 24 anos à violenta repressão indonésia anda agora padecendo na não menos violenta “roda-viva” do mundo atual.

Renata Hummel é socióloga, participou da missão brasileira CAPES/Timor-Leste como professora de História e está de volta ao Brasil para divider com os leitores do blog Descobri a Pólvora! e da Revista O Patifúndio a sua experiência perto do povo maubere.

O balanço e a corda em Timor-Leste – PARTE I

Renata Hummel | Especiais, Timor Leste, política | Terça-feira, 03 Junho 2008

O blog Descobri a Pólvora publica, em duas partes, os relatos da socióloga Renata Hummel sobre o período em que trabalhou como professora de história no Timor-Leste

Estou aqui em meus últimos dias de Timor-Leste, mas não vou embora com a sensação de “dever cumprido”. Pelo contrário, deixo o país com a certeza de que podíamos ter feito muito mais e não fizemos. A próxima missão brasileira – que deve chegar nos primeiros dias de julho à Díli – foi remodelada, e era urgente que isso fosse feito. Sempre me pareceu que nossa tarefa por aqui não estava muito bem definida, tanto que passamos um bom tempo sendo jogados de um canto a outro: era para fazermos os livros didáticos, mas ninguém sabia qual o conteúdo curricular e quantos livros; era para darmos aula de “bacharelato” – cursos rápidos (1 mês) para diplomar professores em atividade – mas a cooperação portuguesa retinha os nomes dos alunos e a quantidade.

Nesse jogo de empurra entre as cooperações brasileira e portuguesa, somada à indefinição do governo timorense (incluindo as mudanças de ministros e de diretrizes), ficamos ao todo quase 5 meses (dos 11 que ficamos aqui) sem fazer absolutamente nada – apenas aguardando… Nos 6 meses que trabalhamos realmente, fizemos três livros didáticos e dois guias para professores. E neste último mês, às pressas, saiu o curso de bacharelato e pudemos passar um mês trabalhando com os professores timorenses. O que mostra que o governo brasileiro gastou uma pequena fortuna para trazer professores de história e geografia que podiam ter feito muito mais do que fizeram durante a estada por aqui.

A situação da educação mostra um pouco como as coisas andam sendo definidas por aqui. Existe um sem número de instituições, cooperações, ONGs e até igrejas atuando na área, mas inexiste qualquer tipo de coordenação entre elas. A UNICEF e a Igreja Católica produzem livros didáticos, assim como a cooperação brasileira. Só que as duas primeiras possuem orçamento para imprimir os livros, enquanto a cooperação brasileira deixa apenas os CDs gravados – a impressão fica a cargo do governo timorense. Para se ter uma idéia de como isso funciona, os livros da missão de 2006 foram impressos apenas no final de 2007, e parte deles não foi sequer distribuído nas escolas timorenses. Talvez os professores brasileiros da missão 2009 vejam os livros que produzimos neste ano, mas não sei quando os professores e alunos timorenses terão acesso a eles.

Quanto aos cursos de bacharelato, há também muita frustração, de nossa parte e também dos alunos. Temos apenas um mês para ministrar um curso de história e geografia que deveria levar dois anos. Os alunos deixam seus distritos e ficam (mal) hospedados no Instituto de Formação durante o curso, recebendo refeições do governo e tendo aulas de manhã e de tarde. Detalhe: a maioria dos alunos/professores que recebemos sequer atua como professor de história ou geografia. Dos 25 que diplomamos essa semana, apenas três dão aula em ensino secundário, dois deles de história, e um de português – os outros são professores primários.

Algo semelhante acontece nos bacharelatos de outras matérias: no de biologia, por exemplo, apenas dois entre cerca de 30 eram realmente professores da matéria, os outros eram professores também do primário. Portanto, além de ser excessiva a quantidade de matéria a ser dada e pouco o tempo disponível, ainda não condiz com o interesse profissional ou vontade pessoal do aluno/professor. E mesmo assim é impressionante a dedicação, o esforço e a gentileza dos timorenses em sala de aula.

E o quanto percebem o que anda acontecendo, ao declararem durante o discurso de formatura, em frente ao ministro da educação, o quanto o bacharelato deve deixar de ser “uma formalidade” para tornar-se “real”. É patente a necessidade de “quadros” timorenses para o governo, o serviço público, a educação, a saúde. No entanto, a opção tem sido a diplomação “instantânea”. Distribuem-se títulos e diplomas a torto e a direito, enquanto ao mesmo tempo assiste-se a uma multiplicação desenfreada de “assessores” e “consultores” estrangeiros em todas as instâncias, cargos, ministérios e áreas, defendendo sabe-se lá quais interesses (menos os dos timorenses, bem claro). As posições-chave ainda permanecem ocupadas por estrangeiros, ou “malaes” como eles nos chamam por aqui. E vai ser difícil tirar o doce da boca dessas crianças…

CONTINUA NA PRÓXIMA TERÇA

Renata Hummel é socióloga, participou da missão brasileira CAPES/Timor-Leste como professora de História e está voltando ao Brasil em junho.

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